Jogo de poder

Por Cruzeiro do Sul

Pouco mais de dez dias depois de a Espanha confirmar seu protagonismo e conquistar a Copa do Mundo de 2026, o futebol voltou às manchetes. Mas, desta vez, não pelos gols, pelas defesas memoráveis ou pelas histórias que fazem do esporte o espetáculo mais popular do planeta. O debate agora se desloca para duas frentes igualmente relevantes: a crise de identidade da seleção brasileira e uma disputa de poder que pode redesenhar o futuro da própria indústria do futebol.

No Brasil, o encerramento da campanha apenas consolidou uma sensação que já vinha crescendo antes mesmo da estreia. A eliminação precoce foi mais um capítulo de um jejum que se aproxima de um quarto de século sem títulos mundiais. O pentacampeão continua sendo uma potência histórica, mas deixou de ser uma potência contemporânea.

Pesquisa Datafolha realizada após a eliminação mostra que 47% dos brasileiros atribuem aos jogadores a maior responsabilidade pelo fracasso, percentual superior ao daqueles que responsabilizam Carlo Ancelotti. O resultado revela uma mudança significativa na percepção da torcida. Durante décadas, técnicos eram os primeiros alvos das derrotas. Desta vez, porém, o julgamento recaiu sobre quem esteve em campo, reflexo de uma geração frequentemente criticada pela irregularidade, pela falta de liderança e pela incapacidade de decidir partidas nos momentos mais importantes.

A posição do treinador italiano também ajuda a compreender esse novo cenário. Ao retornar ao Brasil, Ancelotti deixou claro que Neymar, Casemiro e Danilo não fazem parte de seus planos para o próximo ciclo mundial. A mensagem é objetiva: o futuro da seleção não será construído olhando pelo retrovisor.

No caso de Neymar, a decisão parece apenas formalizar um processo que o próprio jogador já havia antecipado ao admitir que sua trajetória com a camisa da seleção estava praticamente encerrada. Independentemente da enorme contribuição técnica ao longo de mais de uma década, encerra-se um dos ciclos mais longos e midiáticos da história recente do futebol brasileiro.

Mas reduzir a discussão apenas à troca de gerações seria simplificar um problema muito maior.

A seleção atravessa uma crise que ultrapassa nomes, treinadores e esquemas táticos. Nos últimos anos, o Brasil conviveu com instabilidade administrativa, mudanças frequentes no comando técnico e uma sucessão de decisões improvisadas dentro da Confederação Brasileira de Futebol, a CBF. Nenhum projeto esportivo consistente sobrevive quando a estrutura institucional vive em permanente turbulência.

Enquanto o Brasil tenta reconstruir sua identidade esportiva, outro movimento chama atenção no cenário internacional.

A Fifa estuda abrir espaço para investidores privados em ativos relacionados à Copa do Mundo, numa operação que representa um dos maiores movimentos de financeirização da história do esporte. Em outras palavras, a entidade pretende transformar parte do seu principal patrimônio comercial em um grande negócio para fundos de investimento.

Sob o ponto de vista empresarial, a ideia faz sentido. O futebol movimenta centenas de bilhões de dólares, reúne audiências globais e tornou-se um dos produtos de entretenimento mais valiosos do planeta. Atrair capital privado significa ampliar receitas, acelerar investimentos e potencializar novos mercados.

Entretanto, o anúncio provocou reação imediata da Uefa. A entidade europeia já admite discutir um boicote caso a iniciativa avance, temendo perda de influência e um excessivo poder econômico concentrado nas mãos da Fifa. A tensão revela que a disputa não é apenas financeira; trata-se de uma batalha por governança, protagonismo político e controle do calendário internacional.

Essa disputa evidencia uma transformação silenciosa. O futebol deixa de ser apenas um esporte administrado por federações para assumir características típicas das grandes corporações globais. Clubes tornaram-se empresas; atletas converteram-se em ativos financeiros; direitos de transmissão movimentam cifras bilionárias; agora, até a própria Copa do Mundo passa a ser tratada como um patrimônio capaz de atrair investidores internacionais.

Nesse ambiente, a pergunta inevitável é: onde termina o esporte e começa o negócio?

O risco não está na profissionalização, que trouxe eficiência e desenvolvimento ao futebol moderno. O perigo surge quando a lógica financeira passa a determinar todas as decisões, relegando a segundo plano aspectos como competitividade, tradição, equilíbrio esportivo e interesse do torcedor.

O Brasil também precisa fazer essa reflexão. Não basta trocar jogadores, convocar novos talentos ou buscar outro treinador estrangeiro. O desafio é reconstruir um projeto esportivo consistente, baseado em gestão, formação de atletas, estabilidade institucional e planejamento de longo prazo.

Ao mesmo tempo, o mundo observará se a Fifa conseguirá convencer seus próprios parceiros de que o futebol continua sendo patrimônio dos torcedores, e não apenas um ativo negociável nos mercados financeiros.

A Copa terminou. Mas o campeonato mais importante talvez esteja apenas começando: aquele que decidirá quem comandará o futebol mundial nas próximas décadas — e, sobretudo, quais valores continuarão dentro de campo quando o apito inicial soar.