Fé que caminha com Sorocaba
O Brasil aprendeu a expressar sua fé caminhando. De Norte a Sul, milhões de pessoas transformam ruas, estradas e cidades em verdadeiros corredores de oração, renovando uma tradição que atravessa gerações e desafia o tempo. O Círio de Nazaré, em Belém do Pará, reúne anualmente mais de dois milhões de fiéis em uma das maiores manifestações religiosas do planeta. Em Aparecida, no Vale do Paraíba, romeiros vindos de todos os cantos do País lotam o Santuário Nacional para homenagear a Padroeira do Brasil. No Espírito Santo, a Festa da Penha, realizada há mais de quatro séculos, mantém viva uma devoção iniciada ainda no período colonial e continua reunindo multidões.
Embora diferentes em suas histórias e dimensões, todas essas celebrações compartilham um mesmo significado: a fé que resiste ao tempo. Não são apenas eventos religiosos. São manifestações que preservam costumes, fortalecem vínculos familiares, mantêm vivas as tradições populares e ajudam a contar a história do próprio Brasil.
Sorocaba também possui uma dessas preciosidades. Talvez não esteja entre as maiores em número de participantes, mas certamente ocupa um lugar singular na memória da cidade. A Romaria de Aparecidinha, cuja origem remonta ao início do século XIX, conta mais de 220 anos como uma das manifestações religiosas mais antigas do interior paulista. Muito antes de existirem automóveis, avenidas ou os bairros que hoje formam a cidade, homens, mulheres e crianças já percorriam o mesmo caminho movidos por um sentimento que permanece inalterado: a devoção a Nossa Senhora Aparecida.
Existe até uma pergunta que se transformou em tradição entre os sorocabanos. Todos os anos alguém repete, quase como uma brincadeira carregada de significado: "A Santa vai ou a Santa vem?". A resposta depende do calendário. No primeiro dia de janeiro, a imagem deixa o Santuário de Aparecidinha e segue em procissão até a Catedral Metropolitana, onde permanece durante as celebrações do primeiro semestre do ano. Já no segundo domingo de julho, ela retorna ao Santuário.
No fundo, essa pergunta vai além da direção. Ela revela o quanto a Romaria está incorporada ao cotidiano da cidade. Afinal, poucas tradições conseguem permanecer tão presentes na memória coletiva a ponto de fazer parte da linguagem popular.
A caminhada, entretanto, nunca foi apenas um percurso de aproximadamente 16 quilômetros. Ela carrega significados muito maiores. Desde os primeiros registros históricos, o adorno era conduzido até o centro de Sorocaba quando a população enfrentava momentos de sofrimento coletivo. Epidemias, estiagens prolongadas, enchentes e outras adversidades levavam os moradores a buscar na fé o conforto e a esperança que muitas vezes a ciência e as circunstâncias ainda não conseguiam oferecer.
Foi assim durante os surtos de febre amarela que marcaram profundamente Sorocaba no final do século XIX. Em meio à dor provocada pela doença, destacou-se a figura do Monsenhor João Soares, que conduziu espiritualmente a população e dedicou sua vida ao atendimento dos enfermos. Em 1899, organizou oficialmente a Romaria da forma como ela permanece até hoje: a imagem seria levada da então Capela de Aparecidinha para a Catedral em 1º de janeiro e retornaria ao seu Santuário no segundo domingo de julho. Poucos meses depois, o próprio monsenhor morreria vítima da febre amarela, deixando como legado uma tradição que atravessaria os séculos.
Desde então, Sorocaba mudou profundamente. Cresceu, expandiu seus bairros, tornou-se um dos principais polos econômicos do Estado e viu gerações inteiras nascerem em uma realidade completamente diferente daquela dos primeiros romeiros. Mudaram os meios de transporte, a paisagem urbana, a tecnologia, os hábitos e a forma de viver. A caminhada permaneceu.
Há quem siga descalço para cumprir uma promessa; quem carregue fotografias; quem peça forças para enfrentar uma doença ou simplesmente seja acompanhante no gesto de fé.
É justamente essa capacidade de reunir pessoas com diferentes propósitos que transforma a romaria em um patrimônio imaterial de Sorocaba porque preserva uma memória coletiva construída ao longo de mais de dois séculos.
Em uma época marcada pela velocidade das informações e pela efemeridade das relações, manifestações como esta lembram que algumas heranças não podem ser medidas apenas pelo tempo. Elas existem porque são continuamente renovadas pela comunidade. A fé, nesse sentido tornar-se um elo entre passado, presente e futuro.
Neste domingo, quando milhares de romeiros deixarem a Catedral Metropolitana ainda antes do amanhecer rumo ao Santuário de Aparecidinha, a cidade repetirá o gesto e, mais uma vez, alguém certamente perguntará: "A Santa vai ou a Santa vem?".
No fim das contas, pouco importa se a Santa vai ou vem. Para quem conhece a história de Sorocaba, ela nunca deixou a cidade. Presente na memória, nas famílias e nas promessas de gerações, a Romaria de Aparecidinha tornou-se um dos maiores patrimônios sorocabanos, prova de que a fé, quando cria raízes na história de um povo, é capaz de atravessar o tempo e iluminar o caminho das futuras gerações.