Sensação ou realidade?

Por Cruzeiro do Sul

Há algo profundamente equivocado quando se tenta convencer o brasileiro de que o preço alto no supermercado é apenas uma questão de sensação. Não é! O consumidor que chega ao caixa com menos produtos e uma conta maior não está sofrendo de ilusão. O trabalhador que precisa escolher entre levar carne, frutas ou produtos de limpeza não está interpretando mal a realidade. E a família que deixou de comprar determinados alimentos porque eles ficaram caros não está simplesmente administrando mal o salário.

A realidade está no carrinho de supermercado.

É preciso, antes de tudo, separar duas coisas que frequentemente são apresentadas como se fossem a mesma: inflação e redução de preços. Quando se diz que a inflação caiu, isso não significa que os preços voltaram aos patamares anteriores. Significa, em regra, que eles passaram a subir em ritmo menor. Em julho, o IPCA ficou em 0,07%, abaixo dos 0,16% de junho. O acumulado, portanto, pode desacelerar, mas o preço que já subiu permanece incorporado ao orçamento das famílias.

É uma diferença aparentemente técnica, mas que muda completamente a percepção de quem paga as contas.

Se um produto custava R$ 10 e subiu para R$ 12, uma inflação menor não faz esse produto retornar a R$ 10. Para que isso acontecesse, seria necessária uma queda efetiva de preços, algo muito diferente de uma simples desaceleração inflacionária. É justamente aí que mora a distância entre a estatística oficial e a experiência cotidiana do brasileiro.

E essa experiência não pode ser desqualificada.

Durante a semana, ganhou força a afirmação de que o consumidor estaria apenas com a "sensação" de que os produtos estão caros, numa tentativa de explicar o desconforto das famílias pelo endividamento, pelos juros elevados ou até pela suposta dificuldade do brasileiro em administrar o próprio salário. É uma explicação que, além de simplista, transfere para quem está na ponta da cadeia a responsabilidade por um problema que é muito maior.

Famílias podem, evidentemente, cometer erros de planejamento. Podem se endividar além da capacidade de pagamento. Podem comprar por impulso, parcelar demais ou não controlar adequadamente seus gastos, afinal imprevistos que envolver gastar dinheiro acontecem. Mas transformar esses comportamentos em explicação para o encarecimento do custo de vida é inverter a lógica dos fatos.

O brasileiro não acorda pela manhã e decide que quer pagar mais caro. Ele paga mais porque o sistema econômico brasileiro está caro.

E aqui está o verdadeiro ponto da discussão: não é possível atribuir continuamente a culpa a fatores externos. Não é Trump. Não é a guerra. Não são as mudanças climáticas. Não são apenas as oscilações internacionais das commodities. Esses fatores podem, sim, produzir efeitos sobre a economia brasileira e pressionar determinados preços. Mas não explicam sozinhos a dificuldade estrutural do País em oferecer estabilidade, previsibilidade e poder de compra à sua população.

O problema está também dentro de casa.

Uma economia não consegue funcionar indefinidamente com despesas públicas elevadas, dívida crescente, juros muito altos e uma carga tributária que pesa sobre praticamente toda a cadeia produtiva. Em algum momento, a conta chega. E, no Brasil, ela chega principalmente ao consumidor.

O governo arrecada quando o cidadão compra. Arrecada quando ele trabalha. Arrecada quando ele produz. Arrecada quando contrata serviços. Arrecada sobre o consumo, sobre a renda e sobre inúmeras etapas da produção. E, no fim da cadeia, boa parte desse custo está embutida justamente naquele produto que aparece na prateleira do supermercado.

É por isso que a discussão sobre inflação não pode ficar restrita ao número divulgado pelo IBGE.

O índice é importante. É oficial e necessário. Mas ele não substitui a realidade econômica de milhões de famílias. O próprio IBGE explica que o IPCA mede a variação de uma cesta de produtos e serviços, considerando inclusive o peso de cada item no orçamento das famílias.

E se o orçamento já está comprometido, qualquer aumento adicional pesa muito mais.

O governo precisa compreender que não existe política econômica neutra para quem vive de salário. Quando os juros permanecem elevados, o crédito fica mais caro. Quando as contas públicas não inspiram confiança, o mercado cobra um prêmio maior. Quando o Estado gasta mais do que deveria, aumenta a necessidade de financiamento. Quando a dívida cresce, aumenta também a pressão para que o sistema encontre mecanismos de financiamento.

