O contribuinte abandonado

Por Cruzeiro do Sul

Poucos países conseguem reunir tantas contradições tributárias quanto o Brasil. O cidadão brasileiro paga impostos de país desenvolvido, convive com uma carga tributária semelhante à de nações ricas, mas recebe serviços públicos compatíveis com economias muito menos estruturadas. Trata-se de um paradoxo que, infelizmente, já foi naturalizado.

Mais uma vez, o Brasil aparece na última posição do Índice de Retorno ao Bem-Estar da Sociedade, estudo elaborado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação. Pela 15ª edição consecutiva, o País ocupa a pior colocação entre as nações que possuem as maiores cargas tributárias do planeta. Não se trata de mera estatística. Trata-se de um retrato contundente do fracasso do Estado brasileiro em devolver à população aquilo que dela arrecada.

Enquanto Irlanda, Suíça, Coreia do Sul, Estados Unidos e Austrália conseguem converter tributos em qualidade de vida, infraestrutura, segurança, educação e saúde, o Brasil permanece atolado em uma engrenagem burocrática que consome recursos em velocidade muito superior à capacidade de entregá-los à sociedade.

Os números são eloquentes. A arrecadação federal alcançou R$ 2,886 trilhões em 2025, o maior resultado da história.

Se considerar a soma total paga por todos os brasileiros em tributos (incluindo as esferas federal, estadual e municipal, como ICMS, ISS e IPTU), o valor monitorado pelo Impostômetro da Associação Comercial de São Paulo atingiu cerca de R$ 3,98 trilhões. Nunca se arrecadou tanto. Nunca se cobrou tanto. E, paradoxalmente, nunca foi tão evidente a sensação de que os serviços públicos continuam insuficientes.

A pergunta que se impõe é simples: para onde vai todo esse dinheiro? A resposta não pode ser reduzida a um único fator, mas passa, inevitavelmente, pelo gigantismo da máquina pública. O Brasil construiu ao longo de décadas um Estado caro, complexo, burocrático e frequentemente ineficiente. Mantêm-se estruturas administrativas redundantes, privilégios corporativos, carreiras altamente remuneradas, penduricalhos salariais, benefícios especiais e uma sucessão de despesas obrigatórias que comprimem os investimentos.

A população paga impostos em praticamente todas as etapas da vida. Paga ao consumir, ao trabalhar, ao investir, ao herdar, ao adquirir patrimônio e até mesmo ao morrer. Em muitos casos, o mesmo produto suporta diversas incidências tributárias ao longo de sua cadeia produtiva. O consumidor, entretanto, raramente consegue identificar o quanto efetivamente paga ao Estado.

Não se trata de defender a ausência de tributos. Nenhuma sociedade moderna funciona sem arrecadação. O problema brasileiro está na relação entre sacrifício e retorno. O contribuinte financia um Estado que frequentemente parece existir para sustentar a própria estrutura.

Também seria simplista atribuir toda a responsabilidade a um único governo. O problema atravessa décadas e administrações de diferentes orientações ideológicas. Contudo, é impossível ignorar que o aumento da carga tributária ocorrido nos últimos anos ocorre simultaneamente à ampliação dos gastos públicos e à dificuldade em promover reformas estruturais capazes de reduzir despesas permanentes.

Enquanto isso, o cidadão enfrenta filas na saúde, insegurança nas ruas, dificuldades na educação, transporte deficiente e carência de infraestrutura. Municípios convivem com problemas de saneamento, estradas deterioradas e serviços básicos insuficientes. O contraste entre o tamanho da arrecadação e a realidade cotidiana é cada vez mais evidente.

O estudo mostra que países eficientes não são necessariamente aqueles que cobram menos impostos, mas aqueles que conseguem transformar arrecadação em bem-estar. O Brasil, infelizmente, tornou-se o exemplo oposto: arrecada muito, gasta muito e entrega pouco.

Não é aceitável que o País ocupe, pela 15ª vez consecutiva, a última posição em retorno social dos tributos. Não é razoável que uma das maiores economias do mundo conviva com indicadores sociais incompatíveis com o volume de recursos arrecadados.

O contribuinte brasileiro não pede privilégios. Pede apenas coerência. Se o Estado exige cada vez mais da sociedade, deve devolver na mesma proporção. Caso contrário, os impostos deixam de ser instrumento de desenvolvimento para se transformar apenas em um pesado custo de sobrevivência.

E talvez resida justamente aí a maior tragédia nacional: o brasileiro já não discute quanto paga. Discute apenas quanto consegue suportar.