Questão de serenidade
O anúncio do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas abriu uma discussão delicada, complexa e carregada de implicações que vão muito além da segurança pública. O gesto político da gestão do presidente Donald Trump possui impacto internacional imediato, repercussão econômica potencial e, sobretudo, consequências institucionais que exigem análise racional, distante tanto do negacionismo quanto da empolgação precipitada.
Não cabe misturar paixões com razões.
É evidente que o avanço do crime se tornou um dos maiores desafios enfrentados pelos governos brasileiros nas últimas décadas. As facções deixaram há muito tempo de ser apenas organizações criminosas locais. Hoje, operam como estruturas empresariais clandestinas altamente sofisticadas, com braços internacionais, logística própria, rotas consolidadas de tráfico, capacidade financeira bilionária e infiltração em diferentes esferas da sociedade, inclusive onde decisões são tomadas.
O PCC, especialmente, ultrapassou os limites do sistema prisional paulista que o viu nascer. Consolidou presença em fronteiras, fortaleceu conexões com organizações estrangeiras, expandiu influência para países vizinhos e transformou-se em uma engrenagem criminosa capaz de movimentar drogas, armas, dinheiro e poder político. O Comando Vermelho, embora com características distintas, também mantém forte presença territorial e participação em redes criminosas internacionais.
Diante desse cenário, é compreensível que parte da população veja com simpatia qualquer medida que aparente endurecimento contra essas organizações. Afinal, a percepção popular é de que o crime avança em velocidade superior à capacidade de reação do Estado brasileiro. A sensação cotidiana do cidadão comum é a de que as facções sempre estão alguns passos à frente das autoridades.
E essa percepção não nasce da imaginação coletiva. Ela se constrói diariamente diante da violência urbana, do domínio territorial em comunidades, da lavagem de dinheiro cada vez mais sofisticada e da capacidade das organizações criminosas de se reinventarem antes mesmo de serem atingidas pelas ações do poder público.
Mas justamente por isso o debate exige serenidade. Afinal, decisões tomadas com olho nas urnas nem sempre são as melhores.
O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, uma das maiores autoridades brasileiras no enfrentamento ao PCC, classificou o anúncio do governo americano como “gravíssimo” e ineficiente. Sua avaliação merece atenção não apenas pelo cargo que ocupa, mas principalmente pela experiência acumulada ao longo de décadas investigando diretamente a facção criminosa.
Segundo Gakiya, a medida possui forte viés geopolítico e não traz vantagens práticas concretas ao Brasil. Pelo contrário. Pode gerar problemas graves.
O primeiro deles envolve soberania nacional. Quando os Estados Unidos classificam organizações estrangeiras como terroristas sob a ótica de ameaça à segurança nacional americana, ampliam também sua margem de atuação internacional. O temor exposto pelo promotor é de que isso abra precedentes para ações unilaterais, operações de inteligência ou até intervenções conduzidas à revelia das autoridades brasileiras.
O alerta não é exagerado. A política externa americana possui histórico de atuação agressiva quando interesses estratégicos e temas relacionados ao terrorismo entram em cena. A questão central é simples: o combate ao crime organizado brasileiro deve continuar sendo conduzido pelo Brasil, dentro das regras institucionais brasileiras e sob controle das autoridades nacionais.
Outro ponto sensível envolve as possíveis sanções financeiras decorrentes dessa classificação. Empresas brasileiras, bancos e instituições que eventualmente mantenham relações comerciais com pessoas investigadas ou suspeitas de ligação com essas facções podem sofrer restrições econômicas impostas pelos Estados Unidos. Em um mercado globalizado, os efeitos podem ultrapassar o universo criminal e atingir setores legítimos da economia nacional.
Há ainda uma preocupação operacional extremamente relevante. O combate às facções no Brasil sempre esteve baseado em inteligência policial, cooperação entre Ministérios Públicos, investigações financeiras e monitoramento estratégico. Ao transformar essas organizações em tema prioritariamente militar ou geopolítico, existe o risco de enfraquecer mecanismos de cooperação já consolidados entre autoridades brasileiras e internacionais.
Em outras palavras: trocar investigação por militarização pode produzir mais ruído do que resultado.
Isso não significa, evidentemente, relativizar a gravidade das ações do PCC e do Comando Vermelho. Ambas as facções representam ameaça concreta à sociedade brasileira. Produzem violência, corrupção, tráfico internacional, assassinatos, domínio territorial e destruição social. O Brasil precisa enfrentá-las com firmeza absoluta.
Mas firmeza não pode ser confundida com espetacularização política.
O combate ao crime organizado exige planejamento permanente, inteligência financeira, controle rigoroso de fronteiras, integração nacional de dados, fortalecimento das polícias, presença efetiva do Estado em áreas vulneráveis e combate severo à corrupção que sustenta parte dessas engrenagens criminosas.
Sobretudo, exige responsabilidade institucional.
Talvez uma das maiores fragilidades brasileiras esteja justamente na cultura coletiva de terceirização dos problemas. Sempre ouvimos a frase: “alguém tem que fazer alguma coisa”. Quase nunca ouvimos: “eu tenho que fazer alguma coisa”. A diferença parece pequena, mas revela muito sobre o funcionamento do País.
Governos transferem responsabilidades entre si. A União culpa os estados. Estados culpam municípios. A política culpa o Judiciário. O Judiciário culpa as leis. Enquanto isso, o crime se organiza, se fortalece e ocupa espaços onde o Estado frequentemente se mostra ausente.
Não existem soluções simples para problemas complexos. Muito menos soluções importadas capazes de resolver, por decreto, um fenômeno criminoso construído ao longo de décadas de omissões, desigualdades, corrupção e fragilidade institucional.
O Brasil precisa demonstrar ao mundo que possui capacidade de enfrentar suas facções sem abrir mão de sua soberania. Precisa agir com inteligência e não apenas com gestos de impacto político. E precisa compreender, definitivamente, que segurança pública não se resolve apenas com discursos duros, mas com Estado forte, coordenação permanente e compromisso coletivo.
Porque quando o crime organizado avança mais rápido do que as instituições conseguem reagir, o problema deixa de ser apenas policial. Passa a ser um teste profundo da própria capacidade do País de preservar sua autoridade, sua democracia e sua estabilidade social.