Desinformação mata
A chegada do inverno costuma trazer um aumento esperado dos casos de doenças respiratórias. Todos os anos, hospitais se preparam para uma demanda maior, profissionais de saúde reforçam orientações preventivas e campanhas de vacinação são intensificadas. Nada disso é novidade. O que chama a atenção, porém, é que, mesmo diante de um conhecimento científico consolidado e de uma estrutura pública capaz de oferecer proteção gratuita à população, milhares de brasileiros continuam optando por não se vacinar. O resultado dessa escolha coletiva já pode ser medido em vidas perdidas.
Em Sorocaba, o cenário preocupa. A influenza já provocou a morte de 11 pessoas neste ano. Entre as vítimas estão pessoas relativamente jovens, derrubando a falsa impressão de que apenas idosos correm riscos diante do vírus. Ao mesmo tempo, a cobertura vacinal permanece muito distante do desejável. Até o início desta semana, apenas 44,3% do público apto havia recebido a dose da vacina, quando a meta estabelecida pelas autoridades de saúde é alcançar pelo menos 90% da população elegível — todos os moradores a partir dos seis meses de idade.
Em uma cidade que já supera os 760 mil habitantes, esse percentual representa uma multidão de pessoas desprotegidas. Não por falta de acesso. A vacina está disponível gratuitamente nas 33 Unidades Básicas de Saúde de Sorocaba, além de outros imunizantes previstos pelo Sistema Único de Saúde. O obstáculo, portanto, não está na ausência de estrutura, mas em algo muito mais difícil de combater: a desconfiança.
É impossível analisar esse fenômeno sem voltar os olhos para os anos da pandemia de Covid-19. O Brasil sempre foi reconhecido internacionalmente pela eficiência de seu Programa Nacional de Imunizações. Durante décadas, campanhas de vacinação mobilizaram famílias inteiras, alcançando índices próximos da universalização. Vacinar crianças era um gesto automático. Idosos aguardavam com tranquilidade a campanha contra a gripe. Havia confiança na ciência, nos profissionais de saúde e nas instituições responsáveis pelas campanhas.
Essa relação começou a ser corroída durante a pandemia. A circulação de informações falsas ganhou uma dimensão inédita nas redes sociais. Boatos sobre supostos efeitos colaterais, teorias de negação, questionamentos sem base científica e discursos políticos que colocavam em dúvida a eficácia das vacinas passaram a ocupar espaço semelhante ao das evidências produzidas por pesquisadores e instituições médicas. Nunca foi tão fácil produzir uma mentira e fazê-la alcançar milhões de pessoas em poucos minutos.
O problema é que a desinformação não desaparece quando a crise sanitária termina. Ela permanece como uma espécie de vírus social, alimentando dúvidas, receios e decisões equivocadas. Muitas pessoas que hoje deixam de tomar a vacina contra a influenza não estão necessariamente rejeitando apenas esse imunizante. Elas carregam uma desconfiança generalizada em relação à vacinação, construída ao longo dos últimos anos por um ambiente de polarização e ataques permanentes ao conhecimento científico.
Outro fator merece reflexão. Parte da população passou a enxergar a gripe como uma doença banal. Afinal, resfriados fazem parte da rotina de praticamente todas as famílias. O que muitas vezes se esquece é que a influenza está longe de ser um simples desconforto passageiro. O vírus pode provocar complicações respiratórias graves, internações prolongadas e mortes, especialmente entre idosos, crianças pequenas, gestantes, pessoas com doenças crônicas e indivíduos imunossuprimidos. Mas nem mesmo adultos jovens estão totalmente protegidos, como demonstram os registros recentes.
Existe ainda um paradoxo curioso. Quanto mais eficientes são as vacinas, menor é a percepção do risco provocado pelas doenças que elas evitam. Gerações inteiras cresceram sem presenciar epidemias devastadoras de poliomielite, sarampo, difteria ou meningite justamente porque a vacinação funcionou. O sucesso das campanhas acabou produzindo uma falsa sensação de que essas enfermidades desapareceram por conta própria, tornando desnecessária a prevenção.
Entretanto, vírus não desaparecem por decreto nem respeitam opiniões pessoais. Eles continuam circulando e encontram terreno fértil sempre que a cobertura vacinal diminui. A consequência aparece rapidamente nos indicadores de internações, nos leitos hospitalares ocupados e, infelizmente, nas estatísticas de óbitos.
Não se trata apenas de uma decisão individual. A vacinação possui um efeito coletivo. Quanto maior o número de pessoas imunizadas, menor a circulação do vírus e maior a proteção daqueles que, por razões médicas, não podem receber determinadas vacinas. É o princípio da imunidade coletiva, um dos maiores avanços da saúde pública moderna.
Também seria injusto atribuir toda a responsabilidade apenas às redes sociais. Reconstruir a confiança exige comunicação permanente das autoridades, campanhas educativas claras, participação ativa dos profissionais de saúde e uma mídia - tradicional ou digital - comprometida com informação baseada em evidências. Combater a desinformação exige muito mais do que desmentir boatos; exige recuperar o valor social da ciência e da prevenção.
Sorocaba oferece todas as condições para ampliar sua cobertura vacinal. As unidades de saúde estão preparadas, os imunizantes são gratuitos e acessíveis. Falta transformar disponibilidade em adesão. Isso depende menos da tecnologia e muito mais da consciência coletiva.
As 11 mortes registradas na cidade em 2026 não devem ser encaradas como simples estatísticas. Cada número representa uma história interrompida, uma família atingida e um alerta para toda a sociedade. A vacina talvez não elimine completamente o risco de adoecer, mas reduz significativamente a probabilidade de casos graves, hospitalizações e mortes.
Num tempo em que a informação circula em velocidade recorde, talvez o maior desafio seja distinguir conhecimento de opinião e evidência de boato. A ciência não é infalível, mas continua sendo o melhor instrumento que a humanidade desenvolveu para enfrentar doenças que, durante séculos, ceifaram milhões de vidas. Ignorá-la significa correr riscos que poderiam ser facilmente evitados. Em saúde pública, poucas decisões produzem resultados tão expressivos quanto uma simples vacina aplicada no braço. O custo é praticamente nenhum. O benefício, muitas vezes, é a própria vida.