Sinal que vem das gigantes

Por Cruzeiro do Sul

Em um intervalo de apenas dois dias, dois anúncios vindos de setores estratégicos da economia brasileira acenderam um sinal de alerta que não pode ser ignorado. De um lado, o tradicional Grupo Pão de Açúcar, um dos pilares históricos do varejo nacional. De outro, a Raízen, gigante do setor sucroenergético e licenciada da marca Shell no Brasil. Ambas recorreram ao mesmo instrumento jurídico: a recuperação extrajudicial. E não se trata de dívidas pequenas ou circunstanciais. O caso envolve valores bilionários que, somados, ultrapassam a casa de R$ 70 bilhões.

O pedido apresentado pelo Grupo Pão de Açúcar envolve aproximadamente R$ 4,5 bilhões em dívidas que a companhia busca renegociar com credores. Já a situação da Raízen é muito mais robusta e impressionante: a empresa tenta reorganizar cerca de R$ 65 bilhões em passivos, configurando uma das maiores reestruturações financeiras já registradas no País. Não são empresas periféricas ou negócios regionais. São conglomerados que movimentam cadeias inteiras de produção, distribuição, consumo, crédito e empregam muita gente direta e indiretamente.

A recuperação extrajudicial, vale lembrar, não é uma falência. Trata-se de um mecanismo previsto na legislação brasileira que permite às empresas negociar diretamente com seus credores um plano de reestruturação da dívida, posteriormente homologado pela Justiça. Na prática, significa pedir tempo para reorganizar as finanças, alongar prazos de pagamento, reduzir encargos ou mesmo converter dívidas em participação societária. É uma tentativa de evitar um colapso mais profundo. Mas, ainda assim, representa o reconhecimento explícito de que o modelo financeiro adotado até ali se tornou insustentável.

A pergunta inevitável é: como duas gigantes chegam a esse ponto quase simultaneamente?

Parte da resposta está, sem dúvida, dentro das próprias empresas. Décadas de expansão acelerada, aquisições ambiciosas e investimentos financiados por dívida tornaram muitos grupos empresariais altamente alavancados. Quando o cenário econômico é favorável, esse modelo funciona como uma engrenagem poderosa de crescimento. Quando o ambiente se deteriora, porém, a dívida passa a agir como uma âncora.

No caso da Raízen, os investimentos pesados em expansão industrial, biocombustíveis e infraestrutura energética foram financiados em larga escala por captação no mercado de capitais. No caso do Grupo Pão de Açúcar, pesaram anos de reestruturações internas, reorganizações societárias e a competição brutal do varejo alimentar brasileiro, cada vez mais comprimido por margens apertadas e custos operacionais crescentes, além da concorrência.

Mas limitar a análise a erros de gestão seria simplificar demais um problema que também possui raízes macroeconômicas profundas. O Brasil convive há anos com um ambiente de crédito extremamente caro, marcado por uma das maiores taxas reais de juros do planeta. Empresas que captaram recursos em momentos de crédito mais barato passaram a enfrentar, na hora de refinanciar suas obrigações, um cenário completamente diferente: juros elevados, investidores mais cautelosos e maior dificuldade para rolar passivos.

Some-se a isso um crescimento econômico irregular, frequentemente abaixo do potencial do País. A receita das empresas cresce lentamente enquanto o custo da dívida continua avançando. Em outras palavras: o faturamento anda a passos curtos enquanto os juros correm em disparada.

O resultado é uma armadilha financeira. Empresas intensivas em capital — como redes varejistas nacionais ou gigantes do setor energético — acabam pressionadas entre custos crescentes, margens apertadas e passivos cada vez mais difíceis de administrar.

Há ainda um componente político e institucional que não pode ser ignorado. Nos últimos anos, o ambiente econômico brasileiro tem sido marcado por insegurança regulatória, mudanças frequentes de políticas públicas e um clima geral de desconfiança entre agentes econômicos. Investidores se tornam mais cautelosos, o crédito encarece e o risco percebido aumenta. No Brasil atual, onde a previsibilidade é frequentemente escassa, até conglomerados bilionários podem acabar tropeçando.

Quando duas empresas desse porte entram em processo de renegociação de dívidas, o impacto não se restringe aos seus balanços. Ele se espalha pela economia. Bancos, fundos de investimento, investidores institucionais e milhares de fornecedores passam a acompanhar de perto cada movimento dessas companhias. No caso da Raízen, por exemplo, a reestruturação envolve grandes volumes de títulos privados como debêntures e certificados do agronegócio, instrumentos amplamente distribuídos no mercado financeiro.

Isso significa que uma crise corporativa desse tamanho pode reverberar em todo o sistema de crédito.

É verdade que o capitalismo moderno convive com ciclos de expansão e reestruturação. Empresas crescem, se endividam, reorganizam-se e seguem em frente. Nada disso é necessariamente anormal. O que chama atenção neste momento é a simultaneidade e a magnitude dos números envolvidos.

Quando duas gigantes de setores completamente diferentes recorrem quase ao mesmo tempo à renegociação de dívidas bilionárias, o episódio deixa de ser apenas um problema empresarial isolado. Passa a ser também um sintoma.

Talvez seja cedo para falar em crise corporativa no Brasil. Mas também seria ingenuidade ignorar os sinais que começam a surgir no horizonte econômico. Dívidas gigantescas, crescimento moderado, crédito caro e insegurança institucional formam uma combinação perigosa.

E quando até gigantes começam a cambalear, o País inteiro deveria prestar atenção.