Conta amarga

Por Cruzeiro do Sul

Enquanto candidatos à Presidência da República percorrem o País em busca de votos, alianças e apoio de diferentes setores da sociedade, uma realidade menos confortável se impõe nos bastidores da economia: o próximo governo, qualquer que seja o resultado das urnas, receberá um país com pouco espaço fiscal, juros ainda elevados, despesas obrigatórias pressionando o Orçamento e uma dívida que exige cada vez mais recursos públicos apenas para ser administrada. É importante separar a disputa eleitoral da realidade dos números. Promessas podem ser feitas em palanques, programas podem ser apresentados e discursos podem oferecer soluções rápidas para problemas complexos. Mas a aritmética do Estado não participa de campanha. Ela cobra a conta. E a conta de 2027 preocupa.

As projeções mais recentes do mercado apontam para um déficit primário de aproximadamente R$ 55 bilhões em 2027, acima da previsão anterior. O próprio debate econômico já coloca o próximo ano diante de um dilema difícil: promover o necessário reequilíbrio das contas públicas sem provocar uma retração ainda maior da atividade econômica. O problema não surgiu de uma hora para outra. É resultado de uma combinação de decisões tomadas ao longo dos últimos anos, especialmente de uma política fiscal que ampliou despesas, criou compromissos permanentes e reduziu a margem de manobra do governo. O resultado é um Orçamento cada vez mais engessado, no qual grande parte dos recursos já nasce comprometida antes mesmo de o governante eleito assumir.

A situação chegou a tal ponto que projeções oficiais e análises econômicas já alertavam para o risco de as despesas obrigatórias comprimirem perigosamente os recursos destinados ao funcionamento cotidiano da máquina pública. Em estimativas anteriores, a combinação de emendas, precatórios e outras despesas chegou a colocar em risco recursos destinados aos chamados gastos discricionários — justamente aqueles que permitem ao governo manter serviços e fazer investimentos.

O que está em jogo é algo sério e concreto: a redução progressiva da capacidade de o governo escolher onde gastar, investir e atender às novas demandas da sociedade. É justamente aí que a eleição de 2026 deveria produzir um debate mais maduro.

O eleitor precisa saber não apenas o que cada candidato pretende fazer, mas quanto custará cada promessa e, principalmente, de onde virá o dinheiro. Não é suficiente falar em aumento de investimentos, ampliação de benefícios, redução de impostos ou expansão de serviços públicos. Todas essas medidas podem ter justificativas legítimas. O problema aparece quando se promete tudo ao mesmo tempo sem explicar como a conta será fechada. Assim como foi a última eleição.

A discussão deveria ser ainda mais rigorosa porque os juros elevados continuam sendo uma consequência importante desse ambiente. O Banco Central mantém uma política monetária restritiva diante dos riscos inflacionários e das incertezas do cenário econômico. Ao mesmo tempo, a desaceleração da atividade já dá sinais de perda de fôlego. O IBC-Br, por exemplo, registrou retração de 0,64% em junho, segundo dados divulgados recentemente.

É uma combinação perigosa: economia perdendo velocidade, famílias pressionadas, empresas enfrentando crédito caro e governo com pouco espaço para ampliar despesas.

Não é razoável esperar crescimento vigoroso quando o Estado precisa comprometer parcela crescente de seus recursos com despesas obrigatórias e pagamento de juros. Também não é possível imaginar juros estruturalmente mais baixos sem que o mercado enxergue maior segurança nas contas públicas. A política monetária pode controlar a inflação, mas não pode substituir uma política fiscal responsável.

Esse é o ponto central que não deveria desaparecer em meio à campanha eleitoral. O País precisa reconhecer que a política econômica dos últimos anos produziu benefícios pontuais, sustentou programas sociais e ampliou despesas consideradas necessárias pelo governo, mas também deixou uma herança fiscal que limita o próximo passo. O problema não é simplesmente gastar. Governos precisam gastar. O problema é gastar sem criar condições para que a receita acompanhe permanentemente as novas obrigações. É justamente essa lógica que precisa ser revista.

Não há solução indolor. Um ajuste fiscal sério exigirá escolhas, revisão de despesas, avaliação de benefícios, combate a desperdícios, maior eficiência administrativa e, sobretudo, disposição política para enfrentar grupos organizados que se acostumaram a defender privilégios e despesas como se o dinheiro público fosse inesgotável.

Também será necessário discutir a qualidade do gasto. O Brasil não pode continuar tratando cada despesa pública como intocável apenas porque ela foi incorporada ao Orçamento. Há programas que precisam ser preservados, mas também existem estruturas que precisam ser avaliadas, corrigidas ou encerradas quando deixam de cumprir sua finalidade.

O próximo presidente terá uma oportunidade — e uma obrigação — de explicar isso à sociedade justamente porque o atual não fez isso, pelo menos até agora.

Não será aceitável repetir a fórmula de ampliar gastos hoje para transferir a conta para amanhã. O eleitorado merece saber qual será o preço de cada escolha.

O País precisa encerrar o ciclo em que a política econômica é pensada para sobreviver ao próximo calendário eleitoral. O Brasil precisa de uma política de Estado, com responsabilidade fiscal, previsibilidade, controle da dívida, respeito às metas e capacidade de investir. A democracia escolhe governantes. Não revoga a matemática.

Dois mil e vinte e sete poderá ser o ano em que o Brasil finalmente decidirá enfrentar suas limitações ou o momento em que será obrigado a fazê-lo pela falta de alternativas. A diferença estará na capacidade do próximo governo de reconhecer que dinheiro público não é infinito e que responsabilidade fiscal não é obstáculo ao desenvolvimento. É condição para que ele seja possível.

O próximo presidente receberá mais do que a faixa presidencial. Receberá uma conta. E a sociedade precisa saber, antes de votar, quem está disposto a apresentar o valor, explicar como chegou a ele e, principalmente, dizer com honestidade como pretende pagá-lo.