Brasil real

Por

Uma coisa é o governo contar uma história e esperar que ela seja aceita. Outra, bem diferente, é a vida real. É diante dela que discursos, promessas, anúncios e explicações precisam ser confrontados. E a vida real não se apresenta em palanques, redes sociais ou propagandas oficiais. Ela aparece no preço da comida, na conta de luz, na parcela do financiamento, no custo do crédito, na dificuldade de fechar o mês e, principalmente, na confiança — ou na falta dela — de quem precisa tomar decisões sobre o próprio dinheiro.

A cinco dias das eleições, o Brasil chega a esse momento com uma série de medidas anunciadas pelo governo e uma sucessão de números que recomendam cautela. O novo boletim Focus, divulgado ontem pelo Banco Central, desautoriza discursos triunfalistas. A projeção para a inflação de 2026 subiu de 4,92% para 4,99%. Ao mesmo tempo, a expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto caiu pela terceira semana consecutiva, de 1,88% para 1,86% - há quatro semanas, estava em 1,92% - e, ainda, há a preocupação quanto à cotação do dólar.

São números que merecem ser lidos com seriedade, porque não contam toda a história sozinhos. O Focus reúne expectativas do mercado, não resultados já realizados, e pode mudar ao longo do tempo. Mas expectativas econômicas também importam. Elas refletem a avaliação de instituições que precisam projetar inflação, juros, câmbio e atividade antes de decidir onde investir, quanto emprestar e quanto consumir.

E há um dado concreto que ajuda a entender o ambiente. O IPCA-15, prévia da inflação oficial, avançou 0,70% em setembro, depois de registrar queda de 0,40% em agosto. Com isso, o acumulado em 12 meses passou a 4,47%. O IBGE aponta que a energia elétrica residencial teve papel importante no resultado, com o fim do bônus de Itaipu contribuindo para a alta das tarifas.

É aí que começa a distância entre a estatística e o cotidiano. Para quem acompanha a economia por manchetes, uma inflação abaixo de 5% pode parecer um número administrável. Para quem recebe o salário uma vez por mês e precisa pagar supermercado, aluguel, transporte, escola, medicamentos e contas domésticas, qualquer aumento persistente representa perda de poder de compra. A média nacional é importante para a política econômica, mas não paga nenhuma conta.

Também não deveria ser ignorada a trajetória dos juros. O mercado mantém a expectativa de Selic em 13,5% ao final de 2026. Uma taxa dessa magnitude mostra que o combate à inflação ainda impõe um custo elevado à economia. Juros altos encarecem o crédito para famílias e empresas, dificultam investimentos e tornam mais pesada a tarefa de quem já convive com dívidas. A redução consistente dos juros, por sua vez, depende de um ambiente em que a inflação e as expectativas estejam sob controle.

É preciso reconhecer, contudo, que a política monetária não explica tudo. O Banco Central utiliza a Selic para combater pressões inflacionárias, mas preços também são afetados por energia, alimentos, câmbio, condições internacionais, impostos, custos de produção e comportamento da demanda. Da mesma forma, o crescimento econômico não depende exclusivamente das decisões do governo federal. É justamente por isso que o debate precisa ser mais sério do que a disputa entre versões políticas.

O problema aparece quando medidas de curto prazo são apresentadas como se fossem capazes de resolver desequilíbrios que exigem planejamento de longo prazo. Transferências de renda, benefícios, desonerações ou programas destinados a aliviar a vida da população podem ter justificativas sociais legítimas. O ponto central é saber quanto custam, de onde virão os recursos e se cabem em um orçamento que já enfrenta restrições.

Um governo pode distribuir alívio hoje e deixar a conta para amanhã. Também pode escolher preservar o equilíbrio das contas públicas mesmo quando isso exige decisões menos populares. Nenhuma dessas escolhas é neutra. Todas produzem consequências. O cidadão tem o direito de conhecer essas consequências antes de ouvir a propaganda.

O mesmo vale para a dívida pública. Quando o Estado gasta mais do que consegue sustentar ao longo do tempo, a conta não desaparece. Ela pode aparecer em juros mais elevados, menor espaço para investimentos, maior pressão sobre impostos ou perda de confiança. E confiança, na economia, não é uma palavra abstrata. Ela influencia decisões concretas de empresas, investidores e consumidores.

O Brasil real, portanto, não pode ser medido apenas pela quantidade de anúncios feitos pelo governo nem pelo número de benefícios criados. Precisa ser observado pela capacidade de o País crescer de maneira sustentável, controlar a inflação, reduzir o custo do dinheiro, preservar as contas públicas e ampliar a renda sem produzir uma nova conta para ser paga adiante.

É esse o ponto que merece atenção às vésperas das urnas, afinal o Focus projeta inflação maior e crescimento menor para 2026. O IPCA-15 mostrou nova pressão de preços em setembro. A Selic permanece elevada. E o dólar projetado para o fim do ano continua acima de R$ 5.

Isso significa que a realidade econômica é mais complexa do que qualquer narrativa política. O eleitor pode ouvir promessas, comparar discursos e avaliar propostas. Mas deveria também olhar para aquilo que não cabe em um palanque: o preço que paga, a dívida que carrega, o juro que enfrenta e a perspectiva de crescimento do País.

Porque, no fim das contas, a economia não vive de narrativa. Vive de números. E os números, gostemos deles ou não, sempre acabam chegando à porta de casa.