Editorial

A doce santa baiana

Além de ser a primeira santa brasileira, trata-se de uma religiosa baiana que já tinha em vida milhares de devotos conquistados pelo seu empenho nas obras sociais que desenvolvia na sua terra natal

Desde o último domingo o Brasil tem mais uma santa. A Igreja Católica, que tradicionalmente examina com rigor e por longos períodos os processos de canonização, já reconheceu como santos os mártires de Cunhau e Uruaçu, 25 homens e cinco mulheres que foram martirizados no século 17 no Rio Grande do Norte durante as invasões holandesas.

Também foi canonizado Santo Antônio de Sant’Ana Galvão, o Frei Galvão, que nasceu em Guaratinguetá e durante um período viveu em Sorocaba, onde auxiliou na construção do Convento de Santa Clara, que existia na região central da cidade e foi demolido. Também já foi canonizado São José de Anchieta, o Padre Anchieta, que nasceu na Espanha e veio ainda jovem para o Brasil, onde foi um dos fundadores da cidade de São Paulo.

Também figura entre os santos católicos Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus, natural da Itália; São Roque Gonzales, Santo Afonso Rodrigues e São João de Castilho, estes três últimos também considerados santos mártires do Rio Grande do Sul.

A canonização pelo papa Francisco de Irmã Dulce, agora chamada Santa Dulce dos Pobres, traz uma série de peculiaridades. Além de ser a primeira santa brasileira, trata-se de uma religiosa baiana que já tinha em vida milhares de devotos conquistados pelo seu empenho nas obras sociais que desenvolvia na sua terra natal.

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A contemporaneidade de Irmã Dulce talvez seja o diferencial de todos os demais canonizados ligados à vida religiosa do Brasil. Frei Galvão, também brasileiro e que tem uma legião de fiéis seguidores, viveu nos séculos 18 e 19. A ele são atribuídos muitos milagres, mas não há pessoa que tenha convivido com ele. Os depoimentos históricos são escassos. Há relatos de milagres muito depois de sua morte.

Não é o caso de Irmã Dulce que teve vida ativa frente aos seus projetos sociais praticamente até sua morte, em 1992. São incontáveis as pessoas que conviveram com a santa ou por ela foram auxiliados. Várias pessoas que atribuem milagres a ela estão vivas. Irmã Dulce era presença quase que diária na imprensa da Bahia em sua incansável campanha para conseguir recursos para “seus doentes” no conjunto hospitalar que construiu em Salvador e que existe até hoje, destinado ao atendimento preferencial de destituídos, miseráveis, aqueles que não têm para onde correr quando ficam enfermos ou são abandonados.

A freira baiana nasceu em 1914 no seio de uma família abastada, era filha de um cirurgião dentista e professor universitário. Ainda adolescente, mesmo antes de ingressar em uma ordem religiosa, se dedicava a auxiliar mendigos de Salvador.

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Transformou o quintal de sua casa, no bairro de Nazaré, em um local de acolhimento de mendigos e pessoas pobres da cidade. Essa sua dedicação aos pobres aproxima sua biografia à de Madre Teresa de Calcutá. Nos dois casos, os processos de canonização foram muito rápidos por conta da veneração que as duas religiosas inspiraram nas pessoas, o reconhecimento popular de seus atos de caridade.

Na Bahia, como têm mostrado reportagens dos últimos dias, muitas pessoas a tratavam como santa e pediam milagres à doce figura baiana quando ela ainda estava viva.
Há quem atribua a rápida canonização de Santa Dulce dos Pobres a uma estratégia da Igreja Católica em reforçar sua presença no Brasil, país onde vem perdendo fiéis nas últimas décadas, principalmente para denominações neopentecostais.

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Mas é inegável a atração que a pequena freira baiana tem sobre a população, principalmente aquela que foi alvo de seus trabalhos de benemerência. Como mostraram repetidas vezes as reportagens de TV nos últimos dias, Irmã Dulce se transformou em uma santa contemporânea. Há dezenas de pessoas que ajudaram a religiosa a manter seus projetos sociais, principalmente o Hospital Santo Antônio, hoje um complexo hospitalar, social e educacional que nasceu no galinheiro do Convento Santo Antônio. Há dezenas de testemunhos de sua dedicação integral aos desvalidos, apesar de sua fragilidade física.

Há autoridades ainda vivas que lembram em sua insistência em conseguir recursos para as suas obras e há, principalmente, milhares de pessoas que foram beneficiadas pelo seu trabalho social. A Irmã Dulce é venerada e tem devotos em um Estado que é a síntese do sincretismo religioso brasileiro. Transformou-se em uma santa de todos.

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