Ilusões convenientes
Os números do IPCA de março não deixam margem para ilusões convenientes: a inflação brasileira não é um fenômeno episódico, provocado por choques externos pontuais, mas sim um problema estrutural, enraizado em distorções persistentes da economia. Quando até o próprio presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reconhece que a taxa de juros elevada decorre de fatores internos — e não apenas de circunstâncias globais, como sugerem as narrativas oficiais do governo, creditando a situação nas guerras, nos eventos climáticos ou nas oscilações internacionais.
A insistência em atribuir à conjuntura externa a responsabilidade por uma inflação que resiste mesmo em momentos de relativa estabilidade internacional revela mais do que uma divergência técnica: expõe uma estratégia política de deslocamento de culpa. É mais simples apontar para conflitos geopolíticos ou adversidades climáticas do que encarar o conjunto de decisões domésticas que alimentam a desconfiança, pressionam expectativas e deterioram o ambiente econômico.
O comportamento recente dos preços evidencia esse quadro. A inflação disseminada, atingindo diferentes setores, indica que não se trata de um choque isolado, mas de uma dinâmica contínua, sustentada por desequilíbrios fiscais, expansão de gastos sem contrapartida clara de receita e sinalizações contraditórias na condução da política econômica. O resultado é previsível: agentes econômicos ajustam suas expectativas, antecipam aumentos e reforçam a própria inflação que o governo diz combater.
Nesse contexto, a taxa de juros elevada deixa de ser uma escolha arbitrária do Banco Central e passa a ser uma consequência inevitável. Trata-se de um mecanismo de defesa diante de um ambiente em que a política fiscal não oferece âncora suficiente. Quando o próprio comando da autoridade monetária admite essa realidade, desmonta-se o discurso de que o aperto monetário seria um obstáculo injustificado ao crescimento. Na verdade, ele é o reflexo direto de uma política econômica que não consegue inspirar confiança.
O problema se agrava quando o governo insiste em medidas de curto prazo, muitas vezes voltadas a estimular o consumo sem enfrentar os entraves estruturais da economia. Essa abordagem pode gerar alívio momentâneo, mas cobra seu preço na forma de inflação persistente e juros elevados. No médio prazo, o que se vê é um ciclo vicioso: crescimento frágil, perda de poder de compra e aumento da incerteza.
Ao evitar reformas mais profundas e ao manter uma postura ambígua em relação ao controle dos gastos públicos, o governo contribui para a perpetuação desse cenário. A credibilidade, elemento central em qualquer política econômica eficaz, torna-se escassa. Sem ela, não há discurso capaz de convencer o mercado ou a sociedade de que a inflação está sob controle.
A inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), atingiu 0,88% em março. Resultado foi 0,18 ponto percentual (p.p.) mais alto que em fevereiro, quando foi registrado 0,70%. O avanço foi puxado pelos preços dos grupos transportes e alimentação e bebidas, conforme informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Os dados de março, portanto, não são apenas mais um registro estatístico. Eles funcionam como um diagnóstico claro de um modelo que falha em atacar as causas do problema. Enquanto o debate permanecer preso a justificativas externas e soluções paliativas, o Brasil seguirá refém de uma inflação resistente e de juros elevados.
A realidade, ainda que incômoda, é inequívoca: o desafio brasileiro não está fora de suas fronteiras. Ele reside, sobretudo, na incapacidade de alinhar responsabilidade fiscal, coerência política e visão de longo prazo. Sem isso, qualquer tentativa de atribuir a culpa a fatores externos não passa de retórica e a conta, como sempre, recai sobre a população.