O recado dos Andes

Por Cruzeiro do Sul

As eleições presidenciais realizadas recentemente na Colômbia e no Peru produziram muito mais do que mudanças de governo. Os resultados revelam uma transformação política que atravessa a América do Sul e que pode chegar com força às urnas brasileiras em outubro. Em poucos anos, a chamada "onda rosa", que recolocou governos de esquerda em boa parte do continente, cede espaço a uma nova configuração política marcada pelo conservadorismo, pelo discurso de ordem e pela insatisfação popular.

A vitória do conservador Abelardo de la Espriella na Colômbia encerra a experiência progressista iniciada pelo presidente Gustavo Petro. No Peru, a eleição de Keiko Fujimori representa o retorno do fujimorismo ao Palácio do Governo depois de uma década marcada por crises institucionais e sucessivas trocas de presidentes. Ambos os resultados possuem elementos distintos, mas compartilham uma mesma origem: o desgaste das forças de esquerda diante de problemas concretos que permanecem sem solução.

O mapa político sul-americano mudou rapidamente. A direita ou a centro-direita já ocupam posições de destaque na Argentina, no Paraguai, no Equador, no Uruguai, no Peru e, em breve, na Colômbia. Em outros países, governos de esquerda enfrentam forte desgaste de popularidade, dificuldades econômicas e crescente oposição social.

É precipitado afirmar que existe uma guinada homogênea do continente. A América Latina jamais vota em bloco. Entretanto, existe um fenômeno comum: a população demonstra menor tolerância com governos incapazes de entregar crescimento econômico, segurança pública e melhoria efetiva das condições de vida.

Durante décadas, organizações políticas ligadas ao chamado Fórum de São Paulo exerceram importante influência ideológica na região. O avanço de partidos progressistas no início do século 21 parecia consolidar um ciclo duradouro. Entretanto, a política latino-americana sempre se mostrou extremamente volátil. A alternância de poder ocorre quando as expectativas populares deixam de ser atendidas.

A inflação persistente, o baixo crescimento econômico, o aumento da violência urbana e a sensação de perda de controle do Estado abriram espaço para candidaturas que se apresentam como antissistema. Em vários países, a nova direita abandonou parcialmente os discursos econômicos tradicionais e passou a explorar temas de forte apelo popular: segurança, combate à corrupção, valores familiares, religiosidade e enfrentamento ao crime organizado.

A influência do presidente norte-americano Donald Trump nesse processo existe, mas não deve ser superestimada. Trump tornou-se uma referência simbólica para setores conservadores do continente ao defender fronteiras rígidas, combate à imigração ilegal, fortalecimento das forças de segurança e enfrentamento às agendas progressistas. Alguns líderes latino-americanos incorporaram essa linguagem política, assim como fizeram com o fenômeno Javier Milei, na Argentina, e Nayib Bukele, em El Salvador.

Contudo, seria um erro atribuir aos Estados Unidos a responsabilidade exclusiva pela mudança de ventos na América do Sul. O eleitor latino-americano vota, sobretudo, movido pela própria realidade cotidiana. O desemprego, a criminalidade, o custo dos alimentos e a percepção de ineficiência estatal pesam muito mais que qualquer influência externa.

A ascensão do chamado "modelo Bukele", centrado em políticas severas de segurança pública, tornou-se um dos principais símbolos dessa nova fase. O tema da ordem pública ganhou enorme relevância eleitoral em diversos países e já influencia diretamente o debate brasileiro. Lideranças conservadoras nacionais passaram a defender medidas inspiradas em experiências estrangeiras, especialmente no enfrentamento ao crime organizado.

No Brasil, o cenário ainda permanece aberto. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta desgaste natural após anos de protagonismo político e precisa conviver com indicadores de desaprovação que preocupam seus aliados. Não por acaso, durante recente passagem pela França, evitou definir-se como "esquerdista", numa tentativa evidente de ocupar o centro político e ampliar sua base eleitoral.

As eleições de outubro não serão decididas em Bogotá, Lima ou Buenos Aires. Mas os recados emitidos pelos eleitores colombianos e peruanos certamente serão observados com atenção pelos estrategistas brasileiros. A região vive um momento de reavaliação de seus projetos políticos.

A esquerda latino-americana ainda mantém importante presença institucional, porém já não desfruta da hegemonia política e cultural de outros tempos. Ao mesmo tempo, a direita cresce impulsionada não apenas por suas propostas, mas também pelos erros e pelas frustrações acumuladas pelos governos progressistas.

O Brasil, maior democracia da América do Sul, pode seguir caminho próprio. Entretanto, ignorar os sinais vindos dos Andes seria um equívoco. As urnas colombianas e peruanas indicam que o eleitor latino-americano está menos interessado em discursos ideológicos e mais preocupado com resultados concretos.

Governos passam. Ciclos políticos se encerram. O que permanece é a exigência permanente da sociedade por segurança, prosperidade e eficiência. E é justamente essa cobrança que, hoje, sopra dos Andes em direção ao Brasil.