Vizinhos históricos

Por Cruzeiro do Sul

A visita do presidente argentino Javier Milei ao Brasil, no último fim de semana, recolocou em evidência uma velha questão da política sul-americana: até que ponto as relações entre países vizinhos podem ser condicionadas pelas preferências ideológicas de seus governantes? Convidado para participar da convenção nacional do Partido Liberal, Milei transformou sua passagem pelo País em um ato de alinhamento político com o ex-presidente Jair Bolsonaro. Impedido de visitá-lo na prisão domiciliar, em razão das restrições impostas pelo Supremo Tribunal Federal, o presidente argentino voltou a dirigir duras críticas ao presidente brasileiro, o petista Luiz Inácio Lula da Silva. O episódio ampliou um clima de tensão diplomática que já vinha se desenhando desde a posse de Milei na Casa Rosada.

Para muitos brasileiros, a rivalidade entre Brasil e Argentina costuma ser explicada pelo futebol. Afinal, poucas disputas esportivas despertam tanta paixão quanto os confrontos entre as duas seleções. Pelé e Maradona, Messi e Neymar, finais de Copa do Mundo e provocações entre torcedores alimentaram, durante décadas, um imaginário de competição permanente. Mas essa percepção, embora compreensível, não resiste à análise histórica. As maiores crises entre Brasília e Buenos Aires nunca tiveram origem nos gramados. Elas nasceram da política, da economia, das disputas estratégicas e, mais recentemente, da crescente polarização ideológica que atravessa o continente.

A história da relação bilateral é marcada por ciclos de aproximação e distanciamento. No século XIX, os dois países disputaram influência na Bacia do Prata e protagonizaram conflitos que ajudaram a moldar o mapa político da região. Ao longo do século XX, alternaram períodos de desconfiança e cooperação, especialmente em torno de projetos energéticos, interesses militares e liderança regional. Ainda assim, prevaleceu a percepção de que duas das maiores nações da América do Sul estavam condenadas a conviver. A geografia nunca permitiu outra alternativa.

Foi justamente essa compreensão que ganhou força com a redemocratização. A aproximação entre José Sarney e Raúl Alfonsín abriu caminho para uma relação baseada na confiança mútua, substituindo décadas de suspeitas. Poucos anos depois, a criação do Mercosul consolidou uma integração que ultrapassou os gabinetes presidenciais e alcançou empresas, universidades, trabalhadores e consumidores. O comércio bilateral tornou-se um dos pilares da economia regional, especialmente para setores como a indústria automobilística, máquinas, autopeças e agronegócio.

As divergências nunca desapareceram. Houve atritos comerciais, mudanças de orientação econômica e diferentes visões sobre a inserção internacional dos dois países. O que mudou, nos últimos anos, foi o peso atribuído às afinidades ideológicas entre os chefes de Estado. A diplomacia, tradicionalmente orientada por interesses permanentes, passou a refletir, com intensidade crescente, as preferências políticas de quem ocupa o poder.

Seria injusto atribuir esse fenômeno apenas ao momento atual. Javier Milei jamais escondeu sua proximidade com Jair Bolsonaro e fez dessa afinidade um dos símbolos de sua política externa. Mas o movimento inverso também ocorreu. Lula sempre cultivou relações estreitas com lideranças do peronismo argentino. Quando esteve preso em Curitiba, recebeu a visita de Alberto Fernández, então candidato à que presidiu a Argentina. Já de volta ao Palácio do Planalto, viajou a Buenos Aires para visitar Cristina Kirchner durante o período em que a ex-presidente cumpria prisão domiciliar. Em ambos os casos, os gestos tiveram evidente significado político e extrapolaram a mera cordialidade diplomática. Quem não se lembra de Lula posando para foto com um cartaz escrito "Cristina Livre" em julho de 2025.

Não há ilegalidade nem impropriedade em presidentes demonstrarem afinidade com lideranças estrangeiras. O problema surge quando essas relações pessoais passam a interferir na condução da política externa. Estados não escolhem seus parceiros pela identidade ideológica de seus governantes, mas pelos interesses permanentes de suas sociedades. Governos são transitórios; nações permanecem.

Brasil e Argentina compartilham uma das mais importantes fronteiras da América do Sul, cadeias produtivas altamente integradas, desafios comuns na área energética, interesses convergentes no comércio internacional e responsabilidades decisivas para o futuro do Mercosul. Quando Brasília e Buenos Aires transformam diferenças políticas em crises diplomáticas, quem paga a conta?. Perdem empresas, trabalhadores, exportadores, investidores e consumidores dos dois lados da fronteira.

O futebol continuará alimentando uma rivalidade saudável, feita de estádios lotados, brincadeiras e debates intermináveis sobre quem produziu os maiores craques da história. Essa competição faz parte da identidade cultural de brasileiros e argentinos e dificilmente desaparecerá. Mas ela nunca foi a verdadeira causa dos desencontros entre os dois países. As crises sempre nasceram das escolhas da política.

Presidentes passam. As eleições mudam governos, alteram prioridades e redefinem alianças. A geografia, entretanto, não se submete às urnas. Brasil e Argentina continuarão dividindo fronteiras, mercados, desafios e oportunidades. Quanto antes seus governantes compreenderem que a política externa deve servir aos interesses permanentes do Estado - e não às conveniências da polarização ideológica -, maiores serão as chances de transformar a rivalidade circunstancial em uma parceria duradoura. Afinal, vizinhos podem discordar. O que não podem é esquecer que continuarão sendo, para sempre, os vizinhos da história.