O paradoxo do mercado de trabalho
O Brasil nunca teve tanta gente trabalhando, e isso é uma boa notícia. A taxa de desocupação ficou em 5,3% no trimestre de junho a agosto de 2026, a menor para esse período desde o início da série da Pnad Contínua, do IBGE, em 2012. São 103,5 milhões de pessoas ocupadas, recorde histórico.
Mas os números do emprego mostram apenas parte de um contexto muito maior. Quando se pergunta ao trabalhador se ele está satisfeito com o que ganha e se pretende ficar onde está, a resposta muitas vezes é não. Essa contradição — baixa taxa de desemprego, alta rotatividade, salário insuficiente — talvez seja um dos principais desafios do mercado de trabalho brasileiro.
Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), indicam um movimento constante. Só em junho, 760 mil trabalhadores pediram demissão, e o acumulado em doze meses chegou a 9,2 milhões de desligamentos voluntários, o maior da série. Em 2025, mais de um terço de todos os desligamentos já partia do próprio empregado.
Existe uma leitura otimista, e parece não ser falsa: quem pede demissão costuma fazê-lo porque tem outro emprego para onde ir. Com o desemprego baixo, o trabalhador ganha poder de negociação e troca de vaga em busca de algumas centenas de reais a mais (o que faz diferença no orçamento do mês e nas contas a pagar), de um trajeto mais curto, de um chefe menos hostil ou ainda de outro motivo.
O problema é onde essa rotatividade se concentra e o dilema que isso gera aos empregadores. Em 2024, 57% dos pedidos de demissão vieram de quem ganhava entre 1 e 1,5 salário mínimo. As ocupações campeãs em rotatividade são conhecidas: operador de telemarketing, atendente de lanchonete, operador de caixa, repositor de supermercado, frentista de posto de combustível. Não são ocupações capacitadas e a mudança de emprego ocorre muitas vezes por necessidade. É a base da pirâmide que troca um posto mal pago por outro semelhante, em um ciclo que pouco altera a vida do trabalhador.
O rendimento médio real chegou a R$ 3.777, alta de 3,7% em um ano. É um avanço, mas a média engana, pois é puxada por quem está no topo, enquanto a maioria das vagas criadas paga pouco acima do piso salarial. Para quem gasta boa parte do salário com aluguel, transporte e alimentação, o ganho a mais na mudança de um emprego para outro pode desaparecer em alguns meses devido à inflação e a imprevistos financeiros.
A informalidade aponta alternativa para o trabalhador assalariado. Muitos dos que deixam a carteira assinada não buscam outra assinatura, mas o aplicativo, o bico ou o CNPJ como microempreendedor individual, trocando direitos por flexibilidade e uma renda que pode parecer maior porque não há descontos em folha.
Para as empresas, pequenas ou grandes, a conta também não fecha. Há desgastes e sensação de energia desperdiçada. Cada saída custa recrutamento, treinamento e perda de experiência. Um funcionário que fica seis meses dificilmente se torna mais produtivo — e sem produtividade ou melhor qualidade na prestação do serviço não há base para salários maiores. Até mesmo colegas, que precisam ensinar noções básicas a cada novo empregado que chega, se sentem desmotivados e insatisfeitos com a alta rotatividade em uma empresa.
A baixa taxa de desemprego é uma conquista, mas, ao colocar a estatística como principal fator positivo para o mercado de trabalho no Brasil, se camuflam outros problemas, estruturais e históricos. O País conquistou quantidade e agora precisa perseguir qualidade. As bases para isso são claras: qualificação profissional ligada à demanda real das empresas, maior valorização por parte das empresas de trabalhadores dedicados e experientes, e políticas públicas de apoio a cadeias produtivas incipientes em determinadas regiões.
Há ainda necessidade de transporte público que não consuma três horas do dia de quem já ganha pouco e estímulo à inovação nas pequenas empresas, onde está a maior parte do emprego. Empregadores também devem entender a retenção do trabalhador como investimento, não como custo, criando plano de carreira, jornada previsível e respeito à boa convivência no ambiente produtivo.
As estatísticas do mercado de trabalho sinalizam e passam a mensagem para aqueles que buscam entender. O empregado pede demissão porque tem poder de escolha. É a tendência natural. Agora, se a escolha for vantajosa, melhor para ele, e para a nova empresa que o contratou, pois contará com um profissional mais motivado.