Rico em petróleo, mas refém do preço

Por Cruzeiro do Sul

O Brasil vive uma de suas contradições econômicas mais emblemáticas. Em um momento em que a produção nacional de petróleo atinge níveis recordes e consolida o País entre os grandes produtores mundiais, o consumidor brasileiro continua pagando caro pelo diesel e pela gasolina. A contradição é evidente: um país que extrai milhões de barris por dia ainda convive com combustíveis caros, volatilidade de preços e crescente insatisfação de setores estratégicos da economia, especialmente o transporte rodoviário.

Nos últimos anos, a produção nacional avançou de forma expressiva, impulsionada principalmente pelo pré-sal. A estatal responsável pela maior parte dessa produção tornou-se uma potência global no setor, capaz de competir com gigantes internacionais. Em teoria, essa abundância de petróleo deveria representar uma vantagem estratégica para o País, garantindo energia mais barata, segurança de abastecimento e competitividade econômica.

Na prática, porém, o que se observa é algo bem diferente.

O Brasil produz muito petróleo, mas ainda refina pouco. Grande parte do óleo extraído nos campos nacionais é exportada, enquanto derivados essenciais, especialmente o diesel, continuam sendo importados para atender a demanda interna. Isso significa que, mesmo com produção recorde, o preço final do combustível segue sujeito às oscilações do mercado internacional, às tensões geopolíticas e às decisões de grandes produtores globais.

Esse modelo cria um ciclo perverso. O Brasil exporta matéria-prima e importa produto refinado, frequentemente pagando mais caro por algo que poderia ser produzido internamente em maior escala. A consequência recai diretamente sobre a economia nacional, pois o diesel, em particular, é o combustível que move o transporte de cargas e, por extensão, praticamente toda a cadeia produtiva brasileira.

Quando o diesel sobe, sobe junto o custo do frete. Quando o frete sobe, aumentam os preços dos alimentos, dos produtos industriais e dos serviços. A inflação se espalha silenciosamente pela economia, atingindo principalmente os consumidores de menor renda.

Não por acaso, cresce novamente no horizonte o fantasma de uma possível paralisação dos transportadores. O Brasil já experimentou, em passado recente, os efeitos devastadores de um bloqueio nas estradas. A greve dos caminhoneiros demonstrou com clareza o grau de dependência que o País possui do transporte rodoviário e a fragilidade logística de uma economia que ainda carece de investimentos consistentes em ferrovias e hidrovias.

Qualquer novo movimento de paralisação teria potencial para causar impactos imediatos no abastecimento, pressionar ainda mais os preços e gerar instabilidade política e econômica. Trata-se de um risco que não pode ser ignorado.

Mais preocupante é perceber que o problema não nasce apenas do preço internacional do petróleo. Ele também está ligado a decisões estruturais tomadas ao longo de décadas: a falta de investimentos suficientes em refino, a demora em ampliar a capacidade das refinarias existentes e a ausência de uma estratégia energética mais consistente para transformar a riqueza do petróleo em benefício direto para a economia nacional.

O resultado é um país que produz petróleo em abundância, mas continua vulnerável às turbulências externas. Basta uma escalada de tensão no Oriente Médio, um conflito que ameace rotas de exportação ou uma decisão de grandes produtores para que os preços globais disparem e, com eles, o custo da energia no Brasil.

Essa dependência externa, em um país com tamanho potencial energético, revela mais do que um problema de mercado. Revela um problema de planejamento.

Transformar riqueza natural em desenvolvimento exige visão estratégica de longo prazo. Exige investimentos em infraestrutura, capacidade industrial e estabilidade regulatória. Sem isso, o petróleo brasileiro continuará sendo apenas uma commodity valiosa exportada em grandes volumes, enquanto o consumidor nacional seguirá pagando caro para abastecer o carro, o caminhão ou o trator.

Se nada mudar, o paradoxo permanecerá: o Brasil continuará sendo um gigante na produção de petróleo e, ao mesmo tempo, refém do preço do combustível. E, em um país onde praticamente tudo se move sobre rodas, essa contradição não é apenas econômica — é também social e política.