Confiança no menor nível

Por Cruzeiro do Sul

A confiança dos empresários da indústria brasileira caiu pelo terceiro mês consecutivo e atingiu, em abril, o menor nível desde junho de 2020. O Índice de Confiança do Empresário Industrial recuou 1,4 ponto, chegando a 45,2 pontos, segundo dados divulgados ontem pela Confederação Nacional da Indústria.

A persistente queda na confiança do empresariado industrial brasileiro não é um ruído passageiro, tampouco um reflexo isolado de turbulências externas. Trata-se de um sintoma claro, reiterado e cada vez mais profundo de uma engrenagem econômica que perdeu coerência, previsibilidade e, sobretudo, credibilidade. Quando o Índice de Confiança do Empresário Industrial permanece por 16 meses consecutivos abaixo da linha de 50 pontos — marco que separa otimismo de pessimismo —, o problema deixa de ser conjuntural e passa a ser estrutural.

É preciso dizer com todas as letras: a política econômica adotada pelo atual governo tem responsabilidade direta nesse cenário. Não se trata de ignorar fatores internacionais, como o encarecimento do petróleo ou a desaceleração global, mas de reconhecer que o Brasil tem agravado suas próprias vulnerabilidades. Em vez de atuar como amortecedor, a condução econômica tem funcionado como amplificador das incertezas.

O primeiro e mais evidente equívoco está na falta de coordenação entre política fiscal e monetária. De um lado, o governo insiste em expandir gastos, sinalizando fragilidade no compromisso com o equilíbrio das contas públicas. De outro, o Banco Central mantém juros elevados como resposta à inflação resistente e às expectativas desancoradas. O resultado é um estrangulamento previsível: crédito caro, investimento retraído e produção industrial em marcha lenta. Nesse ambiente, não há empresário disposto a arriscar.

A indústria, historicamente um dos pilares da geração de emprego e renda no País, torna-se refém de um ciclo vicioso. Sem confiança, não há investimento e nem expansão produtiva. Assim, o crescimento econômico se limita a voos curtos e instáveis. O que se observa hoje é uma economia que patina, incapaz de sustentar um projeto de desenvolvimento consistente.

Há, ainda, um componente político que agrava o quadro. Em ano eleitoral, a tentação de medidas populistas se intensifica. Subsídios pontuais, desonerações seletivas e programas de impacto imediato — mas de baixa sustentabilidade — tendem a ganhar espaço. São iniciativas que podem até produzir alívio momentâneo, mas aprofundam o problema estrutural: a ausência de uma estratégia de longo prazo para a indústria brasileira.

O empresariado sabe disso. E reage como qualquer agente racional: recua. O índice de condições atuais em 40,5 pontos e o de expectativas abaixo da linha de confiança não são meros números e sim um retrato da descrença generalizada. Não se trata apenas de avaliar o presente como ruim, mas de não enxergar horizonte de melhora.

O que esperar, então, deste governo até o fim do mandato? Dificilmente haverá uma inflexão significativa. A combinação de restrições fiscais, pressões políticas e calendário eleitoral limita a capacidade de decisões estruturais. O mais provável é a continuidade de medidas paliativas, incapazes de alterar o quadro de fundo.

E o próximo governo, seja qual for sua orientação ideológica, herdará um terreno árido. Encontrará uma indústria fragilizada, expectativas deterioradas e um ambiente de negócios marcado pela insegurança. Herdará também um dilema clássico: promover ajuste fiscal sem sufocar ainda mais a atividade econômica. Não haverá soluções fáceis.

Para que a confiança retorne, será necessário mais do que discursos ou promessas. O Brasil precisa de um compromisso inequívoco com a responsabilidade fiscal, capaz de reduzir o prêmio de risco e abrir espaço para a queda consistente dos juros. Precisa, igualmente, de estabilidade regulatória, simplificação tributária e segurança jurídica, elementos básicos, mas reiteradamente negligenciados.

Além disso, é imprescindível uma política industrial moderna, que vá além de incentivos pontuais e aposte em produtividade, inovação e inserção competitiva no mercado global. A indústria brasileira não precisa de proteção artificial; precisa de condições reais para competir.

Confiança não se decreta, se constrói. E, no Brasil de hoje, ela vem sendo sistematicamente corroída por escolhas equivocadas, improvisos e falta de direção clara. O recado dos empresários é cristalino: sem previsibilidade, não há investimento; sem investimento, não há crescimento; e sem crescimento, qualquer projeto de país se torna retórica vazia.

Ignorar esse alerta não é apenas um erro econômico. É, sobretudo, um risco político.