A lição que Sandro deixou

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Poucas despedidas mobilizaram tanto Sorocaba quanto a do elefante Sandro. Durante décadas, ele foi uma das figuras mais conhecidas do Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, presença certa nas lembranças de infância de várias gerações de sorocabanos. Sua ida para um santuário, onde passou a viver em um ambiente mais amplo e mais próximo do natural, provocou emoção, saudade e muito debate. Mas a repercussão do caso deixou uma pergunta que a cidade ainda não respondeu: e os animais que ficaram?

A pergunta é urgente porque os sinais de alerta se acumulam. Em 22 de setembro, o Ministério Público de Sorocaba instaurou um inquérito civil para apurar as condições estruturais, operacionais e administrativas do zoológico. Estão na mira possíveis falhas em muros, fossos, grades, coberturas, drenagem e instalações elétricas, além dos gastos com o telão instalado no antigo recinto de Sandro e da suspeita de que uma eventual concessão do parque esteja servindo de justificativa para adiar a manutenção. Em outra frente, a promotoria também vai periciar o recinto dos ursos para saber se ele é adequado aos animais.

Quem frequenta o Quinzinho percebe a mudança. Bancos quebrados, placas danificadas, calçadas irregulares, caminhos interditados e uma lanchonete fechada há meses compõem um cenário de abandono que contrasta com a história do lugar. O zoo de Sorocaba já foi referência nacional, com uma equipe capaz de fazer tratamento de canal em uma leoa e sessões de acupuntura em uma ursa com dores nas costas. Hoje, visitantes relatam preocupação até com a disposição de animais como a onça-pintada Vitória.

O problema não se limita ao zoológico. O canil municipal também passou a ser investigado pelo Ministério Público, depois de denúncias de queda de muro, fugas, brigas entre cães e a morte de pelo menos um animal após um confronto. A estrutura estaria superlotada, incapaz de atender a demanda de uma cidade do porte de Sorocaba, e não há clareza sobre o destino dos animais enviados a uma clínica em Mairinque. O diagnóstico do promotor é direto: do jeito que está, não dá para continuar.

Zoológico e canil são realidades diferentes, mas têm algo em comum. Em ambos, os animais dependem inteiramente do poder público para comer, ter abrigo, receber atendimento veterinário e viver sem sofrimento. Eles não reclamam, não protestam e não votam. Por isso mesmo, a responsabilidade de quem administra esses espaços é maior, e o descuido, mais grave.

A saída de Sandro reacendeu também o debate sobre a existência dos zoológicos. É uma discussão legítima, mas não pode servir de atalho. Especialistas lembram que os zoos têm papel importante na conservação de espécies ameaçadas, e instituições brasileiras participam de programas nacionais de reprodução e manejo de animais como o mico-leão-preto, a ararinha-azul e o tamanduá-bandeira. A questão central não é se Sorocaba deve ter um zoológico, mas que zoológico deve ter. O caso de Sandro mostrou que, às vezes, o melhor para um animal é partir. Para os que ficam, o mínimo é viver com dignidade.

A Prefeitura afirma que prestará os esclarecimentos ao Ministério Público, e a Secretaria do Meio Ambiente, Proteção e Bem-Estar Animal informa que já tem um plano de revitalização dos recintos e que os animais são monitorados pela equipe técnica. É uma resposta necessária, mas insuficiente. Planos precisam de prazo, orçamento e transparência. A população tem o direito de saber quando as obras começam, quanto vão custar e quais recintos serão priorizados.

Alguns compromissos parecem inadiáveis. O município deve apresentar um cronograma público de reformas no zoológico, divulgar relatórios periódicos sobre a saúde dos animais e garantir que qualquer concessão futura traga exigências rigorosas de bem-estar, e não sirva de desculpa para a inércia atual. No caso do canil, é preciso uma nova estrutura ou a ampliação da atual, com regras claras de acolhimento, castração em larga escala, programas permanentes de adoção e total transparência sobre o destino de cada animal.

A sociedade também tem sua parte. Um canil superlotado é, antes de tudo, o reflexo do abandono. Adotar em vez de comprar, castrar, cuidar dos próprios animais e denunciar maus-tratos são atitudes que aliviam a pressão sobre o serviço público. Visitantes do zoológico podem e devem observar, registrar e cobrar. Organizações de proteção animal, vereadores e conselhos precisam acompanhar de perto cada passo das investigações.

Diz muito sobre uma cidade a forma como ela trata quem não pode se defender. A despedida de Sandro comoveu Sorocaba porque mostrou que é possível colocar o bem-estar do animal acima do hábito e da nostalgia. Essa mesma sensibilidade precisa agora se transformar em compromisso com os que continuam aqui, nos recintos do Quinzinho e nas baias do canil. Que a lição deixada por Sandro não termine na despedida, mas marque o começo de um novo cuidado com todos os animais da cidade.

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