Não é muita viagem?
A agenda internacional do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva revela uma opção política clara: recolocar o Brasil no centro das articulações globais em aparente detrimento às necessidades internas. Desde 2023, o petista já realizou algo entre 30 e 40 viagens internacionais, passando por mais de 30 países e acumulando mais de 100 dias fora do território nacional. No entanto, esse movimento carrega consigo um peso financeiro significativo. Os gastos associados às viagens, que incluem comitivas, logística, hospedagens e transporte, já se aproximam de R$ 1 bilhão, valor que inevitavelmente entra no debate público quando confrontado com carências estruturais ainda presentes em áreas essenciais como saúde, educação e infraestrutura.
A diplomacia presidencial, é verdade, exige presença física e articulação direta entre líderes. Não se trata, portanto, de questionar a necessidade de viagens internacionais em si, mas sim sua intensidade e proporcionalidade diante das demandas internas do País. O desafio de qualquer governo está em equilibrar prioridades: ao mesmo tempo em que busca protagonismo externo, precisa responder às urgências domésticas de uma população que ainda convive com desigualdades profundas. Nesse contexto, a frequência elevada de deslocamentos pode gerar uma percepção de distanciamento entre o poder central e a realidade cotidiana dos brasileiros, ainda que os objetivos estratégicos das viagens sejam legítimos.
Mais sensível ainda é a discussão envolvendo a atuação da primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja. Sem ocupar cargo público formal, ela também mantém uma agenda internacional ativa, com cerca de 30 a 36 viagens desde o início do mandato, passagem por aproximadamente 38 países e um total de cerca de 170 dias no exterior, número que, em determinados períodos, supera o do próprio presidente. Embora historicamente primeiras-damas desempenhem papéis simbólicos, o volume e a natureza dessas viagens levantam questionamentos sobre seus critérios, objetivos e, sobretudo, sua legitimidade institucional.
Outro ponto que amplia o debate é a falta de transparência detalhada sobre os custos específicos dessas viagens. Diferentemente das agendas presidenciais, cujos gastos podem ser estimados dentro do conjunto das despesas governamentais, os deslocamentos da primeira-dama não possuem uma discriminação clara, sendo diluídos nas contas gerais das comitivas e da estrutura do Estado. Em um cenário de crescente cobrança por responsabilidade fiscal, essa ausência de dados objetivos dificulta a avaliação do custo-benefício dessas agendas e alimenta críticas quanto ao uso de recursos públicos.
O governo sustenta que a intensa agenda internacional integra uma estratégia de reconstrução de pontes diplomáticas, atração de investimentos e reposicionamento do Brasil no cenário global. É um argumento consistente, especialmente diante da necessidade de ampliar parcerias comerciais e políticas. No entanto, a política pública não se sustenta apenas na intenção, ela exige resultados concretos e mensuráveis. Cada viagem precisa se traduzir em ganhos efetivos para o País, seja na forma de investimentos, acordos ou fortalecimento institucional.
Há, portanto, um desafio evidente de equilíbrio. Governar é administrar prioridades e também percepções. Em um país marcado por demandas urgentes e recursos limitados, a imagem de um governo frequentemente em trânsito internacional pode se tornar um ponto de desgaste político. A diplomacia ativa é necessária, mas não pode se desconectar da realidade interna. O êxito dessa estratégia dependerá, em última instância, da capacidade do governo de demonstrar que o protagonismo externo gera benefícios concretos dentro do Brasil __ caso contrário, o que hoje se apresenta como política de Estado corre o risco de ser interpretado como excesso, ou mesmo como desperdício.
O presidente Lula deve levantar voo amanhã rumo a Washignton para um encontro com Donald Trump, o governante dos Estados Unidos. O encontro vem sendo negociado desde janeiro e deve focar em pauta econômica e segurança. A equipe presidencial já está nos EUA para preparar a chegada de Lula. A última viagem do presidente Lula à Europa ocorreu em abril passado, com passagens pela Espanha, Alemanha e Portugal. O giro de cinco dias focou em cooperação econômica, transição energética e no acordo Mercosul-União Europeia, terminando com uma visita oficial a Lisboa.