Há algo perverso no ar

Por Cruzeiro do Sul

A economia brasileira voltou a entrar em uma zona perigosa: aquela em que o discurso oficial tenta vender estabilidade enquanto os indicadores reais começam a apontar deterioração simultânea em várias frentes. A nova revisão do Ministério da Fazenda, elevando a projeção da inflação para 4,5% — exatamente no teto da meta — não é um detalhe técnico. É um sinal de alerta grave. Quando o próprio governo admite que a inflação encostou no limite máximo tolerado, significa que a margem de segurança desapareceu. E quando isso acontece em um país que convive historicamente com instabilidade fiscal, juros elevados e baixa produtividade, o problema deixa de ser conjuntural e passa a ser estrutural.

O mais preocupante é que o governo tenta transformar um fracasso em narrativa administrável. A culpa, agora, é da guerra no Oriente Médio, da alta do petróleo, das tensões internacionais. Evidentemente, conflitos geopolíticos impactam a economia global. O petróleo acima de US$ 110 por barril afeta combustíveis, logística, alimentos e toda a cadeia produtiva. Mas seria intelectualmente desonesto atribuir ao cenário externo a totalidade da deterioração econômica brasileira. A inflação já vinha resistente antes da guerra. O descontrole das contas públicas, o excesso de gastos, a ausência de reformas estruturais e a incapacidade do governo de transmitir confiança ao mercado criaram um ambiente de insegurança permanente.

O problema brasileiro não começou no Golfo Pérsico. O conflito apenas agravou fragilidades que já estavam expostas.

O próprio mercado financeiro projeta inflação ainda maior do que a estimativa oficial: 4,92%. Ou seja, acima do teto da meta. Mais grave: trata-se da décima semana consecutiva de alta nas expectativas inflacionárias. Isso destrói um dos pilares fundamentais da política econômica: a credibilidade. Quando agentes econômicos deixam de acreditar na capacidade do governo de controlar preços, toda a economia se contamina. Empresas seguram investimentos. Consumidores reduzem compras. O crédito encarece. O crescimento desacelera. O país trava.

E os números já começam a refletir isso. O IBC-Br, considerado uma prévia do PIB, registrou queda de 0,7% em março. Houve retração na indústria, nos serviços, na agropecuária e até na arrecadação de impostos. Trata-se de um sinal inequívoco de esfriamento econômico. A desaceleração está em curso e ela ocorre justamente quando o Brasil convive com juros estratosféricos de 14,5% ao ano.

Essa é outra tragédia silenciosa da atual conjuntura. O Brasil se acostumou a conviver com juros obscenos como se fossem fenômeno natural. Não são. A taxa Selic nesse patamar revela o grau de desconfiança em relação ao futuro fiscal do País. Juros altos não são apenas um número técnico decidido pelo Banco Central. Eles representam crédito mais caro, financiamento inviável, consumo sufocado, empresas endividadas e crescimento anêmico. É uma asfixia lenta da economia real.

Enquanto isso, o governo insiste em vender otimismo estatístico. Mantém a previsão de crescimento do PIB em 2,3%, embora o próprio mercado projete apenas 1,85%. A pergunta inevitável é: baseado em quê? Na expansão artificial do gasto público? No consumo sustentado por endividamento? Em estímulos temporários? Porque produtividade, investimento privado robusto e avanço estrutural da economia claramente não são.

O discurso oficial também celebra o possível aumento de arrecadação provocado pela alta do petróleo. A estimativa é de um ganho de R$ 8,5 bilhões mensais. Mas há algo profundamente perverso nisso. O governo comemora arrecadar mais justamente quando a população paga mais caro para abastecer o carro, comprar alimentos e sobreviver. O combustível sobe, o frete sobe, os preços sobem e o Estado arrecada mais. O cidadão empobrece; a máquina pública engorda.

Essa lógica revela um vício histórico da política econômica brasileira: tratar arrecadação como solução, e não como consequência de crescimento saudável. O País não enfrenta sua crise fiscal reduzindo desperdícios, enxugando estruturas ou aumentando eficiência do Estado. Prefere aumentar receitas, tributar mais, arrecadar mais e transferir a conta para a sociedade.

O cenário torna-se ainda mais preocupante porque o Brasil entra em um período pré-eleitoral. E historicamente governos brasileiros têm enorme dificuldade de manter responsabilidade fiscal em anos politicamente sensíveis. A tentação do gasto fácil cresce. A pressão populista aumenta. O compromisso com equilíbrio fiscal enfraquece. E o mercado reage imediatamente a isso, com inflação, dólar pressionado e juros elevados.

Há, portanto, uma contradição brutal no centro da economia brasileira atual. O governo fala em consolidação fiscal enquanto amplia despesas. Fala em controle inflacionário enquanto a inflação sobe sucessivamente. Fala em crescimento sustentável enquanto a atividade econômica perde força. Fala em confiança enquanto o mercado revisa expectativas negativamente semana após semana.

O resultado é um país preso em um círculo vicioso: inflação resistente exige juros altos; juros altos sufocam o crescimento; crescimento fraco reduz investimentos; o governo aumenta gastos para estimular a economia; o mercado reage piorando expectativas; e a inflação continua pressionada. É a repetição de um modelo conhecido e fracassado.

O Brasil não precisa apenas de medidas emergenciais. Precisa recuperar credibilidade. E credibilidade não nasce de discursos otimistas nem de relatórios tecnicamente maquiados. Ela nasce de coerência fiscal, previsibilidade econômica, segurança jurídica e responsabilidade política.

Enquanto isso não acontecer, a economia brasileira continuará caminhando sobre uma corda bamba: inflação alta, crescimento baixo, juros sufocantes e uma população cada vez mais esmagada pelo custo de vida.