Editorial

A nossa taça. O nosso cálice



Dos mais de 700 mil turistas que estão na Rússia para a Copa do Mundo, mais de 10% são brasileiros. Com crise ou sem crise, como temos visto pela TV e pelas mídias sociais, 72.500 brasileiros estão na Rússia assistindo futebol, passeando em bandos e viram nossa Seleção ganhar mais um trauma a partir de um gol contra. E poucos, ou muitos, dependendo do ambiente e situação, envergonham a nossa concepção, enquanto seres humanos, pelo seu comportamento. Seriam essas atitudes o que estamos produzindo hoje? Minorias, uns poucos abestalhados diriam outros. Os ingleses e seus “hooligans” são bem piores, tentariam justificar uns poucos.

O que importa é o que esse comportamento de matilha continua a tomar conta de muitos brasileiros. Que geração é essa? Que poucos escolhidos são esses, que pouco têm a oferecer a si mesmos além do assédio ao povo que lhes hospeda, à tomada de espaços públicos, a imposição de músicas e gritos em restaurantes, o vazio, o vazio, o vazio… Ou deveria ser o horror? Pai, afasta de nós esse cálice.

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Nesta segunda-feira, 9 de julho, celebram-se 86 anos de um marcante ato político, maduro, basicamente iniciado por jovens ao responder contra a usurpação de poder do governo federal: a Revolução Paulista de 1932. Explica o jornal O Estado de São Paulo que teve entre seus diretores, um dos organizadores do movimento: “Derrota militar, vitória política. Os rebeldes paulistas que enfrentaram as tropas federais de Getúlio Vargas, de 9 de julho a 4 de outubro de 1932, perderam nas trincheiras, mas puderam comemorar o sucesso de seus ideais, na luta pela liberdade e pela democracia. Foram 84 dias de enfrentamento, período em que o governo central mobilizou mais de 300 mil homens contra um contingente bem menor – cerca de 200 mil voluntários, dos quais cerca de, no máximo, 40 mil em condições de combate. Morreram mais de mil constitucionalistas, os paulistas revolucionários que exigiam de Getúlio uma nova Constituição (…)”

Jovens como esses, talvez mais ingênuos e muito mais idealistas que esses que ainda estão na Rússia, há 86 anos foram metralhados e mortos numa manifestação pública em São Paulo. Alguns historiadores atribuem que foi uma revolução da elite paulistana. Outros dizem que atingiu camadas mais populares. O que importa é que jovens universitários pegaram em armas contra tropas vindas de diversos estados federalistas e partiram em trens em direção ao interior de São Paulo. Passaram por Sorocaba e vieram a morrer em batalhas de muito sofrimento, desde bombas aéreas a troca de tiros em bucólicos campos agrícolas. Esse foi o torneio deles. Essa foi a taça, servida em sangue, de jovens paulistas. Cornélio Pires, escritor de nossa região, foi correspondente do jornal O Estado de São Paulo e reportou sobre as dores das batalhas, com feridos gritando por horas em campo aberto, sem poder receber ajuda de seus companheiros. Esses relatos dramáticos e verdadeiros, e outros mais leves e bem-humorados, podem ser encontrados em um de seus livros, “Chorando e Rindo”.

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São dois contrastes que levam à reflexão. Em ambos os casos, são jovens burgueses como diriam alguns, de elite. Nessa comparação, não se deseja o pegar em armas, mas o pegar da consciência, do ato político, da participação efetiva na sociedade que temos hoje. Que não se atribua “a eles”, portanto longe de si, a responsabilidade pelo ato de mudança e transformação de nossa sociedade. A mudança política e social começa em casa, na escola, numa atitude pessoal enquanto cidadão. Daí a responsabilidade para exigências maiores.

“Foi-se a Copa? Não faz mal. Adeus chutes e sistemas. A gente pode, afinal, cuidar de nossos problemas. Faltou inflação de pontos? Perdura a inflação de fato. Deixaremos de ser tontos

se chutarmos no alvo exato. O povo, noutro torneio, havendo tenacidade, ganhará, rijo, e de cheio, A Copa da Liberdade”. Mais atual impossível o pequeno poema de Carlos Drummond de Andrade. Escrito em 1978, ou seja, há 40 anos quando fomos desclassificados na Copa do Mundo na Argentina. Mais atual que os berros e aberrações que muitos ainda têm orgulho de praticar.

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