É preciso preservar a memória
Há cidades que constroem viadutos, avenidas e prédios modernos, mas deixam ruir aquilo que lhes deu origem. Quando isso acontece, o problema ultrapassa a deterioração física de imóveis históricos: revela-se um processo silencioso de perda de identidade coletiva. Uma cidade que não respeita a própria memória dificilmente demonstra preocupação verdadeira com o seu futuro.
Sorocaba convive há anos com essa contradição. Ao mesmo tempo em que projeta novos empreendimentos, discute mobilidade e aposta em expansão urbana, mantém abandonados ou indefinidos alguns dos mais importantes símbolos de sua trajetória histórica. O antigo Fórum Velho, aquele da praça Frei Baraúna, e o Mosteiro de São Bento, o Matadouro Municipal e o complexo ferroviário da antiga Estrada de Ferro Sorocabana são exemplos eloquentes de um patrimônio que resiste mais pela força de suas paredes do que pela ação efetiva do poder público, como mostrou este jornal em sua edição de domingo.
Os problemas apresentados são conhecidos: entraves jurídicos, indefinições sobre titularidade, burocracia, custos elevados de restauração e dependência de acordos administrativos. Tudo isso é real. Mas também é verdade que tais justificativas se repetem há décadas, enquanto os imóveis seguem se deteriorando diante dos olhos da população. O risco, agora, já não é apenas de abandono. Há iminência de perda definitiva.
O caso do complexo ferroviário talvez seja o mais emblemático. A antiga Estrada de Ferro Sorocabana não representa apenas um conjunto de galpões antigos. Ela simboliza o desenvolvimento econômico da cidade, a integração regional e parte essencial da formação industrial de Sorocaba. Permitir que oficinas históricas sejam consumidas pelo mato, por infiltrações e pelo descaso administrativo é aceitar que a memória ferroviária da cidade se transforme em ruína irreversível.
A futura implantação do Trem Intercidades surge como oportunidade importante, especialmente pela previsão de recuperação da antiga estação ferroviária. Entretanto, há um perigo recorrente em projetos dessa natureza: restaurar apenas aquilo que possui utilidade econômica imediata, deixando o restante do patrimônio à própria sorte. Preservação histórica não pode obedecer exclusivamente à lógica da rentabilidade.
O mesmo raciocínio vale para o Fórum Velho. A proposta de ocupação das salas por empresas privadas pode representar alternativa interessante para devolver vida ao espaço. Porém, sem um plano transparente de restauração estrutural, metas públicas definidas e fiscalização rigorosa, existe o risco de transformar um patrimônio histórico apenas em ativo imobiliário improvisado. Recuperar um prédio histórico exige mais do que ocupação física; exige compromisso com sua preservação arquitetônica, cultural e simbólica.
No antigo Matadouro Municipal, a situação é ainda mais preocupante. Quando a principal medida emergencial anunciada é o escoramento das paredes para evitar desabamento, significa que o debate já deixou de ser sobre revitalização e passou a ser sobre sobrevivência estrutural. A cidade parece sempre agir quando o colapso se aproxima, nunca antes.
Já o Mosteiro de São Bento expõe outro problema típico da gestão patrimonial brasileira: obras iniciadas que jamais terminam. Tapumes tornam-se permanentes, projetos desaparecem sem explicações e o tempo corrói aquilo que deveria estar protegido. A ausência de respostas concretas sobre cronogramas, orçamento e responsabilidades apenas amplia a sensação de abandono institucional.
É preciso reconhecer que preservar patrimônio histórico custa caro. Mas custa muito mais perder a memória de uma cidade. Municípios que valorizam seus bens históricos compreendem que esses espaços não são obstáculos ao desenvolvimento urbano, são parte dele. Patrimônio recuperado gera turismo, movimenta economia criativa, fortalece identidade cultural e cria vínculos sociais entre passado, presente e futuro.
Sorocaba corre o risco de cometer um erro grave: tornar-se uma cidade moderna na aparência, mas vazia de referências históricas capazes de explicar sua própria formação. Uma cidade sem memória preservada perde também parte de sua capacidade de projetar o futuro com consciência e pertencimento.
Mais do que discursos sobre valorização cultural, a população precisa enxergar ações concretas, cronogramas públicos, investimentos contínuos e responsabilização clara sobre cada imóvel degradado. Porque patrimônio histórico não pode sobreviver apenas de promessas, editais ou boas intenções administrativas.
O tempo, nesse caso, não atua como aliado. Cada telhado comprometido, cada parede rachada e cada obra interrompida representam fragmentos da história coletiva sendo lentamente apagados. E cidades que permitem o desaparecimento de sua memória acabam, cedo ou tarde, perdendo também parte de sua própria identidade.