Infraestruturaem atraso
O crescimento da Rodovia João Leme dos Santos exige respostas imediatas para garantir segurança, mobilidade e planejamento em um dos principais eixos viários da Região Metropolitana de Sorocaba
A infraestrutura viária raramente acompanha o ritmo do crescimento urbano. Quando isso acontece, os reflexos logo aparecem no cotidiano da população: congestionamentos frequentes, aumento do tempo de deslocamento, insegurança para motoristas e pedestres e uma crescente sensação de que o desenvolvimento ocorreu sem o planejamento necessário. É justamente essa realidade que se observa ao longo da rodovia João Leme dos Santos (SP-264), um dos mais importantes corredores viários da Região Metropolitana de Sorocaba (RMS).
Mais do que uma simples rodovia estadual, a João Leme dos Santos se tornou um eixo estruturador do desenvolvimento regional. Ela conecta diretamente Sorocaba, Votorantim e Salto de Pirapora, municípios que mantêm intensa integração econômica e social, além de servir como acesso para outras cidades da região, como Piedade, Pilar do Sul e São Miguel Arcanjo. Trata-se de uma via utilizada diariamente por milhares de trabalhadores, estudantes, transportadores de cargas, prestadores de serviços e moradores que dependem dela para suas atividades cotidianas.
Ao longo das últimas duas décadas, a paisagem da rodovia se transformou profundamente. Áreas antes predominantemente rurais deram lugar a condomínios residenciais, loteamentos, estabelecimentos comerciais, centros de serviços, restaurantes, empresas e novos empreendimentos imobiliários. Esse processo de expansão consolidou a João Leme dos Santos como um dos principais vetores de crescimento urbano da Região Metropolitana de Sorocaba.
O fenômeno, por si só, representa um indicador positivo. O desenvolvimento econômico, a valorização imobiliária e a atração de investimentos demonstram o dinamismo da região e sua capacidade de expansão. Entretanto, toda transformação territorial impõe novos desafios ao poder público e aos responsáveis pela infraestrutura. Quando a ocupação avança em ritmo superior ao da capacidade viária instalada, surgem gargalos que comprometem tanto a mobilidade quanto a segurança.
É exatamente essa percepção que aparece nas manifestações de motoristas e moradores que utilizam diariamente a rodovia, conforme retrata a reportagem que trazemos na página 6 da edição deste domingo (5). As reclamações não se limitam a um único ponto ou a um episódio isolado. Pelo contrário, revelam problemas recorrentes que se repetem ao longo do trecho urbano: deficiência na iluminação pública, sinalização considerada insuficiente, retornos que inspiram preocupação, ausência de acostamentos em determinados segmentos e congestionamentos que se tornaram rotina, especialmente nos horários de maior movimento.
Naturalmente, nenhuma rodovia está imune às dificuldades decorrentes do aumento do fluxo de veículos. O crescimento das cidades produz novas demandas, altera padrões de deslocamento e exige revisões constantes na operação do sistema viário. Entretanto, justamente por isso, ouvir quem utiliza diariamente a estrada deve ser uma prática permanente dos órgãos responsáveis pela gestão da infraestrutura.
As manifestações da população não podem ser tratadas como meras reclamações circunstanciais. Elas constituem importante fonte de informação para identificar falhas operacionais que muitas vezes não aparecem apenas por meio de levantamentos estatísticos. Um motorista que enfrenta diariamente dificuldades para acessar um retorno, um caminhoneiro que observa conflitos entre veículos pesados e automóveis ou um morador que convive com problemas de iluminação conhece detalhes da operação da rodovia que dificilmente seriam captados apenas por estudos técnicos.
Esse diálogo entre usuários e gestores públicos representa uma das bases da boa administração da infraestrutura. Em países que alcançaram elevados níveis de segurança viária, auditorias permanentes, inspeções operacionais e consultas públicas fazem parte da rotina de planejamento. O objetivo não é apenas reagir aos acidentes, mas antecipar situações de risco antes que elas produzam consequências mais graves.
No caso da João Leme dos Santos, chama atenção o fato de que boa parte das reivindicações envolve aspectos relativamente objetivos. Melhor iluminação em pontos críticos, reforço da sinalização horizontal e vertical, revisão dos dispositivos de retorno, manutenção das condições de visibilidade e aperfeiçoamento dos acessos figuram entre medidas que independem, necessariamente, das grandes obras estruturais previstas para os próximos anos.
Isso não significa minimizar a importância dos investimentos anunciados para a rodovia. A duplicação de trechos, a implantação de pistas marginais, a construção de novas passarelas e outras intervenções previstas pela concessionária representam avanços importantes para acompanhar o crescimento da demanda futura. Obras dessa natureza exigem planejamento, licenciamento ambiental, elaboração de projetos executivos, desapropriações e elevado volume de recursos financeiros, fatores que explicam prazos mais longos para sua execução.
Entretanto, reconhecer essa realidade não pode servir como justificativa para a ausência de providências imediatas. Esperar exclusivamente pelas intervenções estruturais significa ignorar que milhares de pessoas utilizam diariamente a rodovia e convivem, hoje, com situações que podem ser mitigadas por ações de menor complexidade técnica e financeira.
Nesse aspecto, a atuação da concessionária assume papel central. O modelo de concessões rodoviárias adotado pelo Estado de São Paulo tem como principal objetivo justamente oferecer padrões superiores de manutenção, segurança, conservação e atendimento aos usuários. Ao assumir a administração de uma rodovia, a concessionária não recebe apenas a responsabilidade pela execução de futuras ampliações, mas também o compromisso permanente de monitorar as condições de operação e promover melhorias contínuas sempre que necessário.
Em regiões metropolitanas em expansão, infraestrutura viária não pode ser tratada como etapa posterior do desenvolvimento. Ela precisa caminhar junto com o crescimento urbano ou o resultado será sempre o mesmo: congestionamento, insegurança e perda de eficiência econômica. A João Leme dos Santos já ultrapassou esse ponto de atenção.