Editorial

A outra face do crime

Mudanças nos tipos de delitos mostram que a criminalidade não acaba

A pandemia causada pelo novo coronavírus, além da tragédia na área da saúde afetou fortemente a economia mundial. O isolamento social foi adotado em praticamente todos os países, em menor ou maior grau, resultou em profundas alterações no comércio mundial.

Com a criminalidade não foi diferente, como mostram informações recolhidas por agências de notícias internacionais.

Autoridades de diversos países constatam a queda de atividades ilegais relacionadas ao tráfico de drogas e ao contrabando, uma vez que viagens internacionais praticamente foram interrompidas em várias partes do mundo e muitos países fecharam suas fronteiras.

Furtos e roubos também caíram. Por outro lado, cresceram nas últimas semanas em escala mundial os crimes relacionados a fraudes com cartões de crédito e golpes pela internet. A bandidagem também está de home office.

O narcotráfico foi o primeiro tipo de crime a ser afetado com a chegada da Covid-19. Com metade da população mundial em isolamento social, um fato inédito na história, com aeroportos fechados, navios ancorados nos portos e muitas fronteiras fechadas, houve uma queda no tráfico internacional.

Com pouquíssimas pessoas viajando, é mais fácil identificar quem está transportando substâncias ilegais. O tráfico no varejo, nas ruas, também ficou mais difícil.

Com inúmeros países adotando quarentena, ficou complicado para traficantes manterem pontos de venda nas ruas sem chamar atenção. Até a venda de produtos falsificados e bugigangas foi interrompida. As fábricas na China estão fechadas e as remessas suspensas, ao menos até o fim da pandemia.

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Nos Estados Unidos houve queda acentuada de assaltos, furtos e roubos por conta do isolamento social. Já no mês de março, na primeira semana de isolamento, houve queda nesse tipo de crime em cidades. Especialistas em criminalidade dizem que a queda ocorre pela simples razão de que não há vítimas nas ruas.

Mas a diminuição em alguns tipos de crimes ou ocorrências policiais também acontece na nossa região e no Estado de São Paulo.

Mesmo sem dados atualizados, nas primeiras semanas de isolamento houve queda nos acidentes de trânsito, segundo a Secretaria de Segurança Pública, resultado direto da menor circulação de veículos, mas a queda mais acentuada foi nos roubos e furtos de celulares.

No período de 24 a 30 de março, no início da quarentena, esse tipo de crime caiu 56% no Estado em comparação com o mesmo período do ano passado. Desde que medidas de isolamento começaram a ser adotadas em São Paulo, com o fechamento do comércio, escolas e indústrias, teve início uma mudança no tipo de delitos praticados.

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Tráfico, furto e roubo caíram, mas o que preocupa as autoridades da segurança pública foi a migração para outros tipos de delitos. Há uma grande preocupação com o aumento de furtos a estabelecimentos comerciais e industriais que estejam fechados em razão da quarentena.

A crise econômica que poderá atingir o País após a pandemia também é motivo de preocupação, pois poderá acarretar no aumento de alguns tipos de crimes, principalmente os patrimoniais. Houve aumento também de ocorrências derivadas de brigas domésticas e agressões contra mulheres.

Há outro aspecto a ser observado pelas pessoas que necessitam sair de casa e aquelas que trabalham em setores essenciais. É recomendado ter muita atenção em locais onde se concentram dependentes químicos.

Sem movimento nas ruas e com a diminuição de esmolas, muitos podem tentar conseguir dinheiro para as drogas usando a violência. Alguns casos já foram registrados em semáforos de Sorocaba, por isso a recomendação é andar sempre com os vidros do carro fechados.

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Mas há uma modalidade de crime que cresce de maneira preocupante durante a pandemia, os crimes cibernéticos, também um fenômeno mundial.

Além dos golpes comuns, em que os bandidos tentam pegar as senhas da vítima, estão ocorrendo golpes em que os criminosos solicitam dinheiro para kits de teste e vacinas contra o coronavírus. Também têm surgido sites falsos para convencer as pessoas a fazerem doações para campanhas humanitárias relacionadas à pandemia.

Há ainda falsas vendas de máscaras, testes falsos contra o novo coronavírus e até links que prometem a cura para a doença, com o único objetivo de enganar os interessados.

Esse tipo de abordagem criminosa pela internet está aumentando bastante, a ponto de alguns bancos estarem publicando avisos de alerta para seus clientes.

Essas mudanças nos tipos de delitos mostram que a criminalidade não acaba. Ela infelizmente se transforma, se adapta aos novos tempos e como uma epidemia, precisa ser sempre combatida.

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