E, direta ou indiretamente, alguém paga essa conta.

O Banco Central chegou a manter a Selic em 15% ao ano e, posteriormente, reduziu a taxa para 14,25% e agora está em 14%. Ainda assim, trata-se de um patamar extremamente elevado para uma economia que precisa de investimento, crédito e crescimento. O próprio Copom reconheceu que a inflação e suas medidas subjacentes permaneciam acima da meta em junho.

É claro que o Banco Central tem responsabilidade nesse processo, mas seria injusto atribuir exclusivamente à política monetária o problema. Juros elevados são também consequência de um ambiente fiscal que precisa transmitir confiança. Não basta reclamar do remédio amargo quando não se enfrenta adequadamente a doença que exige o tratamento.

É aí que está a grande contradição. O governo exige sacrifício do cidadão, mas demonstra enorme dificuldade em fazer o mesmo consigo próprio. Quando falta dinheiro no orçamento familiar, corta-se o restaurante, adia-se a compra de uma roupa, troca-se uma marca por outra, reduz-se o consumo de carne, cancela-se uma viagem. Quando falta dinheiro na empresa, demitem-se, renegociam-se contratos, cortam-se investimentos.

O Estado, porém, frequentemente encontra uma alternativa mais confortável: arrecadar mais e aparta o brasileiro que já paga impostos demais.

Não se pode exigir equilíbrio das famílias enquanto o próprio governo não demonstra a mesma disposição para rever despesas, eliminar desperdícios, estabelecer prioridades e reduzir aquilo que é possível reduzir. A responsabilidade fiscal não pode ser um conceito aplicado apenas ao cidadão que precisa fechar o mês no azul.

O governo também precisa aprender a fechar suas contas.

Não se trata de negar a existência de programas sociais, investimentos públicos ou políticas necessárias. Trata-se de perguntar quanto custa cada política, de onde vem o dinheiro e se o resultado entregue à sociedade justifica a despesa. Governar não é apenas gastar. É escolher. E escolher significa também dizer não.

O verdadeiro debate econômico brasileiro precisa sair da superficialidade. Não adianta comemorar uma inflação menor como se isso significasse que o supermercado ficou barato. Não adianta dizer que determinados produtos registraram queda enquanto outros continuam pesando fortemente sobre o orçamento. Não adianta atribuir o desconforto das famílias ao endividamento e aos juros sem discutir as causas que mantêm os juros elevados.

Muito menos é aceitável dizer ao cidadão que ele simplesmente não sabe administrar o próprio salário. Talvez seja justamente o contrário.

O brasileiro está administrando como pode. Está substituindo marcas, reduzindo quantidades, pesquisando promoções, adiando compras e fazendo escolhas cada vez mais difíceis. Está tentando fazer caber dentro do mesmo salário uma cesta de produtos que ficou mais cara, contas que aumentaram, serviços que pesam mais e impostos que continuam presentes em quase tudo. A sensação não é imaginária. A conta existe. E ela não desaparece porque uma estatística mensal mostra que a inflação subiu menos.

O Brasil precisa parar de procurar culpados fora de suas fronteiras para problemas que também são produzidos dentro delas. Trump pode influenciar mercados. Guerras podem afetar commodities. Fenômenos climáticos podem encarecer alimentos. Tudo isso é verdade. Mas um país com contas públicas equilibradas, ambiente de negócios previsível, inflação controlada e política econômica responsável tem muito mais condições de absorver choques externos.

O que não se pode fazer é transformar todo problema externo em justificativa permanente para os problemas internos.

A responsabilidade maior é de quem governa. É o governo que define prioridades, administra o orçamento, estabelece políticas tributárias, conduz suas despesas e precisa criar condições para que a economia cresça sem depender permanentemente de juros elevados e de aumento de arrecadação.

Enquanto isso não acontecer, a conta continuará chegando ao supermercado. E, diante dela, não adianta dizer ao brasileiro que ele está apenas imaginando que tudo ficou caro. Basta olhar para o carrinho.

Basta olhar para o caixa. Basta olhar para o contracheque.

O consumidor não precisa de explicações que coloquem sobre seus ombros a culpa por uma realidade que ele não criou. Precisa de um governo que tenha coragem de fazer dentro de casa aquilo que milhões de brasileiros já fazem todos os meses: cortar gastos, estabelecer prioridades, respeitar o orçamento e parar de gastar como se a conta nunca fosse chegar. Porque ela já chegou. E quem está pagando é o brasileiro.