Dinheiro público e as prioridades do governo

Por Cruzeiro do Sul

Poucas peças revelam tanto sobre um governo quanto seu orçamento. Discursos podem ser cuidadosamente construídos, campanhas publicitárias podem apresentar uma realidade otimista e pronunciamentos oficiais costumam destacar apenas os resultados positivos da administração. Os números, porém, raramente escondem as prioridades. E o conjunto de anúncios feitos pelo governo federal nas últimas semanas expõe uma realidade preocupante: o Brasil continua destinando bilhões de reais para alimentar a máquina política enquanto setores que efetivamente produzem riqueza, empregos e desenvolvimento recebem menos do que necessitam.

O lançamento do Plano Safra 2026/2027, ontem, é um exemplo emblemático. O governo anunciou R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial. Trata-se de um montante expressivo, suficiente para colocá-lo entre os maiores programas de crédito rural do mundo. Desse total, R$ 384,9 bilhões serão destinados ao custeio da produção e R$ 140,2 bilhões aos investimentos em tecnologia, armazenagem, irrigação, máquinas e expansão da capacidade produtiva.

À primeira vista, o anúncio parece grandioso. Entretanto, basta confrontá-lo com a realidade do setor para perceber que o entusiasmo oficial não encontra respaldo entre aqueles que efetivamente produzem. As principais entidades representativas do agronegócio estimavam que seriam necessários entre R$ 623 bilhões e R$ 674 bilhões para atender às demandas do próximo ciclo agrícola, marcado por juros elevados, custos crescentes, riscos climáticos e aumento da concorrência internacional. A diferença ultrapassa R$ 100 bilhões.

Não se trata de uma reivindicação isolada. O agronegócio responde por parcela significativa do Produto Interno Bruto brasileiro, representa uma das maiores fontes de arrecadação de divisas, sustenta milhares de municípios e permanece como o principal responsável pelos sucessivos superávits da balança comercial. Em outras palavras, é um dos setores que efetivamente gera riqueza para financiar o próprio Estado brasileiro.

É justamente por isso que chama atenção a facilidade com que outros gastos encontram espaço no orçamento público.

Enquanto o crédito rural ficou abaixo da expectativa do setor produtivo, os partidos políticos receberão quase R$ 5 bilhões do Fundo Especial de Financiamento de Campanha para disputar as eleições deste ano. Nenhuma atividade econômica produz um único emprego permanente ou amplia a capacidade produtiva do País com esses recursos. Ainda assim, a despesa cresce a cada eleição e parece ter se tornado intocável no debate político nacional.

O mesmo ocorre com a publicidade oficial. Dados divulgados pelo próprio governo mostram que aproximadamente R$ 520 milhões foram destinados à propaganda institucional apenas no primeiro semestre de 2026. A concentração desses gastos antes do início das restrições impostas pela legislação eleitoral dificilmente pode ser considerada mera coincidência. Embora a comunicação pública seja necessária para informar a população sobre serviços e políticas governamentais, é inevitável questionar se valores dessa magnitude atendem ao interesse coletivo ou acabam servindo para fortalecer a imagem política da administração às vésperas do processo eleitoral.

Há ainda outro componente que merece atenção. Até o final de junho, o governo quitou R$ 21,5 bilhões em emendas parlamentares, sendo R$ 17,5 bilhões liberados apenas para cumprir o cronograma previsto na Lei de Diretrizes Orçamentárias. Outros R$ 28,4 bilhões ainda permanecem autorizados para pagamento ao longo do exercício.

É evidente que as emendas possuem respaldo constitucional e representam importante instrumento para levar investimentos aos municípios. O problema surge quando deixam de cumprir prioritariamente uma função de desenvolvimento regional para se transformarem em poderosa moeda de negociação política. O crescimento contínuo desse mecanismo reforça uma lógica segundo a qual a sustentação parlamentar passa a depender cada vez mais da distribuição de recursos públicos.

Também não se ignora a importância dos aproximadamente R$ 300 bilhões destinados aos programas sociais previstos na Lei Orçamentária. Em um país marcado por profundas desigualdades, políticas de transferência de renda cumprem papel indispensável na proteção dos mais vulneráveis. O erro está em transformar programas permanentes em instrumentos de conveniência eleitoral, comprometendo sua credibilidade e dificultando a construção de uma política fiscal sustentável.

O problema central, portanto, não reside na existência isolada de cada uma dessas despesas. Está na escala das prioridades. Um país que mantém uma das maiores cargas tributárias entre as economias emergentes deveria concentrar seus maiores esforços naquilo que amplia produtividade, melhora a infraestrutura, incentiva investimentos privados, fortalece a indústria, impulsiona o agronegócio, moderniza a educação e eleva a competitividade nacional. No entanto, parcela crescente dos recursos públicos continua sendo direcionada para manter estruturas políticas, ampliar gastos administrativos, financiar campanhas eleitorais e alimentar um sistema cuja principal preocupação parece ser sua própria sobrevivência.

Não por acaso, a sociedade demonstra crescente descrença em relação às instituições. O cidadão comum trabalha, paga impostos sobre renda, consumo, patrimônio, combustíveis, energia elétrica e praticamente todas as atividades econômicas. Em troca, assiste a sucessivos aumentos na arrecadação sem perceber melhora proporcional na qualidade dos serviços públicos. Estradas permanecem deficientes, obras estruturantes são adiadas, hospitais enfrentam dificuldades, escolas carecem de investimentos e a segurança pública continua insuficiente em grande parte do território nacional.

Governos existem para administrar recursos escassos e estabelecer prioridades. É precisamente nesse ponto que o atual orçamento federal desperta preocupação. Quando bilhões são destinados com rapidez à propaganda oficial, ao financiamento eleitoral e às negociações políticas, enquanto setores responsáveis por produzir riqueza e sustentar o crescimento econômico recebem menos do que demonstram necessitar, o sinal transmitido é inequívoco: a política continua consumindo uma parcela demasiadamente elevada da riqueza produzida pelos brasileiros.

Às vésperas de mais uma eleição, talvez seja esse o principal debate que o Brasil deva enfrentar. Não basta discutir quem administrará os recursos públicos nos próximos quatro anos. É indispensável discutir, sobretudo, quais interesses continuarão determinando o destino do dinheiro arrecadado dos contribuintes. Porque uma nação não se desenvolve quando o orçamento serve prioritariamente à política. Desenvolve-se quando a política passa, finalmente, a servir ao orçamento da sociedade.