Sorocaba e as incertezas

Por Cruzeiro do Sul

Instabilidades políticas costumam cobrar um preço alto e, quase sempre, quem paga a conta é a população. O caso recente de Sorocaba expõe com nitidez os efeitos de uma gestão judicializada e cercada de incertezas. O prefeito Rodrigo Manga (Republicanos) foi afastado do cargo por até 180 dias em 6 de novembro de 2025, por decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), atendendo a um pedido da Polícia Federal durante a segunda fase da Operação Copia e Cola, que investiga irregularidades, desvios de recursos e problemas em contratos da área da saúde.

Nesta terça-feira, após 145 dias, Manga foi reconduzido ao cargo amparado pela decisão monocrática do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal

Não se trata apenas de um episódio jurídico. É, antes de tudo, uma situação que mexe na relação entre eleitor e eleito. Quando o cidadão vai às urnas, ele não delega apenas poder — ele deposita expectativa, esperança e, sobretudo, aposta em uma boa administração. A interrupção desse ciclo, seguida de um retorno ainda envolto em dúvidas, transforma a gestão pública em um terreno instável, onde decisões deixam de ser técnicas e passam a ser contingenciais.

Durante 145 dias, Sorocaba viveu uma espécie de hiato administrativo. O vice-prefeito Fernando Martins (PSD) administrou a cidade. Projetos foram paralisados, prioridades foram revistas, e a máquina pública, por mais resiliente que seja, inevitavelmente perdeu ritmo. A volta do prefeito, embora respaldada por decisão judicial, não apaga os efeitos desse período. Ao contrário, inaugura uma nova fase de incerteza: quanto tempo durará essa permanência? Haverá novas decisões judiciais? O projeto político será mantido?

Há, ainda, a possibilidade de Manga se desincompatibilizar do cargo para buscar uma outra realidade política. Ele tem até este sábado (4) para tomar a decisão. Enquanto isso, a cidade espera mais um pouco.

Essa instabilidade é especialmente grave em uma cidade que enfrenta desafios estruturais relevantes. Sorocaba não pode se dar ao luxo de viver sob o signo da hesitação. Gestão fiscal exige previsibilidade, planejamento e, acima de tudo, confiança institucional — três elementos que se fragilizam quando o comando do Executivo municipal se vê envolvido em questões judiciais recorrentes.

Mais preocupante ainda é o impacto sobre as promessas de campanha. O eleitor que confiou seu voto espera ver resultados concretos: melhorias em saúde, educação, mobilidade e infraestrutura. No entanto, quando o mandato é atravessado por afastamentos e retornos, o que se observa é um descompasso entre discurso e prática. O tempo político, já naturalmente curto, torna-se ainda mais escasso e as promessas correm o risco de se transformar em meras peças retóricas.

Há também um efeito psicológico coletivo que não pode ser ignorado. A população passa a conviver com a sensação de provisoriedade permanente. O prefeito está, mas pode não estar amanhã. As decisões são tomadas, mas podem ser revistas. Os projetos são anunciados, mas não necessariamente executados. Esse ambiente mina a confiança não apenas no gestor, mas nas próprias instituições.

A decisão monocrática que possibilitou o retorno do prefeito, embora juridicamente válida, levanta um debate legítimo sobre os limites e os impactos desse tipo de intervenção. Em um país de dimensões continentais e com milhares de municípios, decisões individuais em instâncias superiores têm o poder de redefinir, de forma abrupta, o rumo político de cidades inteiras. É um poder que exige não apenas rigor técnico, mas sensibilidade institucional.

A raiz do problema está, em grande medida, na fragilidade dos próprios sistemas políticos locais, muitas vezes marcados por disputas personalistas, falta de transparência e ausência de planejamento de longo prazo. Quando a política se torna refém de crises recorrentes, o Judiciário acaba sendo chamado a arbitrar conflitos que, idealmente, deveriam ser resolvidos no campo político e administrativo.

Diante desse cenário, a pergunta que se impõe é inevitável: amanhã terá mudanças?

A resposta, infelizmente, parece ser uma combinação disfuncional desses fatores e é justamente essa combinação que compromete o futuro da cidade.

Sorocaba precisa, mais do que nunca, de clareza, responsabilidade e compromisso. O momento exige soluções; menos incertezas e mais previsibilidade. A cidade é, acima de tudo, o espaço onde milhares de pessoas vivem, trabalham e constroem suas vidas.

E é justamente por essas pessoas que a estabilidade deve deixar de ser exceção e voltar a ser regra. Porque, no fim das contas, não é o prefeito, nem o Judiciário, nem os atores políticos que mais sofrem com a instabilidade — é o cidadão comum, que continua esperando por respostas que demoram a chegar e, às vezes, nem são levadas a sério.