Dinheiro, há!

Por Cruzeiro do Sul

A arrecadação federal voltou a bater recorde. Os R$ 278,8 bilhões recolhidos em abril, elevando para R$ 1,05 trilhão o volume acumulado apenas nos quatro primeiros meses do ano, revelam mais do que um simples dado contábil. Os números escancaram uma realidade que há tempos o cidadão brasileiro percebe no bolso: o Estado arrecada cada vez mais, mas continua entregando menos do que deveria. O problema do Brasil, portanto, não é falta de dinheiro. É, sobretudo, deficiência crônica de gestão, prioridades invertidas e ausência de compromisso efetivo com eficiência administrativa.

O crescimento real de 7,82% da arrecadação em abril não ocorreu por acaso. Houve expansão do emprego formal, aumento da massa salarial, crescimento da tributação sobre investimentos, alta do consumo e explosão das receitas ligadas ao petróleo e gás natural. A máquina arrecadatória brasileira segue poderosa, sofisticada e extremamente eficiente quando o objetivo é cobrar impostos. Poucos países conseguem ampliar receitas com tamanha velocidade e abrangência.

Mas a mesma eficiência desaparece quando se observa a aplicação desses recursos. O contraste é inevitável. O contribuinte vê recordes sucessivos de arrecadação enquanto convive diariamente com estradas deterioradas, filas intermináveis na saúde pública, escolas carentes de estrutura, insegurança crescente e serviços básicos frequentemente insuficientes. O cidadão paga tributos de país desenvolvido e recebe serviços incompatíveis até mesmo com nações muito mais pobres.

A boa escola de administração ensina algo elementar: recursos públicos devem ser convertidos em bem-estar coletivo. Gestão pública séria exige planejamento estratégico, racionalidade orçamentária, controle rigoroso de despesas, definição clara de prioridades e avaliação permanente de resultados. Não basta arrecadar muito; é indispensável gastar bem. E é exatamente nesse ponto que o Brasil continua fracassando.

O aumento das receitas previdenciárias, impulsionado pelo crescimento do trabalho formal, deveria abrir espaço para investimentos estruturais e melhoria dos serviços públicos. O avanço demonstra que empresas estão lucrando mais e recolhendo mais impostos. O salto extraordinário da arrecadação do petróleo, favorecido pelo cenário internacional, oferece uma oportunidade rara para fortalecimento fiscal e investimentos de longo prazo. Contudo, historicamente, o país transforma momentos favoráveis em expansão acelerada de gastos correntes, aumento da máquina estatal e multiplicação de compromissos permanentes.

A cultura política brasileira ainda opera sob uma lógica perigosa: toda elevação de arrecadação rapidamente se converte em autorização informal para elevar despesas. Pouco se fala em eficiência. Quase nada se discute sobre produtividade da máquina pública. O debate raramente gira em torno de desempenho, metas ou qualidade da gestão. A prioridade continua sendo atender interesses políticos imediatos, acomodar alianças, ampliar estruturas administrativas e expandir programas sem mecanismos rigorosos de avaliação.

Enquanto isso, o contribuinte permanece submetido a uma das cargas tributárias mais pesadas do mundo emergente. Empresas enfrentam insegurança jurídica, burocracia sufocante e complexidade tributária quase incompreensível. Trabalhadores veem parte significativa de sua renda desaparecer em impostos diretos e indiretos. O consumo é penalizado. O investimento produtivo perde competitividade. E, paradoxalmente, mesmo diante dessa arrecadação gigantesca, o governo frequentemente sustenta o discurso de escassez financeira.

A realidade mostra justamente o contrário. Há dinheiro. O que falta é capacidade administrativa para utilizá-lo com inteligência, responsabilidade e foco no interesse público. Países que alcançaram maior grau de desenvolvimento não o fizeram apenas arrecadando mais, mas construindo Estados mais eficientes, enxutos e organizados. A diferença está na qualidade da gestão, não apenas no volume de recursos disponíveis.

O Brasil parece caminhar em sentido oposto. Em vez de aproveitar ciclos positivos para promover reformas estruturais, modernizar a administração pública e reduzir desperdícios, insiste na ampliação contínua da dependência estatal. O resultado é conhecido: crescimento econômico limitado, baixa produtividade, desequilíbrio fiscal recorrente e incapacidade de transformar arrecadação recorde em desenvolvimento sustentável.

A situação torna-se ainda mais preocupante porque parte importante desse crescimento arrecadatório decorre de fatores conjunturais. A valorização internacional do petróleo, impulsionada por tensões geopolíticas e conflitos externos, não é permanente. O próprio ciclo econômico pode desacelerar nos próximos meses. Caso o governo transforme receitas extraordinárias em despesas permanentes, o país repetirá um erro histórico: gastar no presente sem construir bases sólidas para o futuro.

O risco é evidente. O Brasil pode entrar novamente em uma espiral de expansão fiscal sem contrapartida de produtividade, aprofundando déficits, pressionando juros e dificultando investimentos privados. A consequência inevitável é menor crescimento, inflação persistente e aumento do custo de vida para a população. E quem mais sofre, como sempre, é a camada que depende exclusivamente do salário e dos serviços públicos.

O recorde de arrecadação deveria servir como ponto de reflexão nacional. Não se trata apenas de comemorar números grandiosos divulgados pela Receita Federal. A pergunta central é outra: por que um país que arrecada tanto continua oferecendo tão pouco? Enquanto essa questão não for enfrentada com seriedade, o Brasil seguirá preso ao ciclo perverso de tributos elevados, serviços deficientes e frustração permanente.

A grande urgência nacional talvez já esteja perfeitamente diagnosticada. O país não precisa apenas arrecadar mais. Precisa aprender, finalmente, a governar melhor.