Prioridade local
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) representa a continuidade de um projeto de governo que promete ampliar a proteção social, valorizar o trabalho e estimular o desenvolvimento econômico. Ao conquistar um novo mandato, o presidente terá a responsabilidade de transformar as propostas apresentadas durante a campanha em resultados concretos, enfrentando problemas persistentes do país e respondendo às expectativas de uma sociedade dividida politicamente.
Entre os principais compromissos anunciados por Lula está o fim da escala de trabalho 6 por 1, com a redução da jornada semanal para 40 horas, sem diminuição salarial. A proposta, de grande impacto para trabalhadores e empregadores, exige debate responsável sobre produtividade, custos e condições específicas de cada setor. O presidente também promete manter a política de valorização real do salário mínimo, ampliar programas habitacionais, preservar o Bolsa Família e fortalecer as ações de combate à fome e à desigualdade.
Na economia, o programa prevê investimentos públicos e privados em infraestrutura, estímulos à reindustrialização e medidas para aliviar o orçamento das famílias. A tributação das rendas mais altas também aparece entre as prioridades. Na segurança pública, Lula defende ampliar a atuação federal e criar um Ministério da Segurança Pública. Na saúde e na educação, o plano inclui a expansão de serviços, ações de vacinação e iniciativas para ampliar o acesso à educação integral.
São compromissos relevantes, mas que precisarão ser acompanhados de metas, prazos e fontes de financiamento. A ampliação de direitos e serviços públicos deve caminhar ao lado da responsabilidade fiscal, da eficiência administrativa e da avaliação dos resultados. O crescimento econômico precisa gerar empregos e renda, enquanto os programas sociais devem contribuir para a autonomia das famílias e para a redução das desigualdades.
Para Sorocaba, o novo mandato terá uma dimensão que ultrapassa a relação entre o município e o Palácio do Planalto: a capacidade de articulação entre representantes que podem ter posições partidárias bastante diferentes. Guilherme Derrite, sorocabano eleito senador por São Paulo pelo PP, poderá atuar como uma voz crítica ao governo federal. Na Câmara dos Deputados, Jefferson Campos (PL) também poderá exercer oposição. Na Assembleia Legislativa de São Paulo, Danilo Balas (PL) continuará representando uma corrente política distinta da que ocupa a Presidência da República.
Essa divergência faz parte do funcionamento democrático e não deve ser vista, por si só, como um obstáculo. Parlamentares e governantes têm o dever de fiscalizar, questionar decisões, apresentar alternativas e cobrar resultados. A oposição é legítima e necessária. O que não pode ocorrer é a transformação das diferenças partidárias em barreiras para investimentos, convênios e políticas públicas que beneficiem a população.
Sorocaba precisa manter canais institucionais abertos com o governo federal, independentemente das preferências políticas de seus representantes. Projetos de mobilidade, infraestrutura, habitação, saneamento, saúde e educação exigem planejamento e, em muitos casos, recursos de diferentes esferas de governo. A cidade também precisa ampliar sua capacidade de atrair investimentos produtivos, qualificar a mão de obra e criar oportunidades para quem procura o primeiro emprego ou deseja melhorar de vida.
Cabe ao governo Lula receber as demandas municipais com critérios transparentes, sem discriminação partidária. Da mesma forma, cabe aos representantes de Sorocaba apresentar projetos consistentes e fiscalizar a aplicação dos recursos sem confundir oposição política com impedimento ao desenvolvimento local. Divergir sobre decisões nacionais não deve significar rejeitar uma iniciativa simplesmente porque ela parte de um adversário.
Também será importante que os representantes sorocabanos cobrem do presidente o cumprimento das promessas feitas aos brasileiros, que precisam sair do papel de forma responsável. Para cada compromisso, a sociedade deve poder acompanhar o cronograma, os recursos envolvidos e os efeitos alcançados.
O resultado das urnas encerra uma disputa, mas não elimina as responsabilidades de quem foi eleito. Lula terá de governar para todos, inclusive para os eleitores que preferiram seu adversário. Derrite, Jefferson Campos e Danilo Balas, por sua vez, deverão exercer suas funções com independência e compromisso com o interesse público.
Sorocaba não pode ficar refém das disputas de Brasília ou das divergências partidárias. A cidade tem demandas próprias e uma população que espera respostas concretas. O diálogo institucional, a fiscalização responsável e a capacidade de trabalhar em torno de objetivos comuns devem prevalecer sobre qualquer rivalidade política. Afinal, o desenvolvimento do município não pertence a um partido: pertence aos cidadãos que vivem, trabalham e constroem seu futuro aqui.