Dinheiro contado
O brasileiro aprendeu a fazer contas antes mesmo de chegar ao caixa. Não é preciso recorrer a planilhas sofisticadas, aplicativos de controle financeiro ou estudos econômicos para perceber quando o dinheiro começa a desaparecer antes do fim do mês. Basta abrir a carteira, olhar as contas que ainda precisam ser pagas e decidir o que pode esperar. Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira mostra a dimensão desse aperto: 49% dos brasileiros dizem que a renda familiar não é suficiente para manter o orçamento em algum grau. O número merece atenção porque traduz uma realidade que estatísticas macroeconômicas nem sempre conseguem alcançar. A economia pode apresentar indicadores positivos, o mercado de trabalho pode registrar números favoráveis e o discurso oficial pode destacar avanços. Mas existe uma economia que acontece todos os dias dentro das casas, diante do supermercado, da farmácia, do aluguel, da escola, da prestação e da fatura do cartão. É nessa economia doméstica que o brasileiro percebe, sem intermediários, quanto vale o seu dinheiro.
Segundo o levantamento, 34% afirmam que o dinheiro recebido pela família não é suficiente e que, às vezes, falta. Outros 15% dizem ter renda muito baixa e enfrentar muitas dificuldades. Ao mesmo tempo, 42% afirmam receber exatamente o necessário para viver e apenas 9% dizem ganhar mais do que precisam. A fotografia é reveladora: para uma parcela expressiva da população, não existe margem. Qualquer despesa inesperada pode desmontar um orçamento que já foi cuidadosamente espremido.
A avaliação da própria situação financeira confirma essa sensação de equilíbrio precário. Quarenta e cinco por cento consideram sua condição regular; 12% a classificam como ruim ou péssima; e 43% fazem uma avaliação positiva. O dado mais preocupante, entretanto, está na diferença entre as camadas sociais. Entre famílias com renda de até dois salários mínimos, somente 33% consideram sua situação boa ou ótima. Nas classes D e E, esse percentual cai para 32%. Entre aqueles com renda superior a cinco salários mínimos, chega a 69%. É uma diferença que ajuda a explicar por que a percepção sobre a economia não é uniforme. O mesmo país pode apresentar números razoáveis nos indicadores gerais e, simultaneamente, produzir experiências muito diferentes dentro das famílias. Para quem tem alguma reserva, crédito disponível e renda mais elevada, uma alta de preços pode representar apenas uma redução de consumo. Para quem vive no limite, pode significar a escolha entre uma conta e outra.
Existe, porém, uma informação que impede uma leitura exclusivamente pessimista da pesquisa. Mesmo diante das dificuldades, 71% dos entrevistados acreditam que sua situação financeira vai melhorar nos próximos 12 meses. Quarenta e cinco por cento esperam uma melhora significativa e 26% uma melhora menor. Apenas 5% projetam alguma piora, enquanto 21% acreditam que tudo permanecerá como está.
Essa confiança no amanhã talvez seja uma das características mais importantes do brasileiro. Mesmo quando o presente exige cautela, o futuro continua sendo uma possibilidade. É o trabalhador que espera uma promoção, o pequeno empreendedor que aposta em mais clientes, a família que acredita que uma dívida será finalmente quitada, o jovem que procura emprego e o aposentado que torce para que as despesas não aumentem ainda mais. A esperança, nesse caso, não é luxo. É parte da resistência cotidiana.
Mas esperança não paga boleto. E justamente por isso o resultado da pesquisa deveria ser observado com mais seriedade por quem formula políticas econômicas e por quem administra o dinheiro público. Uma população que trabalha, mas não consegue transformar renda em segurança financeira, ainda enfrenta um problema estrutural. Não basta que o país cresça se o crescimento não produzir maior capacidade de consumo, poupança e planejamento para uma parcela mais ampla da sociedade.
Também seria um erro transformar a expectativa de melhora em autorização para o conformismo. Os 71% que acreditam em dias melhores não estão dizendo que tudo está bem. Estão dizendo que esperam que fique melhor. Há uma diferença importante entre as duas coisas. A esperança pode ser uma força econômica quando vem acompanhada de emprego, produtividade, renda, inflação controlada, crédito responsável e condições para que as famílias possam organizar suas vidas sem viver permanentemente no limite.
O dado mais eloquente talvez esteja justamente nesse contraste: quase metade dos brasileiros diz que o dinheiro não basta, enquanto sete em cada dez acreditam que a vida financeira poderá melhorar. O País, portanto, não está diante de uma população sem esperança. Está diante de uma população que espera uma oportunidade concreta para transformar esperança em tranquilidade. No fim das contas, é isso que deveria importar. Uma economia saudável não é aquela que apenas produz bons indicadores para os relatórios. É aquela em que o cidadão consegue chegar ao fim do mês sem precisar escolher qual conta será paga, enfrentar uma emergência sem recorrer imediatamente à dívida e olhar para os próximos meses sem medo de que qualquer imprevisto seja suficiente para desequilibrar toda a casa. O brasileiro continua acreditando no futuro. Cabe ao País fazer com que essa esperança não seja apenas uma virtude de quem aprendeu a sobreviver com pouco, mas o resultado natural de uma vida que, de fato, precisa melhorar.