Asfalto torto
Não basta tapar o buraco. É preciso consertar a rua. Parece uma diferença pequena, mas não é. Em Sorocaba, uma parte dos serviços de tapa-buraco vem produzindo um resultado que desafia a própria finalidade da obra: buracos desaparecem, mas surgem no lugar deles verdadeiras lombadas de asfalto. O que deveria devolver à via a condição original acaba criando novos desníveis e transformando ruas em uma espécie de trilha asfaltada.
O problema merece ser tratado com mais seriedade pela prefeitura. Uma cidade do tamanho de Sorocaba, com centenas de quilômetros de vias e trânsito cada vez mais intenso, demanda manutenção permanente. O que precisa ser discutido é como esse trabalho está sendo executado e, principalmente, qual padrão de qualidade está sendo entregue ao cidadão.
A situação foi mostrada pelo Cruzeiro do Sul na edição de 29 de setembro. E não parece ser um caso isolado. Na mesma data, novas indicações na Câmara Municipal cobraram operações de tapa-buraco e manutenção em nada menos que 18 vias de diferentes regiões da cidade. O próprio sistema municipal de atendimento registra sucessivas reclamações relacionadas a buracos, desníveis, afundamentos e problemas no pavimento.
Há ainda um componente financeiro que não pode ser ignorado. A prefeitura mantém contrato específico para conservação de pavimentos asfálticos, tapa-buraco e pequenos reparos que foi prorrogado por mais 12 meses, de março de 2026 a fevereiro de 2027, por R$ 26,61 milhões. Isso significa que a cidade está destinando uma quantia expressiva para cuidar do pavimento. Portanto, é perfeitamente legítimo que o contribuinte espere não apenas velocidade no atendimento, mas também qualidade no resultado.
O Tribunal de Contas do Estado (TCE) considerou regulares a licitação e o contrato original. Não há, portanto, nesse dado, fundamento para insinuar irregularidade. A discussão é outra — e talvez até mais importante: um serviço pode estar formalmente regular e, ainda assim, merecer revisão na forma como é executado e fiscalizado. O próprio TCE registrou que a execução contratual permanecia em fase de instrução. O cidadão não conhece os detalhes da planilha contratual. Ele conhece a rua onde passa todos os dias. E é justamente aí que a prefeitura deveria olhar.
Quando um buraco aparece, o procedimento tecnicamente adequado não deveria se resumir a jogar uma camada de massa asfáltica sobre o pavimento existente. Em situações que exigem intervenção mais profunda, é necessário preparar a área, retirar o material comprometido, limpar adequadamente, recompor a base quando necessário, aplicar a massa e compactá-la de maneira suficiente para que o reparo fique integrado ao pavimento existente. O resultado esperado é simples: uma superfície nivelada, segura e resistente.
Quando a correção termina com uma elevação que pode chegar a vários centímetros, alguma coisa precisa ser revista. Uma rua não é uma coleção de remendos. O pavimento deve funcionar como uma superfície contínua. Cada intervenção mal executada cria uma nova irregularidade, aumenta o desconforto para quem dirige e pode representar risco maior para motociclistas e ciclistas. Para os veículos, também significa suspensão, pneus e outros componentes submetidos desnecessariamente a impactos.
E existe uma pergunta que precisa ser feita: como o serviço é medido e fiscalizado? Se a remuneração está relacionada à quantidade de área de asfalto aplicada, a administração precisa assegurar que o objetivo do contrato não seja simplesmente colocar mais massa, mas recuperar corretamente o pavimento. Metro quadrado de asfalto colocado não pode ser confundido com qualidade do reparo realizado.
É preciso fiscalizar espessura, nivelamento, compactação, acabamento, durabilidade e reincidência do problema. Se o mesmo ponto volta a apresentar defeito pouco tempo depois, isso também deveria entrar na avaliação da execução do serviço. Sorocaba não precisa de uma operação permanente de maquiagem do asfalto. Precisa de manutenção capaz de resolver o problema.
O tapa-buraco é necessário. O que não pode ser necessário é voltar ao mesmo local repetidas vezes para corrigir o reparo anterior. Há uma diferença enorme entre tapar um buraco e recuperar um pavimento. A primeira tarefa pode esconder o problema por algum tempo. A segunda resolve o problema.
Uma cidade que investe mais de R$ 26 milhões em conservação asfáltica tem o direito de exigir eficiência. E seus moradores têm o direito de esperar que, depois de a equipe ir embora, a rua esteja melhor — e não apenas diferente. Sorocaba precisa rever o conceito de tapa-buraco. Porque, se cada buraco fechado deixa no lugar uma lombada, o que está sendo consertado deixa de ser a rua e passa a ser apenas a aparência da rua. Asfalto bom é aquele que se percebe pela ausência do problema. Não pela quantidade de remendos.