Memória abandonada
Reportagem do Cruzeiro do Sul sobre a indefinição em torno da recuperação do Fórum Velho, na praça Frei Baraúna, e do Matadouro Municipal expõe um problema que ultrapassa a situação de dois imóveis
É triste constatar que uma cidade com a importância histórica de Sorocaba trate com tamanha indiferença parte dos poucos testemunhos materiais de seu passado. A reportagem do Cruzeiro do Sul sobre a indefinição em torno da recuperação do Fórum Velho, na praça Frei Baraúna, e do Matadouro Municipal expõe um problema que ultrapassa a situação de dois imóveis. Revela a dificuldade de transformar a memória em compromisso permanente com a identidade, a cultura e o futuro do município. Quando construções históricas desaparecem, se deterioram ou permanecem inutilizadas por tempo indeterminado, não são apenas paredes que se perdem. Desaparecem referências que ajudam uma sociedade a compreender de onde veio e como chegou até aqui.
Sorocaba não ocupa um lugar secundário na história paulista. Fundada em 1654, a cidade se consolidou como ponto estratégico de circulação de pessoas, mercadorias e riquezas. A Feira de Muares, que ganhou importância a partir do século XVIII, transformou o município em passagem obrigatória para tropeiros que transportavam animais e produtos entre o Sul e outras regiões brasileiras. Antes desse processo e durante ele, expedições de bandeirantes paulistas avançaram pelo interior, contribuindo para a ocupação de territórios e a formação de núcleos urbanos. As marcas desse passado deveriam ser motivo de orgulho e, sobretudo, de responsabilidade.
Basta olhar para cidades históricas de Minas Gerais, como São João del-Rei e Tiradentes, para perceber como a preservação pode manter viva a relação entre passado e presente. Ligadas à expansão colonial e à mineração, essas localidades conservam igrejas, casarões, ruas de pedra e conjuntos arquitetônicos que contam histórias de outros séculos. Não se trata de idealizar realidades diferentes nem de ignorar os desafios enfrentados por esses municípios. O contraste está na capacidade de reconhecer o patrimônio como parte da riqueza coletiva e de fazer dele um elemento de identidade, visitação e atividade econômica.
Sorocaba também tem o que contar. No entanto, quantas vezes seus moradores passam diante de construções antigas sem conhecer a história que elas guardam? Quantos prédios precisam chegar a uma situação crítica para que a sociedade volte a discutir sua importância? O antigo Matadouro Municipal, construído em 1928, integra o patrimônio tombado da cidade. O Fórum Velho, por sua vez, está fechado desde 2014. A ausência de uma solução definitiva para a recuperação e o reaproveitamento desses espaços evidencia que reconhecer oficialmente um bem histórico não basta para protegê-lo.
Tombamento sem conservação corre o risco de se tornar apenas um registro burocrático. A proteção efetiva exige planejamento, recursos, fiscalização, projetos tecnicamente responsáveis e, principalmente, decisões administrativas capazes de atravessar mandatos. No caso do Matadouro, a possibilidade de concessão à iniciativa privada pode representar um caminho para viabilizar investimentos. Mas a discussão sobre o modelo não pode servir de justificativa para a demora indefinida. É preciso estabelecer condições claras, prazos, responsabilidades e garantias de preservação. No caso do Fórum Velho, igualmente, a cidade precisa conhecer um plano concreto para devolver função ao imóvel.
A mesma preocupação deve alcançar as antigas estações ferroviárias que ainda restam, testemunhas de uma época em que os trilhos conectavam Sorocaba a outros centros e impulsionavam a economia. Também merece atenção o conjunto de casarões de Brigadeiro Tobias, distrito cuja história se relaciona diretamente com a formação do município. São edificações que não deveriam sobreviver apenas pela resistência de suas estruturas, à espera de que o tempo, a falta de manutenção e a especulação decidam seu destino. Cada uma exige inventário atualizado, avaliação de conservação e uma estratégia de uso compatível com suas características.
No Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, o casarão histórico que abriga o Museu Histórico Sorocabano oferece um exemplo eloquente do valor de preservar. Construído no século XVIII, o imóvel tem ligação com a história rural da região e acolheu a Marquesa de Santos em 1842, durante a Revolução Liberal. Sua permanência permite que gerações conheçam a história por meio de um lugar concreto, e não apenas de páginas de livros. É essa experiência que a preservação pode proporcionar: aproximar a população de acontecimentos, personagens e modos de vida que ajudaram a formar a cidade.
Há também uma dimensão econômica frequentemente esquecida. Patrimônio recuperado pode abrigar atividades culturais, exposições, serviços, espaços de convivência e iniciativas turísticas. Pode movimentar o comércio do entorno, estimular visitas e criar oportunidades. Isso não significa transformar toda construção antiga em empreendimento comercial, mas compreender que conservar e dar uso adequado a um imóvel são medidas que podem caminhar juntas. O abandono, ao contrário, custa caro: acelera a deterioração, amplia a necessidade de intervenções e pode tornar a recuperação cada vez mais complexa.
A responsabilidade, evidentemente, não é exclusiva do poder público. A população precisa conhecer, valorizar e cobrar a proteção desses bens. Mas cabe à administração liderar o processo, apresentar prioridades, buscar parcerias e prestar contas dos resultados. A iniciativa privada pode contribuir, desde que o interesse econômico respeite as exigências de preservação e o valor coletivo dos imóveis.
Sorocaba tem razões de sobra para se orgulhar de seu percurso. O problema é que o orgulho histórico perde consistência quando a cidade não consegue cuidar dos sinais concretos dessa trajetória. Não basta celebrar os tropeiros, os bandeirantes, a Feira de Muares e os personagens que marcaram o passado se as construções capazes de aproximar essa história do presente continuam ameaçadas.
Uma cidade não precisa congelar o tempo para preservar sua identidade. Precisa, sim, impedir que a modernização seja confundida com esquecimento. O desenvolvimento urbano só é completo quando abre espaço para o novo sem apagar o que veio antes. Se Sorocaba permitir que seus poucos imóveis históricos desapareçam, perderá muito mais do que arquitetura: abrirá mão de parte de sua memória e de uma riqueza que nenhuma obra nova poderá reproduzir. O passado não pode ser recuperado depois que seus últimos vestígios se forem. Preservá-los, portanto, não é um gesto de nostalgia. É um dever com as próximas gerações.