Os limites da tolerância
A elevação sucessiva das expectativas inflacionárias, captada pelo Boletim Focus desta semana, não é apenas mais um dado técnico no radar do mercado. Trata-se de um sintoma claro e preocupante de que a política econômica conduzida pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) caminha em rota de desgaste, especialmente em um contexto que combina pressões externas, fragilidade fiscal interna e, sobretudo, a contaminação crescente pelo calendário eleitoral.
A projeção do IPCA para 2026, agora em 4,31%, permanece formalmente dentro do intervalo de tolerância da meta. Mas é justamente esse “dentro do limite” que deveria acender o alerta. Estar tão próximo do teto — 4,5% — não é sinal de conforto, mas de risco. É o retrato de uma economia que flerta perigosamente com a perda de controle inflacionário, sobretudo quando o próprio mercado revisa suas estimativas para cima pela terceira semana consecutiva.
O governo tenta se escudar em fatores externos, como as tensões no Oriente Médio, para justificar a deterioração das expectativas. Ainda que esses elementos tenham peso, é inegável que o principal vetor de incerteza está dentro de casa. A condução fiscal errática, a dificuldade em sinalizar compromisso consistente com o equilíbrio das contas públicas e a insistência em medidas de estímulo ao consumo sem contrapartida estrutural alimentam a desconfiança.
Em ano pré-eleitoral, e com o presidente já de olho em um eventual quarto mandato, o risco de captura da política econômica por interesses políticos de curto prazo se torna ainda mais evidente. A tentação de impulsionar a atividade a qualquer custo, mesmo que à custa da estabilidade futura, não é nova na história recente do País. E seus resultados tampouco são desconhecidos.
A taxa Selic, hoje em patamar ainda elevado (atualmente em 14,75% ao ano), reflete exatamente essa desconfiança. Mesmo com uma redução tímida recente, o Banco Central mantém postura cautelosa, ciente de que qualquer afrouxamento mais agressivo pode reacender pressões inflacionárias. Em outras palavras: a política monetária continua sendo obrigada a compensar os ruídos e a falta de credibilidade da política fiscal.
Esse descompasso tem consequências diretas. Juros altos encarecem o crédito, travam investimentos e limitam o crescimento. Não por acaso, as projeções para o PIB seguem anêmicas, girando em torno de 1,8% a 1,85% nos próximos anos. Trata-se de um crescimento insuficiente para atender às demandas sociais do Brasil e incompatível com o discurso otimista frequentemente adotado pelo governo.
Há, portanto, uma contradição central: enquanto o discurso político aponta para expansão e inclusão, a realidade dos números revela uma economia contida, pressionada e sem horizonte claro de aceleração sustentável. E essa contradição tende a se agravar à medida que o calendário eleitoral avança.
A experiência brasileira mostra que políticas econômicas guiadas por interesses eleitorais costumam cobrar um preço alto e, quase sempre, tardio. A inflação é, nesse contexto, um dos primeiros sinais de alerta. Ignorá-la, relativizá-la ou tratá-la como um detalhe técnico é um erro que o País já cometeu no passado.
O atual governo parece disposto a testar, mais uma vez, os limites dessa tolerância. Mas os números começam a indicar que esses limites estão cada vez mais próximos de serem ultrapassados. E, quando isso ocorre, o custo não recai sobre governos ou eleições, mas sobre a população, especialmente os mais vulneráveis, que sentem de forma mais aguda o peso da inflação no dia a dia.
Persistir nesse caminho é transformar a política econômica em instrumento de conveniência eleitoral, e não de responsabilidade pública. E esse é um risco que o Brasil não pode mais se dar ao luxo de correr.
A política econômica de Lula tem se caracterizado por um viés claramente intervencionista e expansionista, orientado por estímulos de curto prazo e aumento consistente dos gastos públicos, muitas vezes sem a devida contrapartida em responsabilidade fiscal. Sob a condução recente de Dario Durigan, a estratégia reforça a tentativa de impulsionar o consumo e aliviar pressões sociais imediatas, mas amplia a percepção de risco e incerteza quanto à sustentabilidade das contas públicas no médio e longo prazo. Trata-se, em essência, de uma política de alto custo e resultados incertos, que prioriza ganhos políticos imediatos em detrimento de uma trajetória econômica mais previsível e sólida.
A política econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva tem se caracterizado por um viés claramente intervencionista e expansionista, orientado por estímulos de curto prazo e aumento consistente dos gastos públicos, muitas vezes sem a devida contrapartida em responsabilidade fiscal. A estratégia reforça a tentativa de impulsionar o consumo e aliviar pressões sociais imediatas, mas amplia a percepção de risco. Trata-se, em essência, de uma política de alto custo e resultados incertos, que prioriza ganhos políticos imediatos em detrimento de uma trajetória econômica mais previsível e sólida.