Ignorar é pior

Por Cruzeiro do Sul

Há situações em que os números deixam de ser apenas dados e passam a funcionar como um diagnóstico de um país. A população em situação de rua é uma delas. E o diagnóstico brasileiro é grave: alguma coisa não está funcionando na política social. Não se trata de negar a existência de programas, benefícios, ministérios, secretarias, centros de atendimento, abrigos ou equipes destinadas à assistência social. Ao contrário. O Estado brasileiro movimenta anualmente bilhões de reais para combater a pobreza, reduzir vulnerabilidades e proteger milhões de pessoas. O problema é que, diante de determinados indicadores, fica difícil sustentar que todo esse esforço esteja produzindo o resultado esperado.

O dado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) é eloquente. Em 2022, a estimativa era de 281.472 pessoas em situação de rua no Brasil. O número representava crescimento de 211% em dez anos, desde 2012. No mesmo período, a população brasileira cresceu 11%. Ou seja, enquanto o País cresceu pouco mais de um décimo, a população vivendo nas ruas mais que triplicou.

E a situação não parou de se agravar. Dados mais recentes do Cadastro Único apontam que, em maio de 2026, havia 388.855 pessoas em situação de rua registradas no Brasil. É um contingente que, sozinho, equivale à população de uma cidade de médio porte. A pergunta que se impõe é inevitável: se o Estado brasileiro arrecada cada vez mais, mantém uma gigantesca estrutura de proteção social e despeja bilhões de reais em políticas públicas, por que cresce o número de brasileiros que terminam nas ruas? Não há resposta confortável para isso.

É preciso deixar claro que população em situação de rua não é sinônimo de preguiça, criminalidade ou falta de vontade de trabalhar. O fenômeno é complexo e envolve pobreza, desemprego, rompimento de vínculos familiares, problemas de saúde, dependência química e outras formas de vulnerabilidade. Justamente por isso, exige políticas igualmente complexas.

O problema é que o Brasil parece ter aprendido a administrar a pobreza, mas ainda não conseguiu enfrentá-la de maneira capaz de produzir transformação. Não basta oferecer uma refeição. Não basta disponibilizar um abrigo. Não basta distribuir cobertores no inverno, cadastrar pessoas, entregar benefícios ou promover campanhas de conscientização. Tudo isso é necessário, mas é insuficiente quando o objetivo deveria ser retirar definitivamente alguém da situação de rua.

Uma política social verdadeiramente eficiente precisa atacar as causas e construir portas de saída. É preciso saber quantas pessoas conseguiram deixar as ruas depois de passar por um serviço público. Quantas recuperaram documentos, reconstruíram vínculos familiares, receberam tratamento, conseguiram trabalho, moradia e autonomia. Quantas deixaram de depender permanentemente do Estado. E quantas voltaram às ruas depois de atendidas. Essas respostas deveriam ser tão importantes quanto o dinheiro gasto.

O Brasil desenvolveu uma cultura perigosa de avaliar políticas públicas pelo volume de recursos destinados a elas. Se determinado programa recebeu mais dinheiro, considera-se que houve avanço. Mas orçamento não é resultado. Gasto não é eficiência. Programa criado não significa problema resolvido. É perfeitamente possível gastar muito e entregar pouco. E essa discussão não pode ser confundida com uma defesa da redução dos recursos destinados à assistência social. É exatamente o contrário. Porque existem pessoas em extrema vulnerabilidade. Cada recurso desperdiçado representa uma oportunidade perdida para alguém que está dormindo numa calçada. A questão, portanto, não é simplesmente quanto o governo gasta. É onde gasta, como gasta, quais metas estabelece e quais resultados entrega.

O sucesso de uma política pública não deveria ser medido apenas pelo número de atendimentos realizados, benefícios concedidos ou pessoas cadastradas. Esses indicadores são importantes, mas não podem ser o ponto final. O indicador mais importante deveria ser a quantidade de vidas efetivamente reconstruídas. O crescimento da população em situação de rua deveria provocar uma revisão profunda das estratégias nacionais de combate à pobreza e à exclusão. Se a curva continua subindo, alguma coisa precisa mudar. É justamente por isso que o Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, lembrado ontem, não deveria ser transformado em mais uma data do calendário oficial. A data deveria servir para cobrar resultados. Porque há uma diferença enorme entre reconhecer um problema e resolvê-lo. O Brasil já reconheceu. Há décadas. O que ainda não conseguiu fazer é impedir que milhares de brasileiros terminem vivendo nas ruas — e oferecer uma porta de saída para aqueles que já chegaram a elas.

O País não precisa necessariamente de mais uma promessa. Precisa saber por que tantas políticas existentes não conseguem produzir o resultado esperado. Enquanto isso não for respondido, continuará acontecendo uma contradição difícil de aceitar: de um lado, um Estado que movimenta bilhões em políticas de proteção social; de outro, uma população vulnerável que cresce e permanece exposta nas calçadas, praças, viadutos e abrigos. Não é razoável tratar essa contradição como normal.

Dinheiro público precisa chegar a quem precisa. Mas precisa chegar acompanhado de gestão, fiscalização, metas e integração entre assistência, saúde, habitação, educação e trabalho.

Mais do que isso: precisa chegar acompanhado de uma estratégia de saída. Porque oferecer sobrevivência não garante um futuro melhor.

Talvez seja essa a grande falha revelada pelo crescimento da população em situação de rua: o Brasil aprendeu a gastar para amenizar a pobreza, mas ainda precisa aprender a transformar recursos públicos em emancipação. Quando o número de pessoas nas ruas cresce em proporção tão superior à própria população brasileira, não basta pedir mais dinheiro e esperar que tudo se resolva. É hora de perguntar, com coragem, o que está dando errado. A resposta pode ser incômoda. Mas ignorá-la é pior.