O desafio do TSE em 2026

Por Cruzeiro do Sul

A posse do ministro Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral ocorre em um momento particularmente sensível para a democracia brasileira. A Corte responsável por organizar e garantir a legitimidade das eleições nacionais chega às vésperas de mais um processo eleitoral marcado por polarização política, disseminação de desinformação em larga escala e constantes tentativas de desacreditar instituições públicas. Mais do que conduzir o calendário eleitoral de 2026, caberá ao TSE reafirmar sua função histórica: assegurar que a soberania popular se manifeste de forma livre, transparente e incontestável.

Criado em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, o Tribunal Superior Eleitoral nasceu como resposta a uma das maiores fragilidades da antiga República: as fraudes eleitorais sistemáticas que comprometiam a credibilidade do voto. Até então, eleições eram frequentemente marcadas pelo chamado “voto de cabresto”, pela manipulação de atas e pelo controle político exercido por oligarquias regionais. A criação da Justiça Eleitoral representou uma ruptura institucional importante ao transferir a condução das eleições para um órgão técnico e independente. O primeiro presidente do TSE foi o ministro Hermenegildo de Barros, personagem que ajudou a estruturar uma instituição concebida justamente para reduzir interferências políticas no processo eleitoral.

Ao longo das décadas, a Justiça Eleitoral brasileira consolidou-se como uma das estruturas mais complexas e eficientes do mundo. O Brasil realiza eleições de dimensões continentais em poucas horas, com apuração rápida e alcance nacional. Em um país marcado por profundas desigualdades regionais, garantir que o voto chegue com segurança aos grandes centros urbanos, às áreas rurais, às aldeias indígenas e às comunidades isoladas sempre foi um desafio logístico monumental. O TSE transformou essa operação em referência internacional.

A implantação da urna eletrônica, em 1996, representou outro divisor de águas. O sistema reduziu drasticamente fraudes relacionadas à contagem manual de votos e acelerou a divulgação dos resultados. Ainda assim, a evolução tecnológica trouxe novos desafios. Se antes o principal problema estava na adulteração física do processo eleitoral, hoje a ameaça mais persistente está no ambiente digital, especialmente na propagação de notícias falsas e campanhas organizadas de desinformação.

Nos últimos anos, o TSE passou a atuar não apenas como administrador das eleições, mas também como guardião institucional da própria confiança pública no sistema democrático. Essa função ganhou peso diante da circulação de teorias conspiratórias sobre as urnas eletrônicas, frequentemente disseminadas sem provas e amplificadas pelas redes sociais. O enfrentamento da desinformação exige equilíbrio delicado: combater conteúdos fraudulentos sem abrir espaço para acusações de censura ou interferência política.

É justamente nesse ponto que reside um dos maiores desafios da futura gestão de Nunes Marques. O presidente do TSE precisa conduzir a Corte com firmeza institucional, serenidade jurídica e absoluta imparcialidade. Não se espera protagonismo político do tribunal, mas sim autoridade técnica e capacidade de garantir estabilidade em momentos de tensão. A credibilidade da Justiça Eleitoral depende menos de discursos e mais da confiança que suas decisões inspiram na sociedade.

A alternância periódica na presidência do TSE, baseada no critério de antiguidade entre ministros do Supremo Tribunal Federal, contribui para preservar essa estabilidade. O modelo impede personalismos prolongados e reforça o caráter institucional da Corte. Ao lado de André Mendonça, Nunes Marques terá a missão de conduzir uma eleição que certamente será acompanhada por forte vigilância política e social.

Entretanto, é importante lembrar que a defesa da democracia não é responsabilidade exclusiva do TSE. Nenhuma instituição consegue preservar sozinha a integridade do processo eleitoral. Partidos políticos, candidatos, plataformas digitais, veículos de imprensa e os próprios eleitores compartilham deveres fundamentais nesse processo. A democracia enfraquece quando a mentira se transforma em estratégia política permanente ou quando instituições passam a ser atacadas sistematicamente sem qualquer compromisso com fatos.

O Brasil já viveu períodos em que eleições eram desacreditadas antes mesmo da abertura das urnas. A criação da Justiça Eleitoral buscou justamente superar esse passado de manipulações e desconfiança. Quase um século depois, os desafios mudaram de forma, mas preservam a mesma essência: garantir que o voto do cidadão seja respeitado e que os resultados reflitam a vontade popular.

Mais do que administrar eleições, o Tribunal Superior Eleitoral administra confiança. E confiança institucional, sobretudo em democracias tensionadas, tornou-se um dos patrimônios mais valiosos e mais difíceis de preservar da vida pública brasileira.