A garrafa e a chuva

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Uma garrafa PET jogada na rua pode parecer um problema pequeno, quase invisível entre tantos outros desafios de uma cidade. Basta, porém, uma chuva para mudar a dimensão da história. O que estava junto à guia ganha movimento, entra na sarjeta, encontra uma boca de lobo e pode alcançar um córrego. A partir dali, deixa de ser apenas lixo de rua e passa a integrar um problema ambiental que não respeita bairros ou municípios.

O exemplo pode ser imaginado no encontro da avenida Engenheiro Carlos Reinaldo Mendes com a avenida Três de Março, no Alto da Boa Vista. Uma garrafa "esquecida" no meio-fio pode desaparecer do campo de visão tão logo a água comece a correr. Na região, há cursos d'água ligados à bacia do rio Sorocaba, e o sistema municipal de drenagem registra a travessia do córrego da Vila Matilde sob a Carlos Reinaldo Mendes.

Não é possível determinar quantos dias uma garrafa específica levaria para fazer esse percurso. Depende da chuva, da vazão, de obstáculos e do caminho da água. Mas a imaginação ajuda a compreender algo que costuma ficar escondido: aquilo que é descartado na rua não necessariamente termina ali.

Essa discussão ganha outra dimensão justamente quando a coleta seletiva começa a sofrer os efeitos da crise econômica. Como mostrou o Cruzeiro do Sul, a dificuldade financeira pode alterar hábitos dentro de casa e também o comportamento de quem trabalha com a coleta de recicláveis. Consequência: parte desse material vai parar nas ruas, agora classificado como o lixo sem importância.

É uma engrenagem delicada. A reciclagem depende de consciência, mas também de condições materiais. Depende de famílias dispostas a separar resíduos, de coletores remunerados, de cooperativas capazes de comercializar o material e de um serviço público regular. Se uma dessas peças falha, todo o sistema perde eficiência.

Seria um erro transformar a questão em simples cobrança de comportamento individual. É evidente que ninguém deveria jogar uma garrafa na rua. Mas a responsabilidade ambiental não termina na porta de casa. A cidade precisa oferecer coleta adequada, fiscalização, educação ambiental, manutenção da drenagem e alternativas acessíveis para o descarte correto. E a população precisa fazer a sua parte.

O problema é que a natureza não espera a recuperação da economia nem a próxima campanha educativa. A chuva chega no seu próprio horário. E pode transformar um resíduo aparentemente insignificante em passageiro de uma viagem que ninguém programou.

Primeiro vem a sarjeta. Depois, a boca de lobo. Dali, a água pode alcançar um córrego, seguir por outros cursos e chegar ao rio Sorocaba, que integra a bacia do Sorocaba e Médio Tietê. O que começa como um descuido em uma avenida pode percorrer uma cadeia de águas muito maior do que a cidade onde foi produzido.

Há ainda uma diferença entre a garrafa visível e o problema invisível. O PET não simplesmente desaparece quando deixa de ser reconhecível como embalagem. A exposição ao sol, à chuva e ao atrito pode fragmentar materiais plásticos em partículas menores. Estudos já identificaram microplásticos em ambientes aquáticos, inclusive partículas de PET. O resíduo que podia ser recolhido com as mãos passa, então, a representar outro tipo de preocupação.

Isso não significa dizer que o resíduo de uma garrafa lançada na rua necessariamente chegará à torneira de uma residência. Seria uma conclusão sem base para um caso individual. A questão é outra: cada resíduo plástico que alcança cursos d'água amplia uma pressão ambiental que precisa ser evitada na origem.

Por isso, a crise da reciclagem não deveria ser tratada como assunto secundário. Quando uma família deixa de separar materiais, quando um coletor encontra menos valor no que recolhe ou quando o serviço público perde regularidade, existe uma cadeia inteira sendo afetada. E, no fim dela, está também a água.

A garrafa PET esquecida na guia é apenas uma personagem. Poderia ser uma sacola, um copo ou qualquer outro resíduo levado pela chuva. O importante é perceber que a cidade não termina onde acaba o asfalto. Tudo aquilo que cai nas ruas pode encontrar um caminho para fora delas.

Sorocaba tem uma rede de drenagem que precisa funcionar, serviços públicos que precisam ser mantidos e uma população que precisa ser estimulada a separar e destinar corretamente seus resíduos. Mas há algo ainda mais básico: é preciso evitar que o lixo chegue à rua.

Porque, depois que a chuva começa, o cidadão perde o controle sobre o destino daquilo que abandonou. A água assume o comando. E uma simples garrafa pode iniciar uma viagem que começa na guia de uma avenida, passa por córregos, alcança um rio e termina muito longe do lugar onde alguém decidiu não se importar.