Estatais mais frágeis
O tombo expressivo dos lucros do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, revelado nos últimos balanços financeiros, reacende um debate que o governo Lula tenta evitar desde o início do mandato: a deterioração silenciosa das empresas públicas federais. O problema deixou de ser episódico. Os números já formam um padrão preocupante, que vai além das oscilações naturais da economia e expõe uma combinação perigosa de gestão politizada, expansão de crédito sem o devido rigor técnico e perda gradual de eficiência administrativa.
O caso mais emblemático é o do Banco do Brasil. A instituição registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,4 bilhões no primeiro trimestre de 2026, uma queda de 54% em relação ao mesmo período do ano anterior. O banco também revisou para baixo sua projeção de lucro anual, reduzindo a expectativa para algo entre R$ 18 bilhões e R$ 22 bilhões. Há poucos anos, o BB era tratado como uma das mais sólidas instituições financeiras da América Latina. Hoje, vê sua rentabilidade despencar, pressionada principalmente pela inadimplência no agronegócio e pelo aumento das provisões para perdas.
A inadimplência rural alcançou 6,22% da carteira do agro, um salto expressivo em apenas 12 meses. As provisões para cobrir possíveis calotes cresceram 46%, atingindo R$ 16,8 bilhões. Não se trata apenas de um problema setorial. O agronegócio enfrenta dificuldades reais, sobretudo após quebras de safra e recuperação judicial de produtores. Mas o que chama atenção é a incapacidade do banco em antecipar riscos e calibrar sua exposição. Um banco público não pode operar como instrumento de improviso político, tampouco servir como extensão de agendas eleitorais travestidas de política de crédito.
O Banco do Brasil já havia encerrado 2025 com lucro 45,4% menor do que no ano anterior, totalizando R$ 20,6 bilhões. À época, o discurso oficial apontava “cenário adverso” e mudanças contábeis como justificativas. O problema é que o “cenário adverso” virou rotina.
A situação da Caixa Econômica Federal também merece atenção. O banco registrou queda de 34% no lucro no primeiro trimestre deste ano, resultado impactado pelas novas regras contábeis do Banco Central, mas também por um ambiente de crédito deteriorado e maior pressão sobre custos e riscos financeiros. Embora o governo tente apresentar a Caixa como braço social indispensável, é impossível ignorar que a instituição vem sendo pressionada por decisões que misturam política pública com fragilidade operacional.
A narrativa oficial costuma recorrer ao velho argumento de que empresas públicas não existem para dar lucro. A frase, embora sedutora do ponto de vista ideológico, esconde uma distorção perigosa. Estatais não precisam ser máquinas de maximização de dividendos, mas também não podem se transformar em estruturas deficitárias sustentadas indefinidamente pelo contribuinte. O dinheiro que cobre rombos públicos sai da sociedade. Sai do imposto pago pelo trabalhador, do corte em investimentos, do aumento da dívida pública ou da piora do ambiente econômico.
O exemplo mais dramático talvez esteja nos Correios. A estatal postal vive uma deterioração acelerada. Projeções internas apontam prejuízo de R$ 9,1 bilhões em 2026, mesmo após anúncios de reestruturação. A empresa, que durante anos foi usada como símbolo de capilaridade e presença nacional, hoje enfrenta perda de competitividade, dificuldades logísticas e incapacidade de adaptação diante das transformações do comércio eletrônico e da concorrência privada.
O problema estrutural das estatais brasileiras não é apenas econômico. É político. Em governos petistas, historicamente, cresce a tentação de utilizar empresas públicas como instrumentos de política de governo, acomodação partidária e expansão artificial de crédito. A lógica empresarial cede espaço à lógica ideológica. O resultado aparece nos balanços: rentabilidade menor, aumento da inadimplência, piora da eficiência e crescente insegurança do mercado.
Isso não significa defender privatizações indiscriminadas ou ignorar o papel estratégico de determinadas instituições públicas. O Banco do Brasil e a Caixa possuem funções relevantes para o financiamento agrícola, habitacional e social. Os Correios cumprem papel importante em regiões remotas do País. Mas exatamente por serem estratégicos, exigem ainda mais responsabilidade administrativa, transparência e blindagem contra interferências políticas.
O que se observa atualmente é um governo mais preocupado em ampliar presença estatal do que em garantir eficiência empresarial. O discurso da “reconstrução” acabou acompanhado por uma expansão do risco fiscal, crescimento do déficit das estatais e enfraquecimento da confiança nos mecanismos de gestão pública. Dados recentes apontam que empresas estatais federais acumulam resultados negativos recordes em 2026, reforçando o alerta sobre a saúde financeira desse setor.
Há um simbolismo importante nisso tudo. O Banco do Brasil, a Caixa e os Correios não são empresas comuns. Representam a (in)capacidade do Estado brasileiro de administrar patrimônio público com responsabilidade. Quando essas instituições começam a apresentar deterioração simultânea, o sinal que se transmite ao País é de desorganização administrativa e perda de controle estratégico.
O governo Lula ainda tenta impor a imagem de estabilidade institucional e compromisso social. Mas balanços financeiros não obedecem narrativas políticas. Eles revelam fatos. E os fatos, neste momento, mostram estatais mais frágeis, menos eficientes e crescentemente pressionadas por decisões que parecem atender muito mais aos interesses do governo do que aos interesses permanentes do Estado brasileiro.