Tolerância ao inaceitável
Há algo de profundamente inquietante no Brasil contemporâneo: já não é apenas a sucessão de escândalos que preocupa, mas a reação cada vez mais morna que eles provocam. O chamado caso Fictor, que dominou o noticiário ontem, reuniu todos os elementos que, em outros tempos, seriam suficientes para gerar comoção nacional: suspeitas graves, personagens influentes e questionamentos institucionais. Ainda assim, o que se vê é um país que reage com cansaço, quando não com indiferença.
A indignação, que já foi motor de transformação, parece ter entrado em processo de esgotamento. Não por falta de motivos, mas pelo excesso deles. O brasileiro médio foi exposto, nos últimos anos, a uma sequência quase ininterrupta de crises políticas, escândalos de corrupção, decisões controversas e disputas institucionais. O resultado é uma espécie de saturação emocional: já não há energia cívica suficiente para reagir a cada novo episódio.
Esse fenômeno é perigoso porque corrói um dos pilares fundamentais de qualquer democracia saudável: a capacidade da sociedade de se mobilizar diante do que considera inaceitável. Quando tudo escandaliza, nada mais escandaliza de fato. E quando a indignação perde força, abre-se espaço para a normalização do absurdo.
O caso Fictor se insere exatamente nesse contexto. Não importa apenas o mérito das acusações ou o desfecho que terá, mas o ambiente em que ele ocorre: um cenário em que a confiança nas instituições já foi profundamente abalada e em que parte significativa da população já não acredita que episódios como esse resultarão em mudanças concretas. A descrença virou filtro. Antes mesmo da apuração, muitos já pressupõem impunidade ou manipulação e, por isso, deixam de reagir.
Há também um componente novo e decisivo nesse processo: a velocidade das redes sociais. Escândalos surgem, explodem e são substituídos em questão de horas. A indignação, que antes tinha tempo para amadurecer e se transformar em pressão política, hoje é descartável. O ciclo é rápido demais para gerar consequências duradouras. A cada novo episódio, a sociedade é convocada a reagir, mas já não dispõe do tempo, nem da disposição, para sustentar essa reação.
Não por acaso, cresce a sensação de que há sempre algo mais grave prestes a surgir, como se o presente fosse apenas um estágio intermediário de uma crise permanente. Isso dilui a gravidade dos fatos. O extraordinário vira rotina. O inaceitável passa a ser tratado como apenas mais um capítulo previsível de uma história que parece não ter fim.
Mas talvez o aspecto mais preocupante seja a adaptação silenciosa da sociedade a esse estado de coisas. A repetição de crises criou uma espécie de tolerância ao inaceitável. O que antes geraria protestos, hoje rende apenas comentários, memes ou, no máximo, uma breve onda de revolta digital que logo se dissipa sem deixar efeitos concretos.
Esse esgotamento da indignação não é neutro e produz consequências. Ao reduzir a pressão social, enfraquece os mecanismos de responsabilização e amplia o espaço para práticas que, em um ambiente mais vigilante, encontrariam maior resistência. A apatia, nesse sentido, deixa de ser apenas um sintoma e passa a funcionar como elemento que favorece a continuidade dos problemas.
Não se trata de defender indignação permanente ou histeria coletiva. O problema está no outro extremo: a apatia. Uma sociedade que deixa de se indignar corre o risco de aceitar como normal aquilo que deveria ser combatido com firmeza. E, nesse ponto, o desgaste emocional da população passa a ser funcional para quem se beneficia da ausência de reação.
O Brasil de hoje carece de reação. O desafio não é apenas revelar novos escândalos, mas recuperar a capacidade de se importar com eles. Isso passa por reconstruir a confiança nas instituições, mas também por resgatar o senso de responsabilidade coletiva que transforma indignação em ação.
Sem isso, casos como o Fictor deixarão de ser exceção para se tornarem apenas mais um episódio em uma rotina que já não surpreende. E quando a indignação se torna escassa, a democracia começa a perder, de forma silenciosa e progressiva, um de seus instrumentos mais essenciais: a pressão da sociedade sobre o poder.