Nova Fazenda, velhas ilusões
A troca no comando da política econômica, com a saída de Fernando Haddad e a ascensão de Dario Durigan, foi apresentada como um movimento de renovação. Mas, à luz dos primeiros sinais emitidos pelo governo, o que se desenha não é mudança e sim continuidade, porém com reforço de velhas práticas que já fracassaram no passado.
O mais recente gesto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — ao solicitar que o novo ministro encontre mecanismos para “ajudar” brasileiros endividados — revela menos uma estratégia econômica consistente e mais uma inclinação recorrente ao improviso populista. A ideia, em si, pode soar socialmente sensível. Mas sua formulação vaga e seu histórico tornam o alerta inevitável: trata-se de um filme já visto.
E os números atuais ajudam a dimensionar o problema e o risco. O número de inadimplentes no Brasil atingiu um recorde histórico, com aproximadamente 81,7 milhões de pessoas com CPFs negativados em março de 2026, conforme dados da Serasa. Isso representa cerca de 49,9%, ou metade, da população adulta brasileira, com o volume total de dívidas alcançando R$ 539 bilhões, impulsionado por juros altos e endividamento concentrado na baixa renda.
Trata-se do maior patamar da série histórica. Mais do que um dado estatístico, é um retrato do desequilíbrio financeiro do País, que deixou de ser exceção e passou a ser regra.
Paralelamente, o endividamento das famílias também bate recordes. Quase 80% dos lares brasileiros possuem algum tipo de dívida, o que evidencia que o problema não se restringe aos inadimplentes e que já contaminou toda a estrutura de consumo e crédito da economia . Em outras palavras, o Brasil vive uma crise estrutural de renda, crédito e custo de vida.
Diante desse cenário, a resposta do governo parece mirar o efeito e não a causa. Propor mecanismos genéricos de renegociação ou alívio de dívidas pode até produzir algum ganho político imediato, mas dificilmente enfrentará o núcleo do problema: a combinação de crescimento fraco, gasto público elevado, crédito caro e perda de poder de compra da população.
A história recente oferece um alerta claro. Durante o governo petista de Dilma Rousseff, iniciativas semelhantes foram adotadas sob o argumento de estimular o consumo e aliviar o orçamento das famílias. O resultado foi o oposto do prometido: aumento da inadimplência, desorganização do crédito e perda de confiança generalizada na política econômica. Ao insistir em soluções artificiais, aquele governo não resolveu o problema e agravou suas consequências.
É precisamente esse risco que volta ao horizonte. Ao invés de atacar as distorções que produzem o endividamento em massa, o governo sinaliza disposição para administrar seus sintomas. Trata-se de uma escolha que pode ser politicamente conveniente, mas economicamente irresponsável.
Mais grave ainda é o contexto em que essa proposta surge. O Brasil enfrenta juros elevados, incertezas fiscais persistentes e uma crescente desconfiança por parte do mercado e dos agentes econômicos. Nesse ambiente, qualquer medida que soe como intervenção improvisada ou estímulo artificial ao consumo tende a produzir o efeito inverso: aumento da insegurança e retração de investimentos.
A chegada de um novo ministro poderia representar uma inflexão, um momento de revisão de rota, de reconstrução de credibilidade e de compromisso com soluções estruturais. No entanto, ao alinhar-se prontamente a uma agenda de curto prazo e apelo fácil, Dario Durigan dá sinais preocupantes de que será mais um gestor da conjuntura do que um reformador de fato.
O Brasil não precisa de atalhos e sim de responsabilidade fiscal, previsibilidade e políticas que ataquem as causas do endividamento e não apenas seus efeitos. Qualquer caminho diferente disso cobrará seu preço mais adiante, como já cobrou antes.
A troca de nomes na Fazenda, ao que tudo indica, não significou mudança de rumo. E, quando a política econômica insiste em repetir erros conhecidos, o resultado dificilmente será diferente.