A conta sindical
Existe uma ironia difícil de ignorar na greve que alcança empregados de empresas públicas como Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Correios. O Partido dos Trabalhadores construiu boa parte de sua identidade política justamente no movimento sindical, na organização dos trabalhadores e na defesa intransigente de direitos trabalhistas. Agora, no comando do governo federal, vê empregados de instituições sob seu controle político e administrativo cruzarem os braços para cobrar aquilo que consideram justo. Não se trata de questionar o direito de greve. Ele é legítimo e faz parte da democracia. O problema está na contradição que o movimento expõe. O partido que durante décadas ensinou que trabalhador não deveria aceitar passivamente aquilo que considerasse injusto precisa agora lidar com a mesma lógica quando a reivindicação se volta contra empresas controladas pelo governo que comanda.
Na Caixa, a paralisação nacional começou depois que mais de 90% dos trabalhadores rejeitaram a proposta apresentada para a renovação do acordo coletivo. O principal ponto de conflito está no Saúde Caixa, especialmente na forma de custeio e no peso que poderá recair sobre os empregados. A direção ofereceu, entre outros pontos, prêmio de R$ 3 mil, antecipação da participação nos lucros e resultados e ampliação do teto de custeio do plano de saúde. Mesmo assim, a proposta não foi suficiente para encerrar o impasse.
No Banco do Brasil, o cenário foi menos uniforme. Parte dos sindicatos rejeitou inicialmente a proposta, provocando paralisações, enquanto outras bases aprovaram o acordo. Ontem, a maioria dos bancários aprovou uma nova proposta, que prevê pagamento da PLR, aporte de R$ 360 milhões para a Cassi, ampliação da licença-paternidade e outras vantagens. O movimento, portanto, começou a perder força no BB, mas deixou evidente que também ali existe insatisfação com as condições oferecidas aos empregados.
Nos Correios, a situação é ainda mais delicada. Os trabalhadores entraram em greve por tempo indeterminado depois de rejeitarem a proposta da empresa. Entre os principais pontos de resistência está justamente o futuro do plano de saúde. A estatal ofereceu reajuste equivalente a 100% do INPC para salários e benefícios e a manutenção de 78 das 80 cláusulas do acordo, mas a mudança na condição de mantenedora do plano de saúde tornou-se um obstáculo decisivo. E aqui está o ponto que não pode ser perdido de vista: reivindicação trabalhista não existe no vácuo. Ela precisa ser confrontada com a realidade financeira de quem paga a conta.
O Banco do Brasil continua sendo uma instituição de enorme porte e capacidade de geração de resultados. No segundo trimestre, registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões, crescimento de 3,3% em um ano, e sua carteira de crédito ultrapassou R$ 1,3 trilhão. Ao mesmo tempo, a inadimplência acima de 90 dias chegou a 5,61%, sinal de que o ambiente exige cautela.
A Caixa também apresenta números robustos. O banco registrou lucro líquido recorrente de R$ 3,9 bilhões no segundo trimestre e R$ 7,4 bilhões no primeiro semestre. A carteira total alcançou R$ 1,448 trilhão e a carteira habitacional ultrapassou R$ 1 trilhão. Não há, portanto, diante desses números, uma instituição financeiramente combalida. Há, sim, uma empresa pública gigantesca que precisa conciliar resultados, função social, eficiência e responsabilidade na administração de seus recursos.
Os Correios representam o contraponto mais preocupante. A estatal fechou o segundo trimestre com prejuízo de R$ 2,39 bilhões. No primeiro trimestre, o resultado negativo havia sido de R$ 3,16 bilhões. A empresa está executando um plano de reestruturação e já contou com operação de crédito de R$ 12 bilhões com garantia da União. A situação exige recuperação de receitas, redução de despesas, modernização e disciplina financeira.
É justamente aí que a velha retórica sindical encontra seu maior teste. Durante décadas, o discurso foi simples: empresa pública não pode transferir aos trabalhadores o custo de erros administrativos. Agora, o governo precisa provar que também aprendeu a não transferir ao contribuinte o custo de acordos trabalhistas incompatíveis com a capacidade financeira de cada estatal. Não se pode defender o trabalhador apenas quando ele está do outro lado da mesa. Tampouco se pode transformar empresa pública em instrumento de acomodação política, distribuindo benefícios sem considerar produtividade, eficiência e capacidade de pagamento.
O governo Lula está diante de uma oportunidade rara de demonstrar coerência. Pode respeitar o direito de greve, negociar com os trabalhadores e, ao mesmo tempo, preservar a responsabilidade administrativa. Mas, ao que parece, não está tão interessado. Uma coisa não deveria excluir a outra. A história do PT nasceu, em grande medida, nas portas das fábricas e nos movimentos sindicais. Agora, a história cobra a conta dentro das próprias empresas do Estado. A pergunta, portanto, não é se os trabalhadores têm direito de reivindicar. Evidentemente têm. A questão é outra: até onde pode ir a conta quando quem negocia, administra e paga é o próprio governo? Se a resposta vier apenas pelo discurso sindical de outros tempos, faltará ao governo explicar quem ficará com a fatura. Porque, nas estatais, quando a conta não fecha, quase sempre existe alguém fora da mesa de negociação chamado a pagá-la: o cidadão.