A Covid e o esporte
Em meados de agosto deste sui generis 2020, neste mesmo espaço, o Cruzeiro do Sul abordou o já presumível equívoco das autoridades mundiais no contexto da saúde pública e dos esportes por adotarem a clássica estratégia dos “dois pesos, duas medidas” nas deliberações sobre a retomada das atividades presenciais antes da ciência encontrar uma cura para a Covid-19. Optou-se por abrir a guarda antecipadamente, minimizando-se a potencial ameaça ainda quase desconhecida. Lamentavelmente, o tempo se encarregou de provar na prática a teoria de que a prevenção seria o melhor remédio também neste caso. De acordo com a atualização da Universidade Johns Hopkins deste sábado (5), 65 milhões de pessoas já foram infectadas pelo novo coronavírus em todo o planeta, sendo 6.533.968 apenas no Brasil. Mais angustiantes ainda são as cifras das fatalidades: 1,5 milhão de mortos no mundo, com o Brasil figurando entre os líderes desse trágico ranking, somando 175.964 óbitos.
No âmbito dos esportes -- inserido na estatística acima, como todos os demais setores --, o contrassenso é particularmente flagrante na confrontação do relevante -- a preservação da vida -- com os interesses, em tese, secundários -- as finanças. No período de junho a agosto, ao mesmo tempo em que protocolos sanitários eram justificavelmente reforçados com a proposta de arrefecer o alastramento do novo coronavírus, competições profissionais de múltiplas modalidades esportivas receberam liberação do dia para a noite. Torcedores foram mantidos na segurança proporcionada pela participação virtual -- longe das aglomerações típica dos estádios --, porém, do outro lado das telas, os atletas, sob o pretexto da inadiável necessidade de recompor as finanças de clubes e instituições do setor, tiveram de voltar à rotina de treinamentos, viagens, hospedagens e disputas em meio à pandemia.
Há pouco menos de quatro meses, o jornal questionava, entre outras contradições, o reinício dos campeonatos estaduais de futebol Brasil afora -- devidamente autorizados pelas respectivas federações --, assim como a definição das agendas do Brasileirão e da Copa do Brasil, pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Os confrontos válidos pelos campeonatos continentais, como as copas Libertadores da América e Sul-Americana, sob a responsabilidade da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), seguiram caminho idêntico. Amparando seu arbítrio nos precedentes das instituições do futebol europeu, onde a crise sanitária dava, então, sinais de recuo, as demais modalidades esportivas, do tênis ao automobilismo, foram subjugadas pela “necessidade maior e inadiável” do dinheiro, ignorando a contingência da chamada “segunda onda”.
Os resultados da escolha intempestiva vêm se mostrando tão danosos quanto o prenunciado no primeiro trimestre do ano, ainda no início do flagelo. No Brasil, desde a retomada dos campeonatos regionais de futebol, o que se viu foi o aumento expressivo de confirmações de Covid-19 entre atletas, técnicos e até médicos que atuam no setor. O motivo? Óbvio: contatos entre equipes que tiveram contatos com outras equipes, que tiveram contato com passageiros de aviões, que tiveram contato com hóspedes de hotéis...
A amplitude com que a crise provocada pela pandemia atingiu o futebol nacional pode ser medida, por exemplo, na quantidade de desfalques provocados pelo coronavírus na 22ª rodada do Brasileiro da Série A, disputada entre os dias 20 e 23 de novembro. Naquela semana, nada menos do que 61 atletas estavam afastados das 20 equipes participantes da elite do esporte. A situação extrema ocorria entre os palmeirenses, com 18 ausências.
Desde então, a lista de desportistas atingidos pelo vírus só tem aumentado, incluindo mega astros da estatura de Lewis Hamilton. Aliás, neste domingo, o GP de Sakhir, no Bahrein, encerramento da temporada 2020 da F1, não terá o heptacampeão no grid. O vírus se encarregou de tirar o mito de uma corrida pela primeira vez em sua iluminada carreira. Felizmente, o piloto da Mercedes apresenta apenas sintomas leves e deverá estar recuperado ao final dos 14 dias obrigatórios de isolamento. Muitos outros, no entanto, não tiveram a mesma sorte, como Ali Hadi e Ahmed Radhi, respectivamente, técnico e jogador da seleção de futebol do Iraque; Tyler Amburgey, jogador de hóquei dos EUA; Sebastião José da Silva, técnico de futebol brasileiro; Fernando García, treinador espanhol; Norman Hunter, atleta inglês; Jorge Luiz Domingos, massagista do Flamengo; José Raymundo, médico do Brasil de Pelotas; Rodrigo Rodrigues, jornalista esportivo do SporTV.
Diante de todos esses lapsos, está claro que a retomada das atividades esportivas foi intempestiva ou, no mínimo, decidida sem os cuidados necessários. A pergunta que fica é: preservar vidas humanas não justifica um novo intervalo nas competições?