O vírus está em circulação
O avanço do outono em direção ao inverno, no interior paulista, não é apenas uma mudança de estação — é um alerta que, mais uma vez, parece ignorado. As temperaturas mais baixas, somadas às oscilações típicas deste período, criam o ambiente perfeito para a proliferação de doenças respiratórias. Em Sorocaba, os reflexos já são sentidos de forma concreta: aumento da procura por atendimento nas unidades de saúde e pressão crescente sobre o sistema público e privado também.
Ao mesmo tempo, a campanha de vacinação contra a gripe segue ativa. E aqui reside o paradoxo que beira o absurdo: há vacina disponível, mas falta braço disposto a recebê-la ao ponto do gestor da Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba, padre Flávio Jorge Miguel Júnior, demonstrar preocupação com a cobertura vacinal que, segundo seus dados, atingiu 17% do público-alvo. A Prefeitura de Sorocaba diz que o índice é de 22,76%. De qualquer forma, o município se mantém muito aquém das metas de imunização. “Este ano teremos uma onda de gripe muito forte, como já ocorreu no Hemisfério Norte, e aqui não será diferente. Alguns estados brasileiros já enfrentam essa crise. Acredito que em Sorocaba e região o auge ocorra na segunda quinzena de maio; daí a importância de todos buscarem a vacinação agora”, afirma o padre.
Enquanto sobram vacinas no grupo prioritário, há muita gente esperando pelo imunizante na rede pública. O problema não é logístico. É estrutural — e, sobretudo, político. A estratégia de restringir a vacinação, embora historicamente justificável em cenários de escassez, revela-se hoje um contrassenso diante da realidade local. Se há vacina disponível e baixa adesão entre os grupos elegíveis, por que manter a limitação? A quem interessa esse represamento?
Enquanto isso, os postos de saúde recebem, diariamente, pacientes com sintomas gripais, síndromes respiratórias e complicações que poderiam ser evitadas. Não se trata apenas de desconforto individual. Trata-se de um ciclo previsível: mais infecções levam a mais afastamentos do trabalho, mais pressão sobre hospitais e, inevitavelmente, maior risco de casos graves e óbitos, inclusive entre pessoas fora dos chamados grupos de risco.
A experiência recente da pandemia deveria ter deixado uma lição inequívoca: vírus respiratórios não respeitam recortes burocráticos. A distinção entre “grupo prioritário” e “não prioritário” pode fazer sentido em planilhas, mas perde eficácia quando confrontada com a dinâmica real da transmissão comunitária. Quanto mais gente vacinada, menor a circulação do vírus. É uma equação simples, respaldada por décadas de evidência científica.
Manter doses estocadas enquanto a população adoece não é prudência, mas parecer desperdício e até mesmo negligência sanitária. A política pública, neste caso, parece operar com um atraso perigoso, incapaz de se adaptar a um cenário em que a oferta supera a demanda restrita.
Defender a ampliação imediata da vacinação contra a gripe para todas as faixas etárias não é um gesto populista, mas uma medida racional de saúde pública. Em cidades como Sorocaba, onde há estrutura de vacinação consolidada e estoque disponível, a universalização da campanha poderia reduzir rapidamente a circulação viral, aliviar o sistema de saúde e evitar internações desnecessárias.
Há, ainda, um componente de comunicação que não pode ser ignorado. A baixa adesão entre os grupos prioritários também revela falhas na forma como a campanha é conduzida. Falta engajamento, falta clareza e, sobretudo, falta senso de urgência. A vacina, gratuita e disponível, ainda não é percebida como uma necessidade imediata. E isso é responsabilidade do poder público.
O cenário atual exige mais do que protocolos engessados. Exige decisão. Exige coragem administrativa para romper com a inércia e reconhecer que, diante de vacinas sobrando e doenças avançando, o modelo precisa mudar.
A cada inverno, o Brasil revive o mesmo roteiro: filas nos prontos atendimentos, hospitais sobrecarregados e uma corrida tardia por soluções que poderiam ter sido antecipadas. Em 2026, os governos têm a oportunidade de fazer diferente. Vacina no braço não pode ser privilégio. Deve ser política pública de alcance universal, especialmente quando o vírus já está em circulação e a prevenção está, literalmente, à disposição.