Efeitos do El Niño
A passagem do inverno para a primavera tem apresentado desafios a meteorologistas, gestores públicos e moradores da região de Sorocaba. Os boletins do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) confirmam que o El Niño, configurado em junho no Pacífico Equatorial, segue intenso e deve atingir a categoria de "muito forte" nesta primavera. Os seus efeitos já se fazem sentir no Sudeste, pois setembro foi marcado por chuvas volumosas e frequentes no centro-sul do País, intercaladas por períodos de calor acima da média. Isso indica como fenômenos de escala global repercutem na economia, na infraestrutura e diretamente na vida das pessoas.
No cinturão verde que abastece Sorocaba e a Grande São Paulo, com destaque para municípios como Piedade, Ibiúna, Itapetininga e Porto Feliz, o excesso de umidade em fases do ciclo agrícola teve custo elevado. Embora a estiagem e o calor extremo costumem concentrar as atenções dos agricultores, a chuva excessiva e fora de época é igualmente prejudicial. O solo encharcado impede a entrada de máquinas e atrasa o plantio e a colheita, e a umidade e temperaturas altas favorecem pragas e doenças capazes de comprometer lavouras.
Essa instabilidade climática se reflete nos preços. Tomate, cebola, batata e verduras, itens básicos de peso na mesa das famílias da região, tornaram-se indicadores sensíveis. O tomate, muito vulnerável ao excesso de água, sofre com rachaduras nos frutos, o que reduz a oferta e pressiona as cotações nas centrais de abastecimento. Batatas, cultivadas em solo saturado, apodrecem com facilidade ou apresentam deformações que dificultam a comercialização. A cebola, sensível a variações bruscas de umidade, também registra oscilações expressivas de preço.
Os efeitos do clima não se restringem ao campo. Na área urbana, o volume atípico de chuva sobrecarrega os sistemas de drenagem e provoca alagamentos em avenidas de grande circulação, como na avenida 15 de Agosto, em Sorocaba. A mobilidade é prejudicada de imediato, com lentidão no trânsito, interrupções no transporte coletivo e maior risco de acidentes nas rodovias de acesso. Em 11 de setembro, diante da previsão de tempestades severas, o governo estadual chegou a orientar a suspensão de aulas e eventos ao ar livre na região. O pavimento, por sua vez, se deteriora com o acúmulo de água, multiplicando buracos e elevando os gastos das prefeituras com reparos emergenciais.
Nas zonas rurais e nos bairros periféricos, as estradas vicinais de terra tornam-se difíceis de trafegar, prejudicando o escoamento da produção, o transporte escolar e o acesso a serviços de saúde. Tempestades com ventos fortes e descargas elétricas causam quedas de energia e falhas nas telecomunicações. Há ainda o risco sanitário, pois a água parada favorece a proliferação do Aedes aegypti, transmissor da dengue e de outras arboviroses, e as áreas alagadas elevam o risco de leptospirose.
As perspectivas para o restante da estação não indicam alívio. O prognóstico de meteorologistas para outubro, novembro e dezembro aponta possibilidade de chuvas acima da média em São Paulo, acompanhadas de temperaturas superiores ao normal. A tendência é que períodos chuvosos e episódios de calor se alternem com mais frequência no fim do ano, combinação que mantém elevados tanto o risco de temporais quanto a pressão sobre lavouras. Para o produtor, isso significa planejar o plantio da safra de verão com margem para atrasos; para as prefeituras, antecipar a limpeza de bueiros, galerias e córregos antes dos meses de maior volume.
Algumas medidas, no entanto, já estão ao alcance imediato. No campo, o seguro rural e o acompanhamento técnico das casas de agricultura ajudam a reduzir perdas e a orientar a escolha de cultivos mais tolerantes à umidade, além de práticas como o plantio em canteiros elevados. Nas cidades, o mapeamento das áreas de risco, a manutenção preventiva da drenagem e a comunicação ágil com a população são decisivos.
O El Niño é um fenômeno natural e recorrente, mas hoje se manifesta sobre um clima mais quente, o que tende a amplificar seus extremos. A experiência recente de Sorocaba indica que eventos dessa natureza devem ser tratados menos como exceção e mais como parte de um cenário com o qual a região precisará conviver. Enfrentá-lo exige mais do que respostas emergenciais: requer políticas de adaptação agrícola, incentivo ao manejo sustentável do solo e investimentos consistentes em drenagem e infraestrutura urbana.
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