A desertificação no Brasil
Há uma contradição incômoda no debate ambiental brasileiro: o País construiu, ao longo dos anos, uma imagem internacional de defensor da natureza, mas continua convivendo com sinais cada vez mais evidentes de degradação de seus territórios. Entre discursos oficiais, compromissos internacionais e anúncios de novos programas, a realidade insiste em cobrar uma resposta mais concreta. E ela chega sob a forma de calor fora de época, eventos climáticos extremos, perda de cobertura vegetal, degradação do solo e, agora, o avanço da desertificação.
Governos de esquerda, em particular, historicamente fizeram da defesa do meio ambiente uma de suas bandeiras políticas. O problema é que nenhuma ideologia, por si só, protege uma floresta, recupera um solo ou devolve água a uma comunidade. Meio ambiente se preserva com fiscalização, planejamento, recursos, políticas permanentes e, sobretudo, capacidade de enfrentar interesses econômicos quando eles ultrapassam os limites da sustentabilidade. A prática, nesse campo, tem se mostrado muito mais complexa — e frequentemente mais decepcionante — do que a retórica.
Os números sobre desertificação deveriam ser suficientes para interromper qualquer complacência. Cerca de 39 milhões de brasileiros vivem em áreas ameaçadas pelo fenômeno. Em duas décadas, a área afetada passou de 1,35 milhão para 1,51 milhão de quilômetros quadrados. São 170 mil quilômetros quadrados a mais de território degradado — uma extensão equivalente à soma de Pernambuco, Paraíba e Alagoas.
Não estamos falando, portanto, de um problema distante, restrito a uma paisagem árida ou a comunidades isoladas do Nordeste. A desertificação compromete a capacidade da terra de reter água e sustentar a produção. Afeta a agricultura, a segurança alimentar, os recursos hídricos, a biodiversidade e a própria economia. E, ao contribuir para o aumento do calor e para a perda de capacidade de absorção de carbono, ultrapassa as fronteiras das regiões diretamente atingidas.
O dado mais inquietante talvez esteja na Caatinga. Cerca de 11% do bioma encontra-se em situação crítica ou severa de deterioração do solo, enquanto 42,6% de sua vegetação nativa já foi suprimida. Ainda assim, o bioma que costuma aparecer no imaginário nacional como símbolo da escassez revela uma extraordinária capacidade de prestar serviços ambientais. Estudos citados por pesquisadores apontam que a Caatinga é altamente eficiente no armazenamento de carbono e que grande parte desse carbono permanece justamente no solo.
A lição é evidente: preservar não significa apenas impedir a destruição de uma paisagem bonita. Significa proteger sistemas naturais que prestam serviços essenciais à sociedade. Quando se destrói a vegetação, empobrece-se o solo, reduz-se a capacidade de retenção de água e fragiliza-se uma engrenagem que levou séculos para se formar.
O Brasil já assumiu compromissos internacionais há quase três décadas. É signatário, desde 1997, da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação. Em março deste ano, lançou o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, com horizonte até 2043. Em junho, apresentou o Programa Recaatingar, com a ambiciosa meta de recuperar 10 milhões de hectares degradados da Caatinga em 20 anos.
São iniciativas que merecem ser acompanhadas e, onde funcionarem, ampliadas. Mas é exatamente aqui que começa a parte mais difícil: transformar programas em resultados mensuráveis. O Brasil tem uma conhecida capacidade de produzir planos, conferências, compromissos e documentos. O que ainda precisa demonstrar, com muito mais consistência, é a capacidade de manter políticas ambientais durante décadas.
O combate à desertificação também desmonta outra ideia equivocada: a de que a preservação ambiental seja incompatível com desenvolvimento. Técnicas de manejo, agroecologia, recuperação de solos, captação de água da chuva, sementes adaptadas e sistemas agroflorestais demonstram que produção e conservação podem caminhar juntas. Mais do que isso: em muitas regiões, conservar é uma condição para continuar produzindo.
É preciso, portanto, abandonar a velha disputa em que economia e meio ambiente aparecem como adversários inevitáveis. Uma terra degradada não produz indefinidamente. Um rio contaminado não abastece uma cidade para sempre. Uma floresta destruída não volta por decreto. E uma comunidade sem água não espera a próxima conferência internacional para resolver seus problemas.
A realização da COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, na Mongólia, oferece ao Brasil uma oportunidade de discutir o problema com seriedade. Mas também deveria servir para uma reflexão doméstica. Não basta chegar a encontros internacionais apresentando o País como potência ambiental. É preciso olhar para o território brasileiro e perguntar quanto dessa imagem corresponde, efetivamente, à realidade.
Os sinais estão por toda parte. Eventos extremos deixam de parecer excepcionais. O calor invade períodos tradicionalmente mais amenos. Chuvas intensas provocam destruição. Ventos fortes causam prejuízos. Tremores de terra lembram que a natureza não se comporta segundo o calendário humano. E a degradação ambiental amplia a vulnerabilidade das populações que menos têm condições de se proteger.
Nem todo fenômeno climático ou geológico pode ser atribuído diretamente às mudanças climáticas. Essa distinção é indispensável para que o debate não seja contaminado por alarmismo. Mas também não serve como desculpa para ignorar o conjunto dos sinais. O que se exige é ciência, monitoramento, prevenção e políticas públicas capazes de reduzir riscos.
A desertificação talvez seja uma das formas mais silenciosas dessa crise. Não chega necessariamente como uma tragédia de um dia para o outro. Avança devagar, retirando fertilidade, água, vegetação, renda e perspectivas. Quando a sociedade percebe a dimensão do problema, muitas vezes o processo já está profundamente instalado.
Por isso, a questão ambiental não pode continuar sendo tratada como patrimônio de um ideal político. A natureza não vota, não pertence a partidos e não respeita mandatos de quatro anos. O desafio é maior do que qualquer disputa ideológica.
O Brasil ainda tem tempo e condições para reagir. Tem conhecimento científico, comunidades que conhecem seus territórios, universidades, organizações sociais e experiências bem-sucedidas de recuperação. Tem também uma responsabilidade proporcional à dimensão de seu patrimônio natural.
O que não pode ter é a ilusão de que boas intenções substituem resultados, como é atualmente. Entre o país que o discurso oficial apresenta ao mundo e o país que a degradação ambiental revela existe uma distância que precisa ser reduzida. E rapidamente.
Porque a natureza não costuma negociar prazos. Quando o solo perde sua capacidade de sustentar a vida, não há discurso capaz de fazê-lo florescer novamente.