Encruzilhada global

Por Cruzeiro do Sul

A guerra no Oriente Médio, que já passa de um mês, entra em um novo estágio que compromete a economia em nível global. Países que dependem do petróleo da região têm de pagar mais e enfrentam escassez devido ao fechamento do Estreito de Ormuz pelas forças do Irã.

Filipinas, Indonésia, Bangladesh, Tailândia, Sri Lanka e outras nações asiáticas enfrentam grave crise de abastecimento. O racionamento de combustíveis, redução na semana de trabalho e uso de carvão foram adotados. A China, maior importador, tem reservas, mas sente a pressão e suspendeu exportações de combustíveis.

O que começou como conflito entre três países — Estados Unidos e Israel de um lado, e Irã de outro — se alastrou inicialmente para o Líbano e monarquias árabes do Golfo Pérsico, depois para os países dependentes do petróleo e têm o potencial de se estender ainda mais, gerando inflação e prejudicando a economia mundial de uma forma avassaladora.

Esse é o principal motivo para o interesse urgente em desobstruir o Estreito de Ormuz. Na quinta-feira (2), 40 países pediram a “reabertura imediata e incondicional” do canal marítimo, ao final de uma reunião virtual organizada pelo Reino Unido. No mesmo dia, o secretário-geral do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) pediu ao Conselho de Segurança da ONU para dar luz verde ao uso da força para liberar o Estreito de Ormuz.

Cerca de 20% do petróleo consumido no mundo passa pelo canal marítimo sob controle do Irã. A elevação do preço dos combustíveis derivados do petróleo, cotados internacionalmente, atinge também as expectativas de inflação, forçando bancos centrais ao redor do mundo a subir juros.

A turbulência econômica afeta o custo de vida, principalmente em países mais pobres e em desenvolvimento. O custo do diesel reflete diretamente no preço dos produtos transportados, gerando inflação em cadeia. Além do fator inflacionário, a escassez de petróleo e a interrupção no comércio internacional de insumos de fertilizantes aponta para o risco de fome global.

Na agricultura, o bloqueio dificulta a fertilização do solo, plantio, colheita e transporte dos produtos, pois tratores e caminhões são abastecidos em sua maioria por diesel.

O Instituto Humanitas Unisinos alerta que o aumento dos custos da cadeia de suprimentos e as interrupções no transporte no Oriente Médio estão prejudicando as ações de ajuda humanitária como o Programa Mundial de Alimentos (PMA), o Unicef e a Save the Children. Essas organizações confirmam impactos diretos em suas operações no Oriente Médio e na África Subsaariana devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz.

A suspensão de rotas marítimas por motivos de segurança levará a atrasos de até seis meses nas entregas de ajuda a um setor já duramente atingido em 2025 por cortes financeiros após reduções drásticas nas doações dos Estados Unidos e de algumas potências europeias.

No Brasil, mesmo com baixa dependência direta da importação de petróleo da região, a escalada do conflito no Oriente Médio desencadeou impactos inflacionários e logísticos imediatos, com reflexos no agronegócio. O setor agropecuário brasileiro é altamente dependente de fertilizantes e a interrupção ou dificuldade no fluxo eleva o custo de produção e o frete.

O aumento dos custos de energia e logística pode alimentar a inflação também no Brasil, levando a uma possível necessidade de elevação da taxa Selic para conter os preços. Isso após o corte de 0,25 ponto percentual em março, para 14,75% ao ano, o primeiro desde maio de 2024.

Todas essas consequências negativas globalmente exigem uma reação conjunta de países e blocos para pôr fim ao conflito. Parece que se tornam mais consistentes as posições dos que se opõem à guerra e buscam uma conciliação. Uma ação mais enérgica da ONU, da União Europeia, da China e outros países asiáticos pode forçar ou convencer Estados Unidos, Israel e Irã a encontrar uma solução, mesmo que provisória, para impedir que os efeitos dessa guerra continuem a se espalhar pelo resto do mundo.