Editorial

A dança das cadeiras

Áreas vitais para o município, como Educação e Saúde, foram as que mais assistiram a trocas de secretários

O advogado e presidente do Esporte Clube São Bento Márcio Rogério Dias será o novo titular da Secretaria de Gabinete Central da Prefeitura de Sorocaba, um nome pomposo encontrado pelo ex-prefeito José Crespo (DEM) para denominar o tradicional — e geralmente poderoso — cargo de secretário de Governo.

Márcio Dias foi apresentado como futuro ocupante do cargo na sessão da Câmara de Vereadores, onde esteve acompanhado do secretário Flávio Chaves, de Relações Institucionais e Metropolitanas. Como advogado, Márcio Dias foi presidente da subseção de Sorocaba da Ordem dos Advogados do Brasil e já atuou em defesa da prefeita Jaqueline Coutinho (PDT) em 2017. Na ocasião, Crespo havia solicitado o afastamento de Jaqueline das atividades e ações do governo municipal.

Essa nova mudança desatualizou a reportagem de Marcel Scinocca publicada neste jornal na edição do último dia 22 (Prefeitura de Sorocaba soma 92 mudanças no primeiro escalão, 22/8, pág. 5) onde o jornalista mostrou que em menos de três anos foram feitas 92 mudanças no secretariado envolvendo 65 nomes, um fato inédito na administração de Sorocaba e certamente na grande maioria dos municípios paulistas, mais um recorde, uma vez que também é difícil encontrar outra cidade brasileira em que o prefeito tenha sido cassado pela Câmara de Vereadores duas vezes em um mesmo mandato.

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Há menos de uma semana ocorreram duas novas mudanças no secretariado. A titular da pasta do Planejamento e Projetos, Míriam de Oliveira Galvão Zacareli, pediu demissão alegando motivos pessoais e para seu lugar foi designado Fábio Martins, que já ocupou o cargo de secretário da Fazenda até agosto de 2017 e desde então estava lotado no Saae. Também há alguns dias, o empresário Francisco Pagliato Neto, convidado para ocupar a Secretaria do Gabinete Central ficou dois dias no cargo. Pediu exoneração por discordar de decisão da prefeita.

Os nomes dos primeiros secretários municipais do governo Crespo foram anunciados em um hotel da cidade em dezembro de 2016, pouco antes da posse. Desses ocupantes do primeiro escalão, o que ficou mais tempo no cargo foi o diretor do Saae, Ronald Pereira, que só foi exonerado no início deste mês, após a segunda cassação de Crespo. Estava no cargo desde janeiro de 2017.

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Ocupantes de cargos de primeiro escalão — que podem ser ministros de Estado, secretários estaduais ou municipais — são escolhidos por alguns critérios clássicos adotados pela política brasileira. Ou são especialistas reconhecidos para aquela área, geralmente professores universitários, técnicos ou cientistas de notório saber, ou são indicações políticas de partidos ou de grupos que apoiaram ou negociam apoio com o chefe do Executivo.

Se o candidato reunir as duas coisas — conhecimento técnico e forte apoio político — melhor ainda. Difícil saber os critérios utilizados tanto pelo prefeito cassado José Crespo ou pela prefeita Jaqueline Coutinho para a escolha de número tão grande de assessores diretos, assim como a rotatividade nos cargos.

Áreas vitais para o município e que mais geram reclamações na população, como a Educação e Saúde, foram as que mais assistiram a trocas de secretários. A Secretaria da Educação foi a que mais teve trocas de 2017 até agora. Foram seis secretários no período. A Secretaria da Saúde teve cinco trocas desde o início do governo. Tivemos ainda secretários que foram exonerados em meio a escândalos, caso dos titulares da Cultura e Comunicação, citados na operação Casa de Papel. Houve até secretário que foi afastado por determinação judicial.

A grande maioria dos indicados é formada por profissionais bem-conceituados e reconhecidamente competentes, mas mal tiveram tempo de colocar em prática seus conhecimentos a serviço da cidade. Cada secretário também tem seu estilo, quer seguir com seus projetos, muitas vezes em detrimento dos projetos de seus antecessores. A consequente falta de continuidade na administração de cada pasta prejudica a todos. É praticamente impossível uma administração municipal seguir um planejamento com tantas alterações e isso se reflete nos investimentos. A troca constante de secretários e as duas cassações de um prefeito em um mesmo mandato certamente repelem possíveis investidores que precisam de um ambiente político menos conturbado para seus investimentos. Falta pouco mais de um ano até as próximas eleições e Crespo reivindica na Justiça seu retorno à Prefeitura. Se voltar, teremos mais uma rodada de substituições. Uma situação em que perdemos todos, o município e seus cidadãos.

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