A conta chegou
Há algo profundamente preocupante acontecendo na economia brasileira — e fingir que se trata apenas de uma sucessão de acidentes empresariais seria um erro grave. Uma empresa quebra aqui, outra pede recuperação judicial ali, uma terceira renegocia bilhões de reais em dívidas. Quando os casos se multiplicam, atingem setores diferentes e passam a envolver marcas conhecidas de todos os brasileiros, já não é razoável olhar para cada episódio como se fosse uma ilha. O Brasil precisa perguntar o que está acontecendo com suas empresas.
A segunda-feira trouxe mais um sinal de alerta. A Braskem, uma das maiores companhias industriais do País e peça fundamental da cadeia petroquímica nacional, entrou com pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar uma dívida de aproximadamente R$ 54 bilhões. Poucos dias antes, as Casas Bahia haviam recorrido à recuperação judicial, diante de um passivo de R$ 17,3 bilhões e cerca de 28 mil credores. Não estamos falando de pequenas companhias desconhecidas, abertas e fechadas na periferia da economia. Estamos falando de gigantes, de empresas que ajudaram a construir setores inteiros da atividade nacional.
E a lista não termina aí. Americanas, Tok&Stok, Marabraz, Casa & Vídeo e outras companhias já enfrentaram processos de recuperação ou profundas reestruturações. O agronegócio, durante tanto tempo apresentado como o motor incansável da economia brasileira, também passou a registrar um avanço preocupante dos pedidos de proteção contra credores. Transporte, logística, comércio e indústria convivem com dificuldades semelhantes.
O dado da Serasa Experian é eloquente: 2.466 empresas entraram em processos de recuperação judicial em 2025, o maior número da série iniciada em 2012 e 12,9% acima do registrado em 2024. No fim do mesmo ano, o País acumulava 8,9 milhões de empresas inadimplentes, um patamar historicamente elevado. No começo de 2026, os pedidos de recuperação continuaram em nível expressivo.
Há uma doença sistêmica se espalhando pela economia brasileira. O primeiro sintoma chama-se juros. Durante um longo período, o Brasil conviveu com um dos custos de capital mais elevados do mundo. Para uma empresa endividada, juros altos não são uma abstração discutida nas reuniões do Banco Central. São parcelas maiores, refinanciamentos mais caros e uma fatia crescente do faturamento destinada simplesmente a pagar o dinheiro já tomado no passado.
O segundo sintoma é o crédito restrito. Uma empresa pode sobreviver com uma dívida elevada enquanto consegue refinanciar seus compromissos. Mas, quando o banco fecha a torneira, o investidor desaparece e o custo da rolagem se torna proibitivo, o problema deixa de ser apenas financeiro e rapidamente se transforma em crise de caixa.
O terceiro sintoma está dentro da casa do consumidor. Um país com famílias endividadas, renda comprometida e poder de compra fragilizado não sustenta indefinidamente uma economia baseada no consumo. As pessoas deixam de comprar, adiam a troca de eletrodomésticos, reduzem gastos e procuram produtos mais baratos. A empresa vende menos. Para preservar o caixa, corta investimentos. Depois, reduz empregos. Menos empregos e menos renda significam menos consumo. E o círculo se fecha.
O quarto problema é estrutural. O Brasil cobra caro para financiar, tributa demais, burocratiza excessivamente e oferece uma insegurança econômica que torna o planejamento um exercício de adivinhação. Ao mesmo tempo, empresas tradicionais enfrentam uma revolução no mercado. O varejo físico disputa espaço com gigantes digitais e marketplaces que trabalham com estruturas de custos completamente diferentes.
Mas há um quinto elemento, talvez o mais grave: a normalização da sobrevivência financeira como estratégia empresarial. Empresas deveriam gastar seu tempo planejando investimentos, desenvolvendo produtos, aumentando produtividade, contratando e conquistando mercados. No Brasil, um número crescente delas está ocupado com outra atividade: renegociar dívidas, convencer credores, alongar prazos, vender ativos e procurar proteção judicial.
Não se constrói crescimento sustentável em uma economia na qual o principal desafio deixa de ser produzir melhor e passa a ser simplesmente sobreviver até o próximo vencimento. A recuperação judicial e a extrajudicial são instrumentos legítimos. Podem salvar empresas, empregos e cadeias produtivas. O problema começa quando deixam de ser exceção e passam a integrar o cotidiano econômico. Quando grandes companhias recorrem a esses mecanismos em sequência, a mensagem precisa ser ouvida com atenção.
A conta chegou. E ela não chega apenas para as empresas. Chega para fornecedores que deixam de receber. Para trabalhadores que temem pelo emprego. Para municípios que perdem arrecadação. Para bancos que endurecem ainda mais o crédito. Para pequenos negócios dependentes das grandes empresas. E, no fim da cadeia, chega novamente ao consumidor, sob a forma de desemprego, preços mais altos e menos oportunidades.
O Brasil não pode comemorar estatísticas de emprego ou crescimento pontual e ignorar o que acontece debaixo do tapete. Uma economia pode parecer saudável nos números gerais e, ao mesmo tempo, acumular fragilidades perigosas em seu setor produtivo. Quando empresas gigantes começam a pedir socorro, é porque algo muito maior está em jogo.
O País precisa voltar a discutir, com seriedade, como tornar o capital acessível, o ambiente de negócios menos hostil, o sistema tributário mais racional e o crescimento menos dependente de consumo financiado por dívida. Porque nenhuma nação prospera quando suas empresas vivem permanentemente de fôlego emprestado.
A Braskem e as Casas Bahia são de setores diferentes, com histórias e problemas próprios. Mas, juntas, simbolizam uma pergunta que o Brasil já não deveria adiar: quantas empresas ainda precisarão pedir socorro para que se reconheça que o problema pode estar muito além de cada empresa? O País precisa decidir se continuará apenas renegociando o futuro — ou se finalmente começará a construí-lo.