Tarifas, eleições e polarização
O novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros ultrapassa, em muito, os limites de uma disputa comercial. Embora tarifas sejam instrumentos legítimos de política econômica, sua adoção raramente decorre apenas de razões técnicas. Em um cenário internacional cada vez mais marcado pela competição geopolítica, elas também se transformam em ferramentas de pressão diplomática, sinalização política e demonstração de força. É justamente nesse contexto que deve ser analisada a decisão do presidente Donald Trump de endurecer sua política comercial em relação ao Brasil.
A justificativa oficial apresentada por Washington está baseada na defesa da indústria norte-americana, na necessidade de corrigir distorções comerciais e na proteção dos interesses econômicos dos Estados Unidos. Trata-se de um discurso coerente com a plataforma política de Trump desde seu primeiro mandato. O republicano sempre defendeu o fortalecimento da produção doméstica, o enfrentamento de parceiros considerados desleais e a utilização das tarifas como instrumento de negociação internacional.
No entanto, limitar a interpretação do episódio a uma simples divergência comercial seria ignorar os fatos. Nos últimos meses, os ruídos diplomáticos entre Brasília e Washington se intensificaram. Divergências sobre política externa, posições adotadas pelo governo brasileiro em organismos multilaterais, aproximações com países considerados estratégicos pelos Estados Unidos e sucessivas declarações de autoridades dos dois governos contribuíram para um ambiente de crescente desgaste. Quando a diplomacia perde espaço para a retórica, a economia costuma ser a primeira vítima.
O impacto das novas tarifas não será sentido apenas pelas grandes empresas exportadoras. Toda a cadeia produtiva é afetada. Indústrias que fornecem insumos, transportadoras, operadores logísticos, portos, produtores rurais, pequenas empresas e milhares de trabalhadores passam a conviver com um cenário de maior incerteza. A redução da competitividade dos produtos brasileiros no mercado americano pode significar queda nas exportações, diminuição dos investimentos e desaceleração de setores inteiros da economia.
Mas seria um equívoco imaginar que os efeitos negativos ficarão restritos ao Brasil. Empresas norte-americanas que dependem de matérias-primas brasileiras também enfrentarão aumento de custos. Em muitos segmentos industriais, substituir fornecedores não é tarefa simples nem imediata. O consumidor americano poderá sentir os reflexos no preço final de diversos produtos, enquanto cadeias globais de produção precisarão ser reorganizadas. Guerras comerciais produzem vencedores circunstanciais, mas quase sempre deixam um saldo de perdas compartilhadas.
No Brasil, entretanto, a repercussão da medida rapidamente deixou de ser econômica para tornar-se política. A menos de três meses das eleições gerais, o tarifaço passou a alimentar narrativas eleitorais. O governo Lula procura apresentar a decisão como consequência da postura firme do País na defesa de sua soberania e como exemplo de interferência externa motivada por divergências ideológicas. Já a oposição sustenta que a deterioração das relações diplomáticas decorre da condução da política externa brasileira e da incapacidade do governo de preservar canais de diálogo com a maior economia do planeta.
É previsível que o episódio seja explorado intensamente durante a campanha. Caso Lula confirme sua candidatura à reeleição, buscará transformar a crise em discurso nacionalista. Se a direita chegar competitiva ao pleito, tentará demonstrar que o isolamento diplomático decorre das escolhas do atual governo. Uma eventual terceira via, por sua vez, encontrará espaço para defender uma política externa menos ideológica, mais pragmática e voltada exclusivamente aos interesses permanentes do Estado brasileiro.
O problema é que, enquanto as campanhas disputam versões, quem paga a conta permanece o mesmo. Não são os candidatos. Não são os partidos. São os trabalhadores que dependem da manutenção dos empregos, os empresários que adiam investimentos diante da insegurança, os produtores que perdem mercados construídos ao longo de décadas e as famílias que convivem com inflação, juros elevados e redução do poder de compra.
O Brasil não pode aceitar passivamente medidas que prejudiquem sua economia, mas também não pode transformar a política externa em extensão da disputa ideológica doméstica. Relações internacionais exigem serenidade, previsibilidade e capacidade permanente de negociação. Países amadurecidos compreendem que governos são transitórios; interesses nacionais, não.
A eleição de outubro definirá quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos. Pode reconduzir Lula, abrir espaço para um nome ligado ao bolsonarismo ou oferecer ao eleitor uma alternativa fora da atual polarização. Seja qual for o resultado, haverá uma tarefa inadiável: reconstruir a confiança internacional do Brasil e devolver racionalidade às suas relações diplomáticas.
Tarifas podem subir ou cair conforme mudam os governos. Mercados se adaptam. O que nenhuma economia suporta por muito tempo é a convivência permanente com a instabilidade política. Quando a diplomacia se torna instrumento eleitoral e o comércio internacional passa a servir às disputas ideológicas, deixa de existir vencedores. Restam apenas prejuízos distribuídos entre aqueles que trabalham, produzem, empreendem e sustentam, todos os dias, a economia brasileira.