A conta da chuva
Existem problemas que surpreendem pela dimensão, mas não pela ocorrência. As chuvas intensas que provocam alagamentos, interrompem o trânsito, invadem imóveis e deixam prejuízos pelo caminho estão nessa categoria. Em Sorocaba, a Primavera — que marca a transição do período "seco" para o de chuvas — e a aproximação do Verão deveriam servir menos como motivo de preocupação e mais como um chamado à ação. Afinal, a cidade conhece os efeitos das tempestades e não pode alegar desconhecimento diante de um fenômeno que se repete a cada ano.
Os primeiros episódios de precipitação mais intensa já funcionam como um alerta. E as projeções meteorológicas reforçam a necessidade de atenção. O El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, tem previsão de atingir intensidade muito forte no trimestre entre outubro e dezembro de 2026, segundo o painel elaborado por órgãos federais. Embora seus efeitos variem conforme a região, as previsões para o Sudeste incluem a possibilidade de períodos de chuva acima da média no Verão, que começa em 21 de dezembro. Não se trata de anunciar uma catástrofe, mas de reconhecer que o risco exige preparação.
A pergunta que se impõe é simples: o que Sorocaba aprendeu com as chuvas dos últimos anos? Mais precisamente, o que a administração municipal está fazendo, agora, para reduzir os transtornos que poderão atingir a população nos próximos meses? Não basta acompanhar a previsão do tempo, mobilizar equipes quando a água já tomou as ruas e contabilizar os prejuízos depois que o temporal perde força. É preciso agir antes que a emergência se instale.
Limpar bueiros, desobstruir galerias, retirar resíduos de córregos, verificar a capacidade das redes de drenagem e avaliar as condições das bacias de contenção são providências essenciais. O desassoreamento do rio Sorocaba e de seus afluentes também merece atenção permanente, assim como a manutenção dos reservatórios e piscinões existentes. Nenhuma dessas medidas, isoladamente, elimina o risco de enchentes, mas a negligência ou a execução insuficiente desses serviços pode agravar as consequências de uma chuva forte.
Sorocaba não parte do zero. O Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) informa que realiza serviços de drenagem, limpeza e desassoreamento, além de manter estruturas de contenção e executar intervenções em córregos. Em balanço divulgado em 2023, a Prefeitura informou que foram retirados cerca de 50 mil metros cúbicos de material do rio Sorocaba durante trabalhos realizados no ano anterior. São ações relevantes, mas os números históricos não respondem à principal questão do presente: qual é a situação atual desses sistemas e quais pontos continuam vulneráveis?
O sorocabano tem o direito de conhecer essas respostas. Quantos bueiros foram limpos nos últimos meses? Quais bairros concentram as intervenções? Há um cronograma atualizado de manutenção preventiva? Que obras de drenagem estão em andamento, quais ainda dependem de recursos e quais áreas continuam expostas a alagamentos? A divulgação dessas informações não deveria depender de uma enchente ou da pressão dos moradores. Transparência também é instrumento de prevenção, porque permite acompanhar prioridades, cobrar prazos e verificar resultados.
Existe, ainda, um aspecto político nessa discussão. Serviços preventivos raramente produzem o mesmo efeito visual de uma obra inaugurada, uma avenida revitalizada ou um equipamento público entregue. A limpeza de uma galeria subterrânea não rende fotografias vistosas; a manutenção de uma bacia de contenção dificilmente se transforma em grande anúncio. Mesmo assim, essas tarefas podem ser decisivas para evitar prejuízos muito maiores. Governar não é apenas executar aquilo que aparece. É também cuidar do que permanece escondido, mas sustenta o funcionamento da cidade.
Quando a prevenção falha, a conta não desaparece: apenas muda de endereço. Chega ao comerciante que perde mercadorias, à família que precisa reparar a casa, ao trabalhador impedido de seguir seu trajeto e ao contribuinte que financia a recuperação de vias, equipamentos e espaços públicos. Somam-se a isso os riscos à saúde, os danos ambientais e a possibilidade de acidentes. Recursos que poderiam financiar melhorias acabam direcionados à reconstrução do que foi destruído ou danificado. Prevenir, portanto, não é gasto supérfluo. É uma decisão administrativa racional e, potencialmente, mais econômica.
É necessário reconhecer, por outro lado, que a responsabilidade não pertence exclusivamente ao poder público. O descarte irregular de lixo, entulho e outros materiais contribui para obstruir o sistema de drenagem. A ocupação inadequada de áreas vulneráveis, a impermeabilização excessiva do solo e a redução de espaços verdes também interferem na capacidade de absorção e escoamento da água. Cabe aos moradores colaborar, respeitar as regras urbanísticas e descartar corretamente os resíduos. Mas a participação da sociedade não diminui a obrigação do município de planejar, fiscalizar, manter estruturas e oferecer respostas efetivas.
A dimensão do desafio exige, ainda, integração entre drenagem urbana, planejamento territorial, defesa civil e políticas ambientais. Não basta retirar sedimentos de um trecho do rio se outros pontos da bacia continuam comprometidos. Tampouco adianta ampliar a infraestrutura sem considerar a ocupação do entorno, o crescimento da cidade e os efeitos da impermeabilização do solo. A prevenção precisa ser contínua, tecnicamente orientada e acompanhada de investimentos compatíveis com os riscos identificados.
Sorocaba tem tempo para se preparar melhor, desde que não confunda esse intervalo com tranquilidade garantida. A chuva não espera o calendário político, não respeita promessas e não distingue bairros conforme sua visibilidade. Quando chega em grande volume, expõe tanto as limitações da infraestrutura quanto as falhas de planejamento acumuladas ao longo dos anos.
A temporada de chuvas não deveria inaugurar uma corrida contra o prejuízo, mas colocar à prova o trabalho preventivo realizado durante os meses anteriores. Sorocaba precisa apresentar dados, estabelecer prioridades e demonstrar que as lições do passado foram transformadas em providências concretas. Afinal, tempestades podem ser inevitáveis, mas muitos dos danos que provocam podem ser reduzidos. A água que cai do céu não está sob o controle da Prefeitura. A preparação da cidade para recebê-la, sim, é responsabilidade de quem governa.
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