Sinais de alerta

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Não é preciso esperar uma recessão para admitir que alguma coisa não vai bem na economia brasileira. Os números mais recentes, quando observados isoladamente, podem até parecer desconectados. Juntos, porém, formam um retrato que merece atenção: as famílias estão mais endividadas, bilhões de reais foram destinados às apostas on-line, a produção industrial recuou e a redução da taxa básica de juros ainda é considerada insuficiente por setores da economia.

Nenhum desses indicadores, sozinho, permite decretar o fracasso da política econômica ou anunciar uma crise. Mas a combinação deles revela uma economia que encontra dificuldades para transformar renda, crédito e consumo em crescimento sustentável.

O dado sobre as apostas esportivas talvez seja o mais simbólico. As famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as chamadas bets em 2025. Independentemente da discussão sobre a legalidade ou da regulamentação desse mercado, há uma questão econômica evidente: dinheiro que poderia circular no comércio, pagar dívidas, financiar o consumo de bens e serviços ou simplesmente permanecer no orçamento doméstico foi direcionado para uma atividade cujo resultado, para a maioria dos apostadores, representa perda financeira.

Não se trata de atribuir às apostas a responsabilidade pelos problemas da economia. Seria uma simplificação. O fenômeno, entretanto, ajuda a revelar uma mudança preocupante no comportamento financeiro de parte da população. Quando famílias pressionadas pelo orçamento passam a comprometer recursos com uma atividade de alto risco na expectativa de obter ganhos rápidos, fica evidente que o problema não é apenas de consumo. É também de educação financeira, de renda e de perspectivas.

Ao mesmo tempo, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor mostra que 82% das famílias brasileiras estão endividadas. A queda da inadimplência é uma notícia positiva e demonstra que parte dos consumidores ainda consegue honrar seus compromissos. Mas não deveria ser interpretada como sinal de tranquilidade. Uma família pode estar pagando suas contas em dia e, ainda assim, estar excessivamente comprometida com prestações, financiamentos e cartões de crédito. O endividamento elevado reduz a capacidade de consumo futuro e deixa os consumidores mais vulneráveis a qualquer deterioração do mercado de trabalho, da renda ou das condições de crédito.

É nesse ponto que outro dado ganha importância: a indústria brasileira registrou queda de 1,8% na produção entre maio e junho. A indústria tem um papel estratégico que vai muito além de sua participação direta na formação do Produto Interno Bruto. Ela movimenta cadeias produtivas, gera empregos qualificados, demanda investimentos, incorpora tecnologia e produz efeitos sobre diversos setores da economia. Quando a atividade industrial perde força, portanto, o problema não fica restrito ao chão das fábricas.

Uma economia saudável precisa de consumo, mas não pode depender exclusivamente dele. Precisa também de investimento e produção. O crescimento sustentável nasce justamente da capacidade de combinar esses elementos. É por isso que a discussão sobre os juros permanece tão importante.

A redução da taxa Selic é, evidentemente, positiva para empresas e consumidores. Mas os setores produtivos têm razão ao lembrar que o custo do dinheiro continua elevado. Para uma empresa que precisa investir, ampliar uma fábrica, comprar equipamentos ou financiar capital de giro, a diferença entre uma taxa considerada alta e outra efetivamente estimulante pode determinar a decisão de investir ou esperar.

E esperar, em economia, também tem um custo. Quando a indústria reduz sua produção, as famílias estão fortemente endividadas e o crédito permanece caro, cria-se um círculo difícil de romper. O consumidor limita novas compras porque já carrega compromissos financeiros. A empresa adia investimentos porque o financiamento custa caro. A produção perde dinamismo. E uma economia menos dinâmica dificulta a geração de novos empregos e de renda.

É preciso reconhecer, portanto, que a redução dos juros não é uma solução mágica. Ela pode ajudar a destravar a economia, mas não substitui o equilíbrio das contas públicas, a previsibilidade, a segurança jurídica, o aumento da produtividade e um ambiente favorável ao investimento.

Da mesma forma, não se pode atribuir ao governo toda e qualquer dificuldade conjuntural. A economia brasileira é influenciada por fatores internos e externos, pelo comportamento das grandes economias, pelos preços das commodities, pelas condições financeiras internacionais e por inúmeras outras variáveis.

Mas governos têm responsabilidade, sim, sobre a qualidade do ambiente econômico que ajudam a construir. É justamente aí que os sinais recentes precisam ser observados com cuidado.

Uma economia na qual 82% das famílias estão endividadas, dezenas de bilhões de reais são consumidos pelas apostas, a indústria perde produção e os agentes econômicos ainda consideram o custo do dinheiro excessivamente elevado não é uma economia em situação confortável.

Pode não haver uma crise. Pode não haver recessão. E é importante não transformar indicadores econômicos em manchetes alarmistas. Mas há sinais de alerta.

O principal deles talvez esteja na dificuldade de transformar o dinheiro que circula na economia em crescimento consistente. O consumo das famílias precisa ser sustentado por renda, não por endividamento permanente. O crédito deve servir para financiar projetos e investimentos, não apenas para antecipar compras que o orçamento futuro talvez não consiga suportar. E o setor produtivo precisa encontrar condições para investir, inovar e ampliar sua capacidade.

O Brasil já demonstrou diversas vezes que consegue crescer quando consegue combinar estabilidade, investimento, produção e consumo. O desafio é evitar que o crescimento seja artificialmente sustentado pelo crédito caro, pelo consumo financiado e por expectativas de ganhos rápidos. Os números mais recentes não permitem pessimismo irresponsável. Permitem, entretanto, uma cobrança responsável. Porque uma economia pode continuar crescendo enquanto acumula desequilíbrios. E, quando esses desequilíbrios finalmente aparecem de forma mais contundente, o custo para corrigi-los costuma ser muito maior. É melhor prestar atenção aos sinais agora.