A roda do poder

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As eleições de 2026 ainda não terminaram, mas a política já ensaia o próximo capítulo. Enquanto o País se prepara para concluir a escolha de seus representantes, os movimentos em torno de 2028 ganham espaço nos bastidores. Para quem vive da política, o calendário nunca fecha: uma eleição acaba e a seguinte começa antes mesmo de a primeira produzir todos os seus efeitos.

Em Sorocaba, a corrida pela presidência da Câmara Municipal no biênio 2027-2028 já mobiliza vereadores e interlocutores do Executivo. O presidente da Casa, Luis Santos (Republicanos), exonerou três ocupantes de cargos ligados a vereadores após um rompimento político. O prefeito Rodrigo Manga, sem partido, manifestou apoio à continuidade de Santos no comando do Legislativo. A eleição deve ocorrer na última sessão do ano, em dezembro. Decisões que parecem administrativas revelam a disputa por espaço, influência e capacidade de conduzir os próximos movimentos. A movimentação não é exclusividade local. Em Brasília, Hugo Motta, na Câmara dos Deputados, e Davi Alcolumbre, no Senado, também se articulam para permanecer à frente das respectivas Casas. Esses postos concentram poder sobre pautas e votações, e suas decisões repercutem nos Estados e municípios.

Em Sorocaba, a disputa ganha peso porque, em 2028, haverá eleições municipais. A cidade terá um novo prefeito, já que Manga está no segundo mandato consecutivo e não pode concorrer novamente ao cargo. Na Câmara, o histórico das urnas mostra que o eleitor tem optado pela renovação.

O problema não está na articulação política em si. Negociar apoios, disputar cargos e buscar votos fazem parte da democracia. A questão começa quando preservar o posto deixa de ser um meio para realizar um projeto público e se transforma no próprio objetivo. Quando a pergunta decisiva não é de que a sociedade precisa, mas quem ficará com a cadeira, quem será prestigiado e quem será afastado, o interesse coletivo vira coadjuvante de uma trama particular.

É nesse ponto que o jogo do poder mostra sua face mais desgastante. Adversários deixam de ser concorrentes legítimos e passam a ser obstáculos a eliminar. Divergências convertem-se em rompimentos pessoais; cargos e estruturas administrativas podem virar peças de retaliação; reputações são atingidas para enfraquecer quem ameaça uma posição. Desqualificar o outro passa a parecer tão importante quanto convencer o eleitor.

Lord Acton (1834-1902), historiador e político liberal britânico, conhecido como um dos maiores defensores da liberdade individual no século 19, deixou uma advertência célebre: "O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente." A frase aponta para um risco permanente: quando não encontra limites, fiscalização e compromisso público, o poder passa a tratar a própria continuidade como justificativa suficiente. Transparência, instituições independentes, regras claras e cobrança da sociedade não são obstáculos à política; são condições para que ela não se torne propriedade de quem ocupa temporariamente um cargo.

Há um preço que não aparece nos balanços financeiros. A sucessão interminável de disputas consome tempo e energia que deveriam estar voltados à solução de problemas concretos. Produz desconfiança, aprofunda a polarização e alimenta a percepção de que a máquina pública serve para acomodar aliados, premiar fidelidades ou punir dissidentes. O desgaste institucional e a perda de credibilidade também custam caro. A conta é paga por cidadãos que precisam de serviços eficientes e de representantes atentos às suas necessidades.

A política exige liderança e capacidade de construir maiorias. Disputar uma função não é condenável por si só: é preciso examinar os meios empregados, as prioridades e os resultados. Permanecer no cargo não prova competência, assim como trocar o comando não garante renovação. A legitimidade nasce da atuação pública, não da habilidade de sobreviver às articulações internas.

O ciclo, entretanto, não descansa. Antes de uma eleição terminar, outra já orienta cálculos, alianças e ressentimentos. O mandato em curso corre o risco de virar plataforma para o próximo, enquanto o futuro serve de justificativa para decisões tomadas no presente. A vida pública não pode ser reduzida a uma corrida em que cada vitória prepara a batalha seguinte e o adversário precisa ser apagado.

Em Sorocaba, em Brasília ou em qualquer esfera de governo, a pergunta essencial deveria ser menos quem ficará no comando e mais para que o comando será usado. O poder é necessário para governar; não pode ser confundido com a finalidade de governar. Quando conquistar e conservar a cadeira se tornam prioridades absolutas, a política se afasta de sua razão de existir. Enquanto os protagonistas calculam o próximo movimento, a conta — financeira, moral e institucional — continua chegando à população.