Fragilidades internas
A elevação sucessiva das expectativas de inflação, agora em 4,71% para 2026 — acima do teto da meta — não é apenas mais um dado do mercado. É, sobretudo, o retrato de uma política econômica que se mostra incapaz de ancorar expectativas, elemento essencial para qualquer estratégia de estabilidade. Ao atingir a quinta alta consecutiva nas projeções, o indicador deixa de ser um ruído conjuntural e passa a evidenciar um problema estrutural: a perda de credibilidade na condução econômica do governo.
É inegável que fatores externos pesam. A instabilidade geopolítica no Oriente Médio pressiona preços internacionais, impacta combustíveis e encarece cadeias produtivas. No entanto, atribuir a esse cenário a responsabilidade central pelo descontrole inflacionário brasileiro seria, no mínimo, conveniente. O Brasil convive com uma inflação persistente mesmo em períodos de relativa normalidade global, o que revela fragilidades internas que não foram enfrentadas com a devida seriedade.
O principal ponto de tensão está na incoerência entre política fiscal e política monetária. De um lado, o Banco Central mantém juros elevados — ainda na casa de dois dígitos — como instrumento de contenção da demanda. De outro, o governo sustenta uma política fiscal expansionista, com aumento de gastos e dificuldades evidentes em consolidar um arcabouço crível de controle das contas públicas. O resultado é um esforço assimétrico: enquanto a autoridade monetária freia, o fiscal acelera. Nesse cenário, a inflação encontra terreno fértil para se manter pressionada.
A consequência direta dessa descoordenação é a manutenção de juros elevados por mais tempo. A taxa Selic, mesmo diante de tentativas pontuais de redução, permanece em níveis que sufocam o crédito, inibem investimentos e limitam o crescimento econômico. A expectativa de um PIB inferior a 2% para os próximos anos reforça essa percepção de estagnação: cresce-se pouco, com inflação alta, uma combinação que penaliza especialmente as camadas mais vulneráveis da população.
Há ainda um componente político que agrava o quadro. Em ano eleitoral, a tendência histórica de flexibilização fiscal se intensifica. A busca por resultados imediatos, muitas vezes via estímulos artificiais à economia, entra em choque com a necessidade de disciplina de longo prazo. O governo se vê, portanto, diante de um dilema clássico: ajustar as contas e arcar com o custo político no curto prazo ou postergar decisões e aprofundar desequilíbrios.
Com apenas oito meses restantes de mandato, o tempo se torna um fator crítico. Reformas estruturais, que exigem articulação política e horizonte de médio prazo, tornam-se cada vez mais improváveis. O espaço para medidas de impacto real se reduz, e o risco é que a gestão caminhe para um encerramento marcado por soluções paliativas, incapazes de alterar o quadro inflacionário de forma consistente.
O problema central, portanto, não é apenas a inflação acima da meta, mas o que ela revela: um modelo econômico que falha em gerar previsibilidade. Sem confiança, expectativas se desancoram. E, sem expectativas ancoradas, o custo do combate à inflação se eleva, seja em forma de juros mais altos, seja em menor crescimento.
A persistência desse cenário impõe uma reflexão inevitável. A política econômica não pode ser conduzida sob o imediatismo eleitoral nem subordinada a pressões circunstanciais. A estabilidade exige coerência, disciplina e, sobretudo, credibilidade. Sem esses pilares, a inflação deixa de ser apenas um indicador e passa a ser um sintoma de um problema maior: a incapacidade de o país construir um caminho sustentável de crescimento.
Se nada for feito de forma efetiva, o legado econômico deste ciclo será claro: mais uma oportunidade perdida de enfrentar as causas profundas da instabilidade brasileira. E, como a história recente demonstra, o custo dessa omissão recai, inevitavelmente, sobre toda a sociedade